YVY-Mistérios da Terra/Capítulo 15 – final

                                                 

̶  Yvytu! Achamos o velho Nhee Porã!  ̶ As luzes do dia já se faziam presente sobre o rio Uruguai, e Eva e Odara caminhavam juntas entre os destroços da batalha, quando ouviram o aviso. Era um grupo de guaranis que estavam no interior da mata procurando sobreviventes. Ela correu depressa para o local. Encontrou o avô caído, de barriga para cima. Um ferimento de bala no lado direito do tórax vertia sangue.

Eva se abaixou e, com cuidado, ergueu o velho Moreyra pelos ombros. O pescoço dele não acompanhou o movimento do corpo, pendendo para trás. Ela aconchegou a cabeça do avô em seu peito. Tudo era silêncio na mata. O Palavra Bonita havia se calado para sempre.

Então, alguém se aproximou de Eva, por trás, tocando-lhe o ombro. Era o padre Antônio.

̶  O senhor aqui, padre?  ̶  Eva tinha a voz um pouco embargada.

̶  Claro, minha filha. Fiquei de longe, rezando por você. Como eu já disse, uma vez, você é especial.

Outros guaranis se aproximaram deles e carregaram o corpo do velho Moreyra, o Nhee Porã, para uma canoa. Todos voltariam para a Redução, onde, ao que tudo indica, teria paz por mais algum tempo.

Em meio aos preparativos, Eva notou Odara, à beira do rio, de braços cruzados. A jovem de pele negra tinha um olhar vago, fixo na água corrente, e sorriu, um sorriso afetuoso, quando se voltou para a jovem de pele vermelha que se aproximava dela.

̶  Então, você já sabe o que vai fazer?  ̶  Eva devolvia o sorriso.

̶  Não sei, mas gostaria de voltar para o lugar de onde vim, de onde me arrancaram.

A guarani se aproximou da ex-escreva, tocando-lhe um dos ombros.

­ ̶  Gostaria de ajudar, se eu pudesse  ̶  Odara, apenas sorriu, mais uma vez.

̶  Sabe  ̶   Eva continuou  ̶  preciso acompanhar meu povo ao Yvy Maraêy. A terra sem males.

Odara ficou pensativa por uns instantes, com os olhos imersos na correnteza do rio. Então, perguntou.

̶  E onde fica isso, essa terra sem males?

̶  Não sei, mas meu avô me ensinou que fica em algum lugar à leste. Do outro lado, de lá, da grande água.

Enquanto as duas conversavam, canoas iam cruzando o rio Uruguai, algumas pessoas abanavam para Eva. A jovem guarani havia conquistado uma posição importante entre seu povo.  Odara notava isso, e se voltou para sua nova amiga.

̶  Você disse do outro lado da grande água? Engraçado, é de lá que eu vim.

 

 

YVY – Mistérios da Terra / Capítulo 12

A Redução parecia tão pequena lá do alto da colina. Eva e o avô levaram quatro dias para chegar até ali. Ela vestia as mesmas roupas de quando deixara o convívio no mundo cristão, o chiripa e as botas de garrão de potro com esporas. Próprias para montaria. Mas ela não pôde montar o tempo todo durante a viagem. Os dois tinham apenas um cavalo. Em boa parte do trajeto, ela puxou o animal pelas rédeas. Montado nele, ia o velho Moreyra. Ao avistar a redução, a ansiedade tomou de conta de Eva e o cavalo teve que carregar um peso extra na parte final da jornada.

O padre Antônio havia acabado há pouco suas orações da manhã, se preparava para aquecer água no fogão de barro quando um menino veio chamá-lo. Ainda segurando a chaleira, ele deixou a cozinha coletiva da redução e foi em direção ao pátio. Ao ver os recém-chegados, foi assaltado com um misto de sentimentos, desde surpresa, ressentimento, até alegria.

Passada a torrente de lembranças de todo tipo, inspirou fundo e sorriu, soltando o ar pelo nariz.

̶ Mais duas ovelhas para meu rebanho?

Avô e neta, em pé, lado a lado, se entreolharam.

̶  Acho que não. Vamos entrando, então  ̶  convidou o sacerdote.

O trio conversava, sentado em roda, enquanto a água da chaleira esquentava. Falaram sobre o inverno, que havia sido muito chuvoso. O padre comentou sobre a chegada de novos moradores à redução, oriundos de uma aldeia próxima dali. Avô e neta contaram sobre as dificuldades da viagem.

Quando a chaleira começou a expelir vapor e a chiar, o padre se levantou e a tirou de cima da chapa de ferro. Encheu uma cuia de erva-mate com a água e tomou um gole, cuspindo, logo em seguida, o líquido que acabara de sorver. Encheu mais uma vez a cuia e voltou a sentar-se próximo aos recém-chegados.

Enquanto o velho sacerdote tomava o Ka’a, reparava na velhice de Moreyra. Tão velho quanto ele mesmo. Como pôde ter vivido tantos anos sozinho na mata? Nunca entenderia essas pessoas sem Deus, pensou. Mas, suas reflexões foram interrompidas.

̶ Padre, temos uma coisa muito importante para dizer. ̶  Eva anunciou  ̶  A Redução corre perigo!

O jesuíta olha para a garota que já foi como sua filha. Volta seu olhar para Moreyra e, então, pergunta.

̶  E que perigo seria esse?

Eva estava pronta para responder, mas o velho guarani tocou em seu ombro, pedindo a palavra.

̶  Padre Antônio. O senhor deve se lembrar do dia em que deixei minha neta com você. Não?

Aquilo já fazia vinte anos, mas o padre Antônio lembrava como se fosse ontem. Fez um gesto afirmativo com a cabeça.

̶  Então, já deve saber de que perigo estamos falando.  ̶  Concluiu.

Antônio agarrou a chaleira mais uma vez, encheu a cuia e a passou para Eva. Então, respirou fundo e coçou o queixo.

̶  Moreyra, você está falando daquela profecia sua sobre Eva ter que ficar comigo para que eu a protegesse do seu… como é mesmo…Anhá?

̶  Meu avô se chama Nhee Porã, padre. E eu, agora, sou Yvytu Ete!  ­̶  Afirmou a garota guarani, com convicção.  ̶  Tive uma visão. E, nessa visão, um exército de paulistas invadia e destruía a Redução.

Tomando a cuia de volta, Antôno repetiu o processo de colocação da água quente e a retornou, agora, para Moreyra.

̶  Deixe-me ver. Então, eu deveria organizar toda a gente que vive aqui para uma retirada e abandonar nossas casas, nosso trabalho, nossa igreja!  ̶  Nessa última palavra o padre levantou o tom de voz, para, então, diminuí-lo logo em seguida.  ̶  Tudo, por causa de uma superstição de selvagens!  ̶  Nesse final, ele levantou a voz uma vez mais.

O ambiente silencia por alguns instantes. Então, Moreyra se vira para sua neta.

̶  Entendeu, Yvytu? A palavra não significa nada para os juruás.

Eva se voltou para o sacerdote.

̶  Padre Antônio, o senhor sempre disse que eu era especial. Eu não entendia o porquê. Mas agora eu sei, agora eu me sinto especial!

O padre cerrou o cenho e seus olhos miraram o vazio durante um tempo. Quando pegou fôlego para falar uma voz se ouviu do lado de fora.

̶  Padre Antônio! Padre Antônio!  ̶ O homem foi até a porta para ver o que acontecia. Eram alguns moradores. Eles seguravam uma mulher negra prestes a desfalecer. Suas vestes estavam esfarrapadas e sujas. Quem seria ela? O padre pensou.

YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 11

Mulher negra

A longa coluna formada por carroças, carros de boi, mulas de carga e homens à pé e à cavalo partiu da fazenda de Raposo Velho há um mês. O homem conhecido como Diabo Velho encabeçava a marcha, montado no seu cavalo branco. Haviam chegado ao topo do imenso planalto no interior do continente. A viagem seguia, em meio a uma vasta floresta de pinheiros, em direção ao sul.

Odara estava fascinada com aquelas árvores. Eram muito altas, com os galhos encurvados para cima, bonitas de se ver. O problema era suas folhas secas pelo chão, eram duras e pontiagudas. Para quem, como Odara, andava descalço, era como pisar em pontas de facas.

No começo, quando soube que teria que acompanhar o patrão até o sul da colônia, ficou apreensiva, temendo o que pudesse acontecer no caminho. Mas, ao fim, se sentiu um pouco mais livre do que fechada na casa grande. Ao menos, poderia conhecer paisagens novas.

Ao seu lado, ia sempre Jerônima, sua companheira desde o embarque no navio negreiro. Lhe ajudava com a preparação da comida. Faziam ensopados, feijão com carne seca, pirão de milho, de mandioca. Para preparar as refeições, usavam os animais que o patrão mandou levar na viagem. Mas, às vezes, acontecia de um homem trazer alguma caça, abatida no meio do caminho. Cozinharam bugios, quatis, gambás, jacus, perdizes e muitos outros animais que Odara não conhecia.

Depois de muito tempo viajando, tanto que Odara não podia contar, ou não estava interessada nisso, pararam nas margens de um grande rio. Lhe disseram que o rio se chamava Uruguai. Ali, o Diabo Velho mandou montar acampamento.

̶  Negra, água!  ̶  Odara ouviu, agarrou as bolsas de couro de cabra e foi para o rio, Jerônima a acompanhou.

Chegando lá, as duas se agacharam para encher as bolsas. Quando a sua já estava bem cheia, Odara se levantou, pronta para ir embora. Jerônima permaneceu um pouco mais de tempo agachada.

̶  E então, vamos embora?  ̶  Disse Odara.

Jerônima olhou para a companheira, mas continuou na mesma posição. Então, voltou seu olhar para a outra margem do rio e suspirou.

̶  Você não gostaria de lembrar?

Odara estalou a língua, demonstrando impaciência.

̶   Já lhe disse que não quero lembrar nada! Essa é minha vida agora, eu sou uma escrava!

̶  Mas, e se você nem sempre tivesse sido uma escrava?

Odara não respondeu, abaixou a cabeça pensativa. Depois de um instante, fez um gesto, pedindo que a companheira se apressasse. Jerônima levantou-se com sua bolsa cheia d’água e voltaram para o local onde a coluna montava acampamento.

À noite, Odara se deitou embaixo de uma carroça, sobre uma esteira de palha trançada. Passara o dia fazendo comida e servindo aos homens. As pálpebras, pesadas, fecharam-se com facilidade. Mas não permaneceram assim por muito tempo.

No começo, ela pensou que aqueles sussurros eram parte de um sonho. Porém, as mãos que sacudiram seus ombros a convenceram do contrário. No escuro, ela reconheceu o rosto redondo de Jerônima.

̶  Odara, acorde. Precisamos fugir.

Fugir para onde? Ela quis perguntar. Não conheciam nada, nem ninguém naquele lugar. Quando escutou o som de vozes alteradas pelo álcool, mudou de ideia. Um frio percorreu seu corpo e seu instinto falou mais alto. Decidiu seguir a amiga.

̶  Negrinhaaaa! Cadê você? Tenho algo aqui que você vai gostar!

Era um grupo de homens que fazia parte da coluna liderada pelo Diabo Velho. Conhecidos como bandeirantes. Quando chegaram ao local onde Odara dormia, não a encontraram.

̶  Seus porcos! Eu disse para fazerem silêncio.  ̶  Repreendeu um deles.

Os homens a procuraram em volta, nas outras carroças e barracas. Sem sucesso. Enfim, deduziram que ela pudesse ter aproveitado a escuridão para escapar. Determinados a encontrá-la, buscaram os cães. Os animais esfregaram os focinhos na esteira que servia de cama para Odara. Então, um deles, farejando ao redor, encontrou o rastro da fugitiva. Todos se precipitaram mata adentro, em direção ao rio.

Odara e Jerônima tinham uma boa vantagem em relação aos bandeirantes, mas corriam de forma desajeitada pela floresta. Tropeçavam em raízes, empurravam galhos, pulavam sobre troncos caídos. Só as estrelas e a lua quebravam a escuridão. Odara lembrava da vez em que vira os homens do patrão violentarem uma outra negra da fazenda. Foi quando ela ia lavar roupa no riacho. De repente, enquanto caminhava, ouviu gemidos abafados de desespero e movimento nas folhagens. Ela se esgueirou para descobrir do que se tratava. As lembranças do que ela vira naquele dia, lhe davam mais ânimo para a fuga.

As duas já estavam se aproximando do meio do rio, quando os homens chegaram à margem. Odara acompanhava a amiga com um nado desajeitado, que ela nem ao menos sabia que era capaz de realizar. Ouviu os gritos, os xingamentos e os latidos e, logo depois, as balas que começaram a zunir nos seus ouvidos. Ela engoliu água e cuspia, enchia os pulmões com todo o ar que podia e continuava movimentando pernas e braços, atrapalhada pelos panos que vestia. Aquilo parecia interminável. Enfim, começou a sentir o chão firme sob os pés e se apressou mais ainda.

Quando saíram da água, as duas arfavam. Odara olhava para Jerônima como quem diz, “e agora?”. A amiga não teve tempo de responder coisa alguma. Escutaram mais uma bala assobiar na escuridão e Jerônima caiu. Desesperada, Odara a abraçou e tentou erguê-la, uma das suas mãos sentiu que não era só a umidade da água que molhava as costas da amiga. Arrastaram-se para dentro da mata.

Do outro lado, os bandeirantes tentavam avaliar a situação através da escuridão.

̶  Deixem isso! Não vou entrar nesse rio por causa de uma negra. Vai virar comida de onça, agora.

Após tropeçarem por mais alguns metros, as duas se sentiram seguras o bastante para descansar. Odara escorou a amiga embaixo de uma árvore de raízes grossas e sentou-se ao seu lado. Jerônima tinha o pingente de espada no pescoço. Arrancou ele e o ofereceu para Odara.

̶  Tome, minha querida. Lembre-se, você não é uma escrava.

Odara agarrou o pingente e encostou a cabeça no ombro da amiga. Quando o dia amanheceu, apenas Odara se acordou. Sacudiu Jerônima e percebeu, depois de um tempo, que estaria sozinha dali para frente. Observou em volta, como se guardasse os detalhes daquele lugar. Então, olhou uma última vez para a companheira de tantas jornadas, amarrou o pingente no pescoço e começou a caminhar em direção ao sul.

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YVY-Mistérios da Terra/Capítulo 10

Eva, rebatizada Yvytu Eté, sabia da doença desconhecida que levara embora seus pais e toda a sua tribo. Sabia, também, que ela e seu avô, que a entregou ainda bebê ao padre Antônio, eram os únicos que não tinham sido tocados pela enfermidade. Ouviu de padre Antônio que esse milagre de Deus acontecera para salvá-la e para castigar o velho Moreyra. Salvá-la, pois ela era especial; castigar seu avô, pois não era um bom cristão e viveria sozinho o resto da sua vida.

Porém, naquele dia, ela conheceu outra versão para a sua história. O que a levou a refletir sobre tudo que havia aprendido até então.

̶  Aquela doença foi obra do Anhá, minha neta.

Após escutar seu avô, Eva tomou um gole do ka’a e colocou a cuia de lado. Levantou-se e foi para a entrada da cabana, o sol já começava a espalhar sua luz pela floresta.

Eva já havia aprendido sobre o Anhá, o senhor do mau. Aquele que quer desfazer tudo o que o grande pai Tupã fez. Então, um pensamento veio à sua cabeça, a doença que levou sua tribo foi obra de Deus, como disse o padre, ou do Diabo? Nesse caso, para quem o padre Antônio trabalhava?  Voltou-se para o seu avô.

̶  Mas, por que a doença não nos atacou também?

A jovem foi convidada a voltar para perto da fogueira. O velho Palavra Bonita já preparava o petyngua. Quando ela se sentou, ele lhe alcançou o cachimbo aceso. As primeiras tragadas  arderam no interior da sua boca. Aos poucos, ela foi liberando a fumaça pelo nariz.

Então, devolveu o cachimbo para seu avô e, logo depois de algumas baforadas, o tomou de volta. Esse movimento foi se repetindo e, com o tempo, o ambiente estava tomado pela fumaça branca. O velho Moreyra, as paredes de pau a pique, o telhado de taquara, tudo sumira da vista de Eva.

Ela levantou e começou a andar. Não sabia onde estava. De repente, sentiu que seu pé direito encostava em alguma coisa e olhou para baixo. Era uma pessoa deitada, inerte. Dava pra ver que era um homem do seu povo, e tinha o corpo coberto por feridas cheias de pus. Ela se assustou, voltou o olhar ao redor de si e percebeu que havia muitas pessoas na mesma situação, atiradas pelo chão.

O som de um chocalho chamou sua atenção e ergueu a cabeça para o seu lado direito. Dava para ouvir uma batida ritmada, acompanhada por um canto masculino. Aos poucos, ela foi identificando um vulto em meio à fumaça. Ela se aproximou, com calma, e pode ver com mais clareza. Era o seu avô, mais jovem, do jeito que ela o via em seus sonhos.

Se aproximou mais e pode perceber que ele carregava um bebê no colo. A expressão do homem era de angustia. Seus pés também acompanhavam o ritmo do chocalho, cada vez mais frenético. Então, faíscas luminosas atraíram a atenção de todos para o alto. Eram relâmpagos. Eva começou a se assustar com aquilo tudo. Então, quando, em meio aos clarões, enxergou o rosto de um homem branco, velho, ela caiu sentada, com as mãos protegendo o seu rosto.

O velho, do alto, encarava seu avô, que tinha o bebê no colo. Os olhos azuis do velho chispavam. Sua imensa barba grisalha e os cabelos longos revoavam em meio aos relâmpagos. Seu pavor aumentou quando, de trás da fumaça, viu mais homens brancos. Como aqueles que destruíam a Redução, no seu sonho. Começaram a cercar seu avô, devagar.

Nhee Porã não parou de cantar e tocar seu chocalho em nenhum momento. Ao contrário, fazia isso com cada vez mais vontade. Até que, com uma das mãos, ergueu o bebê bem alto. Eva percebeu que tanto os homens ao redor do seu avô, como o velho que pairava nas alturas, se assustaram e recuaram um pouco. Um vento forte começou a soprar, dispersando a névoa branca. Eva observava tudo, perplexa.

A ventania terminou de afastar a fumaça e, mais uma vez, Eva estava na praia dos seus sonhos. Mas tinha algo diferente. Entre a areia e o mar, havia uma longa paliçada, ameaçadora. O que ela estaria protegendo? O mar ou a terra? Ela não pôde refletir muito sobre isso. Percebeu que já havia voltado para o redor do fogo, junto com o velho Moreyra, que segurava o petyngua e a observava com seus olhos serenos.

̶  Meu avô. O velho de barbas brancas nos olhando lá de cima, era o Anhá?

O velho Nhee Porã balançou a cabeça.

̶  Sim, Yvytu.

̶  Ele que trouxe a doença?

̶  Na verdade, ele trouxe os juruás. Os juruás trouxeram a doença e tudo o mais que atinge nosso povo.  ̶ O avô de Eva bateu o petyngua sobre o fogo, expulsando o conteúdo do cachimbo.  ̶  O poder do meu canto não foi bastante para proteger nossa tribo, só consegui salvar a mim mesmo.  ̶  O velho abaixou a cabeça e esfregou seus olhos, que começavam a lacrimejar.  ̶  Com você foi diferente. Sobreviveu por outro motivo.

Eva enrugou a testa, como quem não estava entendendo nada.

̶  Sim, minha neta. Você sobreviveu porque é especial. Você veio ao mundo para conduzir nosso povo ao Yvy Maraêy. A Terra Sem Males, o paraíso guarani. O Anhá não podia fazer nada contra você.

Era muita informação de uma única vez, Eva sentia sua cabeça ferver. O padre Antônio sempre dizia que ela era especial. Mas, parece que não pelo motivo que ele imaginava. Ela se levantou e começou a andar pela cabana.

̶  O Anhá não podia me matar, mas podia matar nosso povo. Não é isso?

̶  Sim, minha neta. E a única barganha que consegui fazer com ele foi de entregá-la aos homens de vestido preto, em troca de deixar nosso povo em paz.

̶  Então, por isso a minha visão! Comigo fora da Redução, o acordo foi desfeito e os homens brancos estão vindo para destruir tudo.

Ela voltou a se sentar ao redor do fogo, próximo ao seu avô.

 

̶  Mas tem mais uma coisa. Onde fica o Yvy Maraêy?

̶  Não sabemos. Mas, dizem que viajando sempre para a direção do lugar onde o sol nasce, existe a grande água, o Paraguaçu. Que os juruás chamam de oceano Atlântico. O paraíso pode ficar do outro lado da água.

Assim, Eva entendeu mais um elemento recorrente nos seus sonhos, o mar.

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YVY-Mistéiros da Terra/Capítulo 9

As noites e os dias iam se sucedendo para avô e neta. Com frequência, navegavam pelo Uruguai acima ou abaixo, pescando e conversando. Eva conhecia um novo mundo. Seu ensinamento guarani era todo através das palavras do velho Nhee Porã. Mas também através da prática. Roçando e colhendo milho, conheceu a história de Avati. O jovem guerreiro que ofereceu sua vida para salvar seu povo e, de seus olhos plantados na terra guarani, brotaram as espigas douradas que lhes serviam de alimento. Tomando mate, conheceu a história de Ka’a, a jovem que foi morta pelo seu amado. Sua vida era recheada com as palavras do seu avô.

̶  A palavra é a maior riqueza para nosso povo, minha neta. Somos feitos de palavras. Cada coisa nesse mundo foi criada pela palavra do nosso grande pai, Nhanderu. ̶  Enquanto falava, Nhee Porã entalhava um pequeno pedaço de madeira.

̶  As palavras erradas podem levar para o caminho errado.

O velho guarani terminou de entalhar e deu o artefato para sua neta, recém batizada como Yvytu Eté. Com um sorriso, a garota analisou o objeto. Uma onça de madeira. Então, ela perguntou.

̶  Vovô. O senhor sempre usou as palavras corretas?

Sem responder, o velho abaixou a cabeça, ficou um instante pensativo. Levantou-se, agarrou uma cabaça de água e encheu um recipiente de cerâmica que foi levado ao fogo. Não conversaram mais até a hora de dormir.

Eva vê a Redução, o local em que cresceu. Homens à cavalo adentram por suas ruas. À frente deles, um velho, de barba branca e comprida, dividida no meio, como língua de cobra. Tinha um chapéu de abas largas na cabeça. 

Então, o velho de barba branca grita alguma coisa. Os homens começam a invadir as casas e arrancar as famílias de dentro. Algumas pessoas são mortas sem qualquer cerimônia, com golpes de espada. Os que tentam fugir são alcançados pelos tiros de mosquete ou pistola. A Redução começa a arder.

Eva despertou suando. Uma sensação de medo invadiu seu coração. Sua rede ainda balançava, quando viu seu avô, em pé, ao seu lado. Levou um susto.

̶  Não foi um simples sonho, Yvytu. Há coisas que preciso lhe contar.

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YVY – Mistérios da Terra/ Capítulo 7

A procissão de acorrentados seguia silenciosa pela trilha. Vez ou outra, quando o cansaço fazia o ritmo da fila diminuir, se ouvia o som de um chicote ou de um grito, para forçar os infelizes a apertar o passo. Não fosse essa sinistra comitiva, se poderia acreditar que aquele lugar era o paraíso.

A trilha quase se escondia na densa vegetação. Ás vezes,  passava pela beira de um precipício e a paisagem de morros se descortinava, como se fossem dentes verdes da boca de um gigante. Para a garota que ganhou o nome de Odara, a floresta por onde andavam, lembrava um pouco a sua casa  ̶  lá no outro lado do oceano  ̶  exceto pelo sobe e desce das encostas.

As duas mulheres que se conheceram no navio negreiro, iam juntas, uma atrás da outra.

̶  Odara!

̶  Não me chame assim, já disse.

Jerônima, parecendo não se aborrecer com a resposta da companheira de jornada, continuou:

̶  Odara, você gostaria de lembrar como era sua vida antes?

A jovem ficou pensando na pergunta. Talvez, quisesse se lembrar, mas numa situação com aquela, era melhor não lembrar nada, mesmo. Imagine, ficar pensando nas pessoas que você perdeu, nas coisas que fazia… Seria muito mais dolorido.

̶  Olha, Jerônima…

Porém, ela não pôde concluir a frase, um homem à cavalo logo se aproximou.

̶  Cala a boca, negra!

E o chicote fez-se ouvir mais uma vez, próximo aos ouvidos, fazendo as mulheres se encolherem e apertarem o passo.

Um mês de caminhada. Esse foi o tempo que levou para chegarem ao seu destino. Uma grande fazenda, localizada em uma planície, cercada por morros verdejantes. Ao chegar, a coluna começou a se dispersar. Ordens eram dadas, cada qual buscava realizar seus afazeres, descarregar os animais, levá-los para beber água, guardar mantimentos, entre outras coisas. Quanto aos aprisionados, o lugar deles era o porão da grande casa, que era a sede da fazenda.

Um mês de caminhada. Esse foi o tempo que levou para chegarem ao seu destino. Uma extensa fazenda, localizada em uma planície, cercada por morros verdejantes. Ao chegar, a coluna começou a se dispersar. Ordens eram dadas, cada qual buscava realizar suas tarefas. Havia quem descarregava os animais, quem guardava as bagagens, ninguém ficava parado. Quanto aos aprisionados, o lugar deles era o porão da grande casa, que era a sede da fazenda.

Lá dentro, Odara recebeu, de uma senhora negra, um prato de madeira com uma farinha branca, que ela não conhecia. Também recebeu uma laranja. A senhora a ensinou a pôr a farinha na boca com a mão e a espremer a laranja para ajudar a engolir. Essa foi sua primeira refeição naquele lugar.

Não muito longe dali, dois homens levavam seus cavalos ao estábulo. Um deles avistou uma figura na varanda da casa grande, procurando não chamar muito a atenção, ele olhou para o parceiro e fez um movimento de cabeça.

̶  Olha lá. É Dom Raposo Velho, o dono da fazenda.

̶  Por que chamam ele de Diabo Velho?  ̶  O homem olhou para os lados antes de fazer a pergunta.

̶  Não sei, mas dizem que tem parte com o Diabo. É por isso que tem tudo o que tem.

Enquanto esses dois concluíam seus afazeres, Dom Raposo Velho, recebia os recém-chegados na varanda, para saber como foi a viagem e os negócios. Era um homem de barba cinzenta e bifurcada, como língua de lagarto. Alto e corpulento. Seu chapéu de abas largas escondia a cabeça calva.

O sol nem havia aparecido por detrás dos morros verdes e Odara e Jerônima já estavam trabalhando. As duas foram designadas para as tarefas domésticas e tudo deveria estar pronto antes do amo se levantar.

Odara viu os raios solares entraram pelas frestas da cozinha. Escutou canto de pássaros e pensou que aquela deveria ser uma linda amanhã. Puxou o trinco e empurrou uma das folhas da janela. Ao olhar para fora, um homem recém começava a ser chicoteado no pelourinho. As costas negras mal tinham sido marcadas. Ela voltou para dentro e fechou tudo, como estava antes.

Depois de servirem a mesa e do amo se alimentar, as duas começaram a organizar tudo. Esse era o dia-a-dia das mulheres que vieram do outro lado do oceano. Odara estava se conformando com aquilo, não que estivesse feliz. Mas, como não conhecera outra vida, ou, ao menos, não lembrava, seguia adiante.

Apenas não entendia a situação de sua colega, Jerônima, que não demonstrava a mesma tristeza que os demais escravos da fazenda. Isso a intrigava. Uma tarde, quando Jerônima, de joelhos, esfregava o chão da sala, percebeu que ela sorria.

̶  Como você pode sorrir? Eu não entendo.

A mulher, largou o pano ensaboado, colocou as mãos na cintura e olhou para Odara, sem desfazer o sorriso.

̶ Minha Querida, eu não me preocupo com esses homens. Eles não podem fazer nada contra mim, contra o que eu sou.

Odara parecia que estava mais confusa ainda. Bateu com as mãos nas coxas e abriu os braços. jerônima riu e tirou alguma coisa debaixo do pano que trazia enrolado na cabeça.

̶ Eles nunca poderão quebrar meu espírito, porque eu sei de onde vim.

Então, ela abriu a mão e mostrou para Odara o que havia escondido. Era um pingente. Tinha o formato de uma espada curva, com protetor no cabo.

As duas escravas faziam o seu trabalho e não chamavam a atenção do seu amo, Dom Raposo. Conhecido como Diabo Velho. Numa manhã, ele se aproximou delas.

̶  Estou indo para a Vila.  ̶  O tom de voz seco e o olhar frio paralisou as duas.

̶  Sim, meu senhor.  ̶  Elas responderam, de cabeça baixa.

Até a Vila, se levava uma manhã de cavalgada. O homem foi acompanhado de dois empregados, dois mamelucos descalços. Aquele era um lugar pouco povoado, se via casas de taipa espalhadas e roças de mandioca aqui e ali, a chegada do trio chamou a atenção de todos, mas ninguém ousava levantar a cabeça para encará-los. Apearam defronte a Igreja, construída no ponto mais alto da localidade. Era uma construção simples, apesar do seu tamanho avantajado. Possuía uma torre, que ficava ao lado esquerdo de quem entra na Igreja.

O Diabo Velho se encaminhou para o interior do prédio, enquanto os outros dois ficaram esperando. Lá dentro, sem tirar o chapéu, foi direto para o confessionário. Uma espécie de câmara de madeira, adornada com motivos cristãos, com uma única abertura feita de frestas verticais, de modo dificultar a visão para o seu interior. Também havia um suporte  para os prováveis pecadores se ajoelharem e falarem com o padre, lá dentro.

O recém chegado colocou seus joelhos no local determinado, tirou o chapéu, olhou para os lados e aproximou o rosto da abertura de frestas.

̶  Senhor, mandou me chamar?  ̶  A resposta demora uns instantes, então, se ouve uma voz rouca do interior do confessionário.

̶   O pacto foi quebrado.

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YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 6

Atravessar a mata à cavalo não foi assim tão difícil, havia já uma trilha formada há muito tempo, pelo seu próprio povo, durante suas andanças por aquelas terras. Eva desceu do cavalo e ia puxando ele pelas rédeas. Não estava tão habituada àquele ambiente, de árvores altas e vegetação tão densa que a luz do sol mau chegava ao chão. Crescera na redução, correndo pelas campinas ao redor, pouco se aventurava nas florestas mais próximas. Tentava se acostumar com a ideia de que ali seria sua nova casa. Não parecia tão ruim.

Ela chegou a uma das margens do rio Uruguai, quando o sol já começava a se esconder. Não muito longe de onde ela estava, porém mais ao norte, se encontrava o salto do Yucumã, uma queda d’água não muito alta, mas de largura impressionante. Eva tinha a informação de que próximo dali, viveria o seu avô, aquele que todos conheciam como o velho Moreyra. Era o lugar ideal para ele, protegido pela queda d’água, que dificultava a penetração das embarcações dos brancos naquele território.

Em volta da fogueira que acendeu, Eva esticou uma esteira e se deitou. Os dois dias de cavalgada cobravam o seu preço. Antes de adormecer, pensou na viagem que havia feito. Como fará para encontrar seu avô? Não havia pensado nessa possibilidade quando partiu da redução e se convenceu de que não deveria pensar nela agora. Para lá, o lugar onde lhe roubaram o amor da sua vida, não voltará mais. Até que, enfim, a órfã se entrega ao sono.

Aquela mesma praia, porém agora, além da chuva, temos o vento. Lá está Eva, em pé, observando a mulher negra que emerge das ondas, em direção à areia. Enquanto caminha, sorri. Um sorriso brilhante. Brilhava mais que a lua cheia.

Ela se aproxima de Eva, os olhos das duas não se desviam. A mulher estende a mão, Eva a agarra. Logo as duas se abraçam. É um abraço forte, como se fossem duas almas gêmeas separadas por muitos anos. A sensação de frio, por causa do vento e da chuva, já não existe mais.

Eva abriu os olhos, mas ainda não podia enxergar nada. A luz da manhã a ofuscava um pouco. Sentiu o sereno sobre a pele de vaca que usava como cobertor, olhou para a fogueira, agora eram só cinzas fumegantes. Então, se sentou, abraçou os joelhos e respirou fundo. Pensava no que fazer naquele dia que se iniciava, quando percebeu que não estava sozinha.  

No começo se assustou. Jogou longe o couro de vaca e levou a mão à adaga que estava ao seu lado. Aos poucos, foi se dando conta de que a figura que estava sentada no chão, a observando, não demonstrava ser ameaça. Era um velho guarani, de cabelos cinzentos, vestido em um poncho surrado, um cajado descansava em seu colo. Ela o olhou fixamente.

̶   Vovô?

O velho ergueu o queixo e respirou fundo. Para Eva, pareceram momentos intermináveis. Então, com uma expressão perplexa no rosto, ele perguntou.

̶   O que faz aqui, minha filha?

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YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 2

Ela adorava correr por aquelas coxilhas cobertas de campos. O vento acariciando o seu rosto e balançando seus cabelos, a imensidão do céu, os variados tons da verde, tudo isso lhe trazia uma sensação que ela não sabia explicar, mas era boa. E melhor ainda, quando, para estar ali, ela faltava com suas obrigações religiosas.

Antes, até gostava daquela função. Acordar cedo, rezar, fazer o desjejum, estudar latim, fazer aula de canto, rezar, almoçar, sestear, ouvir leituras da Bíblia, rezar mais uma vez. Ela era boa em tudo isso, soube se destacar dos demais na aprendizagem cristã.

Mas, aos 10 anos de idade, ela parecia ouvir um outro chamado, algo que a impelia para fora da redução. E lá estava ela, com seu arco e flecha, feito por ela própria. Enxergou um grupo de perdizes em meio ao capim alto e se preparou. Hoje, a janta no Cotiguaçu[1] seria por sua conta. Ao menos, era isso que imaginava.

̶  Evaaaa!

A corda do arco voltou à posição onde estava, a flecha não foi disparada. As perdizes levantaram vôo com o grito. A menina se virou.

̶  Padre Antônio! O senhor me fez perder a caça.

̶  Agora não é hora para isso. Precisamos nos preparar para a missa. Quero você me ajudando hoje!

O padre precisou caminhar um pouco além do que imaginava para achá-la. Já não era mais tão jovem, mas precisava fazê-lo. Queria que Eva, que ele criou desde nenê, voltasse à rotina da redução.

̶  Mas, por que eu?  ̶  Eva franziu a testa.

̶  Ora, você já sabe. É a melhor aluna que tenho. Além disso, você não é como os outros!  ̶  O padre a fita com seus imensos olhos azuis.

Os dois caminharam em silêncio por uma trilha, ladeada por um capim da altura da cintura de Eva. Algumas figueiras, ao longe, quebravam a monotonia da paisagem campestre. Descendo por um declive, adentraram uma mata fechada, cruzaram um pequeno arroio e se colocaram, mais uma vez, colina acima. Chegando ao topo, avistaram a redução, ao longe. Eva se deteve.

̶  Disseram que meu avô está vivo ainda. Ele mora sozinho lá no meio da mata.

Padre Antônio tinha um grande carinho por aquela menina. Julgava que Deus a havia salvo daquela doença terrível, com algum propósito maior. Como Nosso Senhor tem um grande senso de humor, fez o seu grande inimigo, o feiticeiro Moreyra, em pessoa, entregá-la para ele. Assim acreditava o jesuíta.

̶  Minha criança, você não vai querer viver entre as feras. Você é especial.

Eva abaixou a cabeça e os dois prosseguiram. Atravessaram o campo em que o gado pastava e, depois de alguns instantes, estavam no chão de terra batida da redução.

Vestida na sua túnica de algodão cru, Eva auxiliou o padre Antônio durante a missa. Acendeu as velas, alcançou o cálice e as hóstias, abriu e segurou a Bíblia, enfim. Foi aquilo que se esperava dela.

Porém, à noite, no Cotiguaçu, Ela voltou a pensar na conversa que tivera com o padre Antônio. E, ali, deitada junto com as outras crianças, adormeceu.

Apenas a lua cheia quebra a escuridão na praia. O agito das ondas e o vento forte trazem  sossego para Eva, que apenas contempla aquele cenário. Abre os braços e se deixa tocar pelas sensações que a umidade e o sal lhe proporcionam. Que lugar é aquele?

De repente, pressente que alguém a observa. De longe, avista uma silhueta humana. Seus pés começam a levá-la até a figura desconhecida, ela não pode evitar. Já dá para distinguir que se trata de um homem, o corpo coberto por um poncho, os cabelos escuros até os ombros.

Ela já está há uns cinco passos da figura. É um homem, em idade madura. Desde que o avistou de longe, ele permaneceu imóvel. Agora, ao se aproximar, vê seu rosto, é um guarani, mas, diferente dela, não carrega o colar com a cruz. Ela não sabe porquê, mas sente que o homem lhe é familiar.

Então, ele ergue o braço e aponta para direção do mar. Ela contempla as ondas mais uma vez.

Quem seria àquela hora? Se perguntava o padre Antônio, enquanto acendia a lamparina. A última vez que o acordaram no meio da noite foi para tratar de um parto. Seria a mesma coisa? Ele não tinha certeza. Quando abriu a porta, se assustou um pouco.

 

̶   O que aconteceu, Eva?  ̶  Lá estava a menina guarani, no seu vestido de fibra de algodão cru, acinzentado. Tinha os olhos lacrimejantes.

̶   Padre Antônio, como é o meu avô?

O sacerdote ficou por uns instantes calado, observava a garota e pensava no significado daquela pergunta. Então, se agachou a altura dela e lhe deu um abraço.

[1] Construção da redução onde se abrigava as crianças órfãs.

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YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 1

Aqui começará uma série de postagens, com as origens de Eva, Odara e padre Antônio. Você poderá entender melhor a respeito desses personagens e da webcomic YVY. Embarque conosco nessa história.

Capítulo 1

Quando padre Antônio aceitou a missão de evangelizar os pagãos no interior da América, não tinha ideia do que o aguardava. Para ele, cada dia era uma nova provação naquele mundo esquecido por Deus, onde pobres selvagens viviam abandonados à própria sorte. Sabia que, nos últimos tempos, uma doença desconhecida derrubava os índios que viviam fora da redução, mas não esperava que a situação fosse tão desesperadora.

Os guaranis que viviam nas matas próximas ao rio Uruguai eram resistentes a ideia de viver na redução, sob o controle dos jesuítas. O principal motivo era a liderança de um feiticeiro guarani, inimigo de Antônio, conhecido pelo nome de Moreyra, que fizera de tudo para desacreditar os homens de preto perante os indígenas. Antônio ouviu os rumores de que essa enfermidade, de que ninguém ouvira falar, estava dizimando as aldeias da região. Era um bom momento para um homem de Deus se apresentar e trazer conforto espiritual, além de, por que não, atrair novas almas para o seu rebanho.

Porém, ao chegar a uma dessas aldeias, o padre percebeu que seria muito difícil aumentar seu rebanho com aquelas ovelhas. Era uma aldeia fantasma. O único som era o das moscas, que infestavam o local. Muitos corpos espalhados pelo chão, crianças, adultos e velhos. Estavam como se tivessem se deitado e esperado a morte chegar. Todos tinham o corpo coberto por feridas ensanguentas e purulentas. O inferno deveria ser parecido com aquilo.

O padre desceu do cavalo e foi entrando nos casebres de pau a pique que formavam a aldeia. Em cada um deles, a mesma cena. Pessoas alheias a qualquer ajuda de ordem terrena. Até que, em uma das casinhas, o inusitado. Alguém em pé. Antônio o observou desde a entrada do recinto. A figura estava de costas, os cabelos negros caídos até os ombros. Vestido em um poncho de algodão cru, balançava de um lado para o outro, embalava alguma coisa nos braços. Então, parecendo notar a presença do padre, a figura se virou.

Era Moreyra, seu desafeto. Tinha um olhar derrotado, de súplica, como se estivesse se rendendo. O índio se aproximou, nos braços, tinha uma criança recém nascida. Ele fez um gesto como que oferecendo o bebê para o padre. Ele tomou a criança no colo, foi quando viu que se tratava de uma menina. Também notou que ela, assim como Moreyra, não tinha a pele doente como os demais, pareciam saudáveis.

Assim, o padre Antônio descobriu que, mesmo numa terra sem Deus, milagres acontecem.

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