Samaúma: o chamado da floresta

Capa do livro

Samaúma é o nome de uma árvore encontrada na floresta amazônica, de tronco muito alto – ultrapassando o dossel da floresta – e raízes tão largas que seria possível entalhar uma casa nelas. Samaúma também é o nome da história em quadrinhos de autoria de Fabio Gimovski, lançada, recentemente, através de um financiamento coletivo, pela plataforma Catarse.

Samaúma: o chamado da floresta conta a história de Ravi, um rapaz da cidade grande que, de repente, é assaltado por sonhos enigmáticos. Às vezes, ouve seu nome ser chamado, outras, está caminhando em uma floresta e, outras ainda, está conversando com um pajé. Uma angustia começa a tomar o seu coração, durante o dia. Então, com a ajuda de uma amiga, decide descobrir o que os sonhos significam. Sua busca o levará para o interior do Acre, onde, em meio a floresta amazônica, se encontrará com o povo shanenawa.   

Uma das páginas do livro

O autor optou por uma espécie de metalinguagem, que nos faz pensar que ele conta sua própria história, a de alguém que escreveu um livro sobre suas experiências com os shanenawa. E parece que o objetivo principal do trabalho é apresentar as histórias desse povo, contadas ao jovem Ravi pelos seus representantes. Nelas, ficamos sabendo da origem dos shanenawa e de como eles descobriram o poder da bebida uni.

A história ainda faz menção à realidade que vivemos no Brasil atualmente, de devastação dos biomas e ataques aos povos indígenas. E nos apresenta um outro modo de vida, uma outra visão de mundo em relação à natureza, que é a dos povos originários, onde os valores são muito distintos aos da sociedade industrial capitalista.

Para saber mais sobre o autor: https://fabiogimovski.org/

Para saber mais sobre o povo shanenawa: https://www.indios.org.br/pt/Povo:Shanenawa    

Post relacionado: https://yvycomics.com/2019/01/20/os-indios-de-andre-toral/

YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 3

Ela firmou o cabo da lança, feito de taquara, na axila. Divisou o saco de serragem que balançava no galho de uma ampla figueira. Se preparou para a investida.

̶   Concentração, Eva. Mantenha o equilíbrio.

Ao lado dela, estava Barnabé, seu futuro marido. Outro jovem guarani que vivia na redução e que já contava seus 20 anos de idade. Ela, 18. Ele a observava, como se a avaliasse. Corrigia sua postura e dava orientações. Apesar do rapaz parecer rude, quem prestasse atenção em seus olhos, veria que havia orgulho neles.

Eva tocou a barriga do cavalo com os calcanhares e disparou em direção ao alvo, Barnabé a seguia, não muito de perto.

̶   Firme, Eva! Firme!

A lança atingiu em cheio o saco de serragem e se prendeu nele. Eva terminou a investida de mãos vazias.

̶   Muito bem. Foi um bom ataque   ̶   Elogiou Barnabé, se aproximando com seu cavalo.

Eva sorriu, então, ele continuou.

̶   Mas você perdeu a lança. O que faria se isso acontecesse em uma batalha?

A garota foi virando o rosto, bem devagar.

̶   Bom… eu faria…

De repente, num gesto rápido, ela tirou o poncho que usava e o atirou sobre Barnabé.

̶   Isto!

O jovem guarani se enredou como se estivesse em uma teia. Eva aproveitou o momento e disparou a galope. Barnabé levou alguns instantes para se desvencilhar e logo saiu em disparada atrás dela.

̶   Então, é assim?  ̶  Ele tinha um sorriso no rosto, adorava esses joguinhos que ela fazia.

Naquela imensidão verde, apenas os quero-queros eram os espectadores daquela carreira. No fim, foi uma corrida sem vencedor, nem vencido. Os dois terminaram em um pequeno rio, bem raso. Barnabé saltou de seu cavalo, quando se aproximou de Eva, a abraçando por trás. Os dois caíram de suas montarias, sobre a água.

Naquela imensidão verde, apenas os quero-queros e os dois cavalos eram os espectadores do amor entre Eva e Barnabé. Enfim, a garota órfã já não se inquietava tanto sobre seu passado, também ouvia cada vez menos aquele velho chamado que a impelia para fora da redução. Ela apenas vivia sua vida, era até feliz.

O sol começou a se querer se esconder, o casal voltou para casa.

Aquela mesma praia, a mesma escuridão, o mesmo vento. O mesmo cenário. O som das ondas quebrando. Mas Eva não está lá. Ela apenas observa. Algo começa a emergir das ondas. De longe, é apenas uma mancha escura. Mas, quando se aproxima, se vê uma silhueta feminina. A lua joga sua luz sobre a figura. Sim, é uma mulher.

Ela sai da água e se para sobre a areia. Eva nunca viu uma mulher como aquela. Sua pele escura reluz ao luar. Sua boca se abre num sorriso. O brilho dos dentes é arrebatador.

Eva se acordou de um pulo. Estava na sua cama de couro de boi sobre o chão. Ao seu lado, Barnabé continuava dormindo.  

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Flavio Colin: O Brasil em quadrinhos

Por Rafael.

Quantas histórias, lendas, “causos”, dramas e comédias vividos e narrados pelo nosso povo! Quantas histórias em quadrinhos podem ser desenhadas e escritas revelando nossas características, nossa maneira de ser e viver! A nossa história está repleta de figuras e episódios fabulosos(…) Até hoje se fazem filmes e histórias em quadrinhos sobre o faroeste, a corte do Rei Arthur, os Cavaleiros da Távola Redonda… Eu poderia citar dezenas de episódios, destacar dezenas de figuras que seriam perfeitamente quadrinizáveis.

O trecho acima foi tirado das memórias do quadrinista brasileiro Flavio Colin, no álbum Caraíba, lançado pela editora Desiderata, em 2007. Nele, notamos a sua preocupação em apresentar aspectos da história e cultura nacional em seus trabalhos. Essa foi uma constante na carreira desse autor, nascido no Rio de Janeiro, mas que se criou e trabalhou em cidades da região sul do Brasil.

Flavio Colin veio ao mundo no ano de 1930, concluiu seus estudos primários na cidade de Porto União, em Santa Catarina. Já nessa época se destacava como artista na sala de aula. Conseguiu seus primeiros trabalhos nos quadrinhos na antiga Rio Gráfica e Editora, no ano de 1956. Se destacou desenhando As Aventuras do Anjo (quadrinização de uma novela radiofônica de sucesso nos anos 60) e O Vigilante Rodoviário, baseado na primeira série de TV brasileira, também nos anos 60. Para conhecer mais sobre esse autor, você pode ler uma entrevista que ele concedeu ao site Universo HQ.

A primeira lembrança que tenho do trabalho de Colin foi muito marcante para mim. Muitos que, como eu, foram criança nos anos 80, devem lembrar de uma História em Quadrinhos (HQ) que era distribuída pelos postos Ipiranga do Rio Grande do sul. A HQ se chamava A Guerra dos Farrapos e trazia a dita “epopeia farroupilha”, com seus heróis, grandes batalhas, reviravoltas e tudo mais. Os desenhos tinham um traço marcante, como poucos artistas conseguem. Naquela época, vivia no interior do Rio Grande do Sul e essa cultura “gaúcha”, de cavalos, peleias, chimarrão, etc, povoavam o imaginário de todos. Me imaginava cavalgando, de lança em punho contra o exército imperial. Mais tarde, já adolescente, encontrei novamente com aquele mesmo traço vigoroso, preciso, em uma HQ de terror. Sabia que já tinha visto o trabalho daquele desenhista antes.

O desenho de Flavio Colin é assim, marcante. Procurando na internet, você vai achar muitas pessoas falando sobre o trabalho desse premiado quadrinista. Infelizmente, ainda que tenha muito reconhecimento por parte de seu público e colegas de profissão, o mesmo não se deu em relação ao mercado editorial brasileiro, até o dia do seu falecimento, no ano de 2001. E essa era uma reclamação dele. O pouco valor que se dá às “coisas do Brasil”, nossa cultura, história, nossos personagens, nossas paisagens, mitos, entre outras coisas. Colin sonhava com um público brasileiro que pudesse se ver em uma HQ e se identificar. Podemos pensar que, assim, construiríamos um povo, uma identidade nacional, que talvez ainda não esteja tão consolidada. Mas, isso é uma outra discussão.

Tenho alguns trabalhos de Colin na minha coleção:

  • O Caraíba, 2007. Com história e desenhos do próprio,
  • Estórias Gerais, 2012. Com histórias de Wellington Srbek e desenhos de Flavio Colin,
  • Fawcet, 2000. História de André Diniz e desenhos de Flavio Colin,
  • Histórias avulsas publicadas no fanzine AHQB, publicação dedicada aos quadrinhos da antiga editora Grafipar, dos anos 70 e 80.

Em YVY, concordamos com Flavio Colin, e queremos trazer aspectos pouco explorados da nossa história e cultura, nacional e latino-americana, para nossa série. Conheça o trabalho desse mestre dos quadrinhos nacionais. Você não vai se arrepender.

Flavio Colin

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