Quadrinhos e mitos populares – A Liga dos Pampas

Por Rafael.

a liga dos pampas

As histórias fazem parte da identidade de um povo. Através delas, pode-se construir significados, memórias, características, sentido coletivo, etc. As nações costumam construir narrativas épicas para exaltar suas histórias, seus feitos, seus supostos valores, enfim, tudo aquilo que lhe confere identidade e as fazem ser o que é.

Os mitos e lendas de cada povo ou nação, com seus personagens e seus dramas fantásticos, também contribuem na construção dessa identidade, na transmissão de costumes e valores.

Na indústria de entretenimento, vemos muitos exemplos de utilização desses personagens mitológicos nos mais diversos meios. São inúmeros os filmes, livros, videogames e histórias em quadrinhos em que figuram vampiros, lobisomens, duendes, minotauros, elfos, sereias, fadas, cavalos alados, anjos, demônios, deuses gregos, egípcios ou nórdicos, etc. Talvez, nesse caso, as histórias sejam mais um passatempo moderno do que um meio de transmissão de valores e identidades. Essa ideia pode ser contestada, e são vários os trabalhos acadêmicos que analisam os impactos da mídia de massa na construção de significados e identidades.

Simples entretenimento ou não, que tal se os contadores de histórias se baseassem nos mitos populares dos lugares onde vivem? Que caminhos seriamos levados a trilhar? Que sentidos produziríamos?

É o exemplo de A Liga dos Pampas, história em quadrinhos de Jader Correa (roteiro e desenhos), com a participação de Guilherme Smee no roteiro. Lançada em 2017, a obra nos traz as aventuras de um grupo diferente de heróis. Não é possível afirmar, mas o título e a história parecem fazer referência à conhecida Liga Extraordinária, história em quadrinhos em que o escritor Alan Moore une diferentes personagens clássicos da literatura, como Alan Quarteraman, Dr. Jekil e Mr. Hyde, o Homem Invisível e o Capitão Nemo. Personagens criados no final do século XIX, época da revolução industrial e do desenvolvimento científico e tecnológico na Europa.

De maneira parecida, A Liga dos Pampas unirá personagens da literatura pampeana. Cujas histórias se tornaram conhecidas num período parecido com o dos personagens europeus citados, o final do século XIX, ainda que numa realidade mais rural, menos tecnológica. Aqui, encontraremos o lendário Negrinho do Pastoreio junto com a conhecida Salamanca do Jarau, os dois se unem ao contador de causos Blau Nunes, o aventureiro sem-fronteiras Martin Fierro e o mito guarani do Anguera.

Ao longo da história, os personagens vão se unindo, tendo como guia a Salamanca do Jarau, uma feiticeira que tem contato permanente com os seres do além, e ela que descobre a aproximação de um grande mal ao nosso mundo.

Assim como a Salamanca, cada personagem contribuirá com suas características para a aventura, o Negrinho, com seu poder de localizar qualquer coisa, o Blau com sua esperteza e senso de oportunidade, Martin Fierro com sua coragem e o Anguera com seu poder sobre a madeira (lembrando um pouco o que o mutante Magneto faz com os metais) .

A história em quadrinhos possui uma narrativa muito ágil e fluida, prendendo o leitor do começo ao fim. As cores mutio suaves incrementam a atmosfera da história e a publicação ainda conta com as páginas de prólogo e epílogo desenhadas por Matias Streb, que trabalha muito bem com a aquarela.

A Liga dos Pampas é uma obra que possui potencial para ser usada também em sala de aula, por sua linguagem e por sua temática. Trazendo aos estudantes, referências da mitologia do sul do Brasil e pampeana, de uma forma fácil e divertida.

Não deixe de conhecer essa história. Você pode fazer contato com a editora Edibook, contato@edibook.com.br.

Até a próxima!

 

 

 

Anúncios

Êxodo de Guaíra

Por Rafael.

êxodo

Êxodo é o título do próximo episódio de YVY que, em breve, estará disponível no blog. A história foi inspirada no episódio real da destruição das chamadas reduções do Guaíra, que ficavam onde hoje é território do estado brasileiro do Paraná, próximo à fronteira com a república do Paraguai.

As reduções foram atacadas, saqueadas e devastadas por várias incursões dos bandeirantes paulistas, que realizavam tais ações na busca do apresamento de nativos para o trabalho escravo. O último ataque foi liderado pelo famoso bandeirante Raposo Tavares. Conta-se que as crianças indígenas foram simplesmente mortas, para que não atrasassem o passo da expedição. Os bandeirantes foram recebidos com festa quando chegaram em São Paulo. Clique aqui para saber mais.

O padre Ruiz de Montoya, na ocasião dessa tragédia, conseguiu organizar uma fuga com cerca de 12 mil indígenas pelo rio Paraná. Uma marcha que foi comparada com a fuga dos judeus do Egito, o grande êxodo.

Enquanto o terceiro episódio não fica pronto, conheça os dois primeiros:

 

 

 

Salto do Yucumã.

Por Rafael.

Neste terceiro episódio de YVY, homenagearemos uma importante paisagem natural do interior do Rio Grande do Sul, salvo engano, destino turístico não muito badalado. Me refiro ao Salto do Yucumã, uma queda d’água localizada no rio Uruguai, a noroeste do estado gaúcho, divisa entre Brasil e Argentina.

salto do yucumã

Salto do Yucumã nos traço de Ricardo Fonseca.

O Salto do Yucumã chama a atenção, não tanto pela sua altura – muito menor que as cataratas do Iguaçu, por exemplo -, mas, sim, pela sua extensão, de mais ou menos 1,8 km. A atração se encontra no Parque Estadual do Turvo, lugar de preservação da antiga paisagem florestal da área, cercado atualmente por campos e campos de soja à perder de vista.

interior do parque do turvoIMG_6783

IMG_6796

Imagens do interior do parque. 

Para visitar o parque e admirar a beleza da queda d’água é recomendável ir num dia de tempo seco, pois, num dia chuvoso, a cheia do rio pode cobrir a queda, que não é muito alta. “Estragando” assim, o passeio. Foi o que aconteceu comigo, mas nada para se lamentar, pois o parque é lindo e conhecer parte da história do Rio Grande do Sul é outro atrativo a mais. Conhece a canção Balseiro do Rio Uruguai? Cantada pelo músico missioneiro Cenair Maicá, o refrão falava de uma história que eu nunca tinha entendido plenamente:

Oba, Viva, veio a enchente

o Uruguai transbordou

vai dar serviço pra gente.

Vou soltar minha barca no rio

vou rever maravilhas que

ninguém descobriu.

Apenas visitando o parque e lendo os banners pude entendê-lo. Ele se refere, lógico, à cheia do rio Uruguai, bem naquele trecho do salto. Com a enchente, o salto é coberto, permitindo a navegação das barcas no rio. No início do século XX, a principal atividade econômica daquela região era a extração da madeira, contribuindo muito para a diminuição que vemos hoje das áreas florestais. A madeira retirada era enviada para os mercados consumidores pelo rio, as próprias toras eram usadas como embarcação. Também era uma época de intercâmbio mais intenso entre os moradores das fronteiras de Brasil e Argentina. Com o esgotamento da atividade, anos depois, veio a soja, mas isso é outra história.

Um pouco do nosso trabalho em YVY também é fazer referência à nossa história e cultura latino-americanas e sul-brasileiras. Esperemos que gostem. Até a próxima!

banner informativo do parque do turvo.

 

 

M’Boiguaçu – A Lenda da Cobra Grande

Por Rafael

Nos dias 4 e 5 de agosto,  participamos da Comic Con RS, que aconteceu em um prédio da ULBRA (Universidade Luterana do Brasil) em Canoas/RS. Foi uma grande experiência. Pois, ainda que não tenhamos obtido grande resultado em vendas, pudemos encontrar mais artistas independentes como nós, que passam pelos mesmos problemas e alimentam a mesma vontade de produzir histórias e, quem sabe, até viver disso.

Pessoalmente, vinha acompanhando o trabalho de um artista da cidade de Santo Ângelo/RS e, felizmente, pude encontrá-lo no evento. Aqui, no blog, já havíamos comentado um trabalho dele. Me refiro ao quadrinista Clayton Cardoso, que, em 2016, publicou Sepé Tiaraju – A Saga de um Herói. Agora, em 2018, Clayton levou para a Comic Con RS a história em quadrinhos M’Boiguaçu – A Lenda da Cobra Grande. Mais uma vez, o quadrinista bebe da História e Cultura da sua região, as Missões, para criar uma obra.

M’Boiguaçu é uma lenda da cultura guarani missioneira, pois sua história se passa nas ruínas da missão de São MIguel, pouco depois da guerra guaranítica. O trabalho de pesquisa e imaginação de Clayton se faz notar em diversas cenas, em que vemos o que restou da Igreja de São Miguel tomada pela vegetação, vista de diferentes ângulos. Transportar o leitor para a realidade da história, através dos cenários, não é coisa muito simples, mas o artista dá conta da tarefa. A arte de Clayton é orgânica, cheia de detalhes e texturas e a revista possui um acabamento muito bonito.

Entre em contato com o autor pelo email claydesenhos@hotmail.com  ou ( cel: (55) 9924-4066 (vivo) ou 84141276 (oi). Apoie o quadrinho feito por alguém como você! Até a próxima!    

m'boiguaçu em quadrinhos

Página interna

Capa de M'Boiguaçu

Capa de M’Boiguaçu

Investigação Colonial

Dando continuidade às postagens sobre quadrinhos ambientados no Brasil colonial, desta vez, apresentamos a série Causos, de autoria de Eberton Ferreira, autor Gonçalense.

o demonio das matas

A série se passa no primeiro século da colonização portuguesa. Tendo como protagonista o bandeirante chamado Gonçalo, sempre seguido por seu inseparável companheiro, o tupiniquim Iberê. Os dois formam uma dupla de investigadores coloniais, detetives que atuam para solucionar estranhos crimes que começam a assolar a população da colônia portuguesa.

O ponto forte da série, na minha singela opinião, é a forma como o autor mescla, no seu universo, mitos e fatos históricos, criando interpretações muito interessantes para as origens de algumas lendas folclóricas que temos no Brasil. O roteiro é muito bem trabalho, mostrando a preocupação de costurar solidamente todos os pontos da trama. Não à toa, Eberton Ferreira ganhou o prêmio de melhor roteirista da ABRAHQ, em 2017.

Por enquanto, foram lançados 3 episódios da série. As revistas são produzidas em papel de boa qualidade e com capa colorida, ainda assim, o espírito fanzineiro da publicação é sentido em cada página. Tendo, seu autor, começado suas atividades nos quadrinhos no mundo do fanzine, como ele coloca na sua apresentação em Causos #1.

Conhece mais alguma publicação que siga essa mesma linha de ambientação? Escreva para nós.

Até a próxima!