Descomplincando com Kaê Guajajara: o que você precisa saber sobre os povos originários e como ajudar na luta anti-racista.

Kaê Guajajara

Por Rafael.

Recentemente adquiri a versão pdf do livro organizado pela artista e ativista indígena Kaê Guajajara. Trata-se de uma importante obra para o momento em que vivemos, onde, cada vez mais, os direitos dos povos indígenas por suas terras e seus modos de vida são atacados.

O livro é totalmente produzido por representantes dos diferentes povos indígenas brasileiros e se dirige, principalmente, à população não-indígena, branca e/ou habitantes dos centros urbanos.  O objetivo da obra é desmistificar alguns conceitos deturpados que circulam pela sociedade brasileira, em relação aos nativos americanos, ajudando os interessados em apoiar a causa a entendê-la e agir para tal.

Uma das primeiras ideias a ser descontruída na obra é a de “descobrimento” do Brasil, afirmando a importância de se usar o conceito de “invasão”, bem mais adequado para a situação. Depois, temos o debate sobre o uso do termo “índio”, sobre a escravização indígena – pouco comentada – e a catequese. Busca-se entender o processo colonial como um processo de genocídio e etnocídio, conceitos que também são trabalhados no livro.

Entre muitos temas apresentados, nos deparamos com algumas “curiosidades”, se podemos dizer assim. Como o caso da origem da palavra “grilagem”, se referindo ao roubo das terras indígenas, e o uso das palavras “tibira”, que se refere aos indígenas LGBT, e “parente”, que é como os povos originários se dirigem uns aos outros, independentemente de suas etnias.

Mas, um dos capítulos mais importantes, ao meu ver, é o que se destina a explicar as maneiras como nós, não-indígenas, podemos apoiar a causa desse povo, ou melhor, desses povos. E acredite, não é muito difícil fazer isso. Você pode começar indo no perfil da loja Azuruhu no instagram e entrar em contato com eles para descobrir como receber o pdf do livro, que teve sua versão impressa suspensa por causa da pandemia.

Os indígenas e a tecnologia

Por Rafael

“Índio com telefone”? Quantas vezes já não ouvimos alguém fazer uma pergunta semelhante a essa ao ver algum representante dos povos indígenas utilizando uma tecnologia moderna qualquer? Como se alguém, não importa quem seja, tivesse sua identidade apagada ao usar algum artefato que não pertença, originalmente, a sua cultura. Ninguém sofre essa acusação mais do que os povos indígenas. Isso é uma coisa engraçada, pois nunca vi alguém lançar o mesmo questionamento a um brasileiro de origem alemã que estivesse tomando chimarrão, por exemplo. Bom, vamos conversar um pouco sobre isso neste texto.

Durante minhas pesquisas para elaborar o universo narrativo de YVY, descobri que o mundo da tecnologia e das redes sociais está, felizmente, sendo cada vez mais ocupado pelos povos indígenas, do Brasil e do mundo.  Que encontraram, nesse ambiente, um meio para divulgar e valorizar suas identidades enquanto povos originários. Temos canais do youtube, páginas de facebook, blogs, perfis de instagram, entre outros, alimentados por representantes dos mais diferentes grupos, com as mais diversas finalidades. São muitos os jovens que, individualmente, usam essas mídias para exporem sua cultura, seu modo de vida, seus gostos e suas lutas. Mas, também, temos organizações indígenas, grupos musicais e artísticos de todos os gêneros.

A geógrafa Doreen Massey, em seu livro ”Pelo Espaço”, analisa a forma capitalista de ver o mundo, desde os seus inícios nas chamadas grandes navegações. Para os europeus, o espaço terrestre, vamos dizer assim, é apenas uma superfície a ser conquistada. O encontro com os povos americanos, ao se depararem com este continente, foi apenas um acidente de percurso. Ou seja, os povos indígenas seriam apenas um acontecimento fortuito na trajetória triunfante da colonização. Não se tratariam de povos com sua própria história e cultura a ser considerada e respeitada. Daí vem uma distinção muito comum que é feita por muitas pessoas: os “povos adiantados” e os “povos atrasados”. Ou seja, é realizada uma distinção temporal entre povos diferentes que compartilham o mesmo espaço, o planeta Terra, no caso.  É uma distinção que não respeita a diversidade.

Porém, ao se apropriarem da tecnologia elaborada pela sociedade capitalista, os povos indígenas dão sinal de que não estão confortáveis dentro desse papel imposto a eles pelo projeto colonizador. Não querem ser o “acidente” da história de outros, da narrativa de outros. Mostram que almejam o papel de protagonistas de suas próprias histórias. Nesse contexto, trago alguns exemplos, entre muitos, dessa apropriação subversiva da tecnologia pelos povos originários.

Talvez, um dos pioneiros, salvo engano, seja o grupo de rap Bro MCs. Na ativa desde 2009, o grupo foi formado por jovens da etnia Guarani Kaiowá, do interior do Mato Grosso do Sul. Cantando em português e guarani, denunciam as mazelas que se abatem sobre seu povo, desde a violência do agronegócio e a discriminação, até o alcoolismo e drogadição em suas aldeias. Já lançaram diversos clipes no youtube. Como Eju Orendive, Koangagua e Nhe’ê Mbaratê.

bro mcs

Essa apropriação do rap, não parece ser por acaso. Como todos sabem, esse estilo musical oriundo dos guetos estadunidenses ganhou projeção mundial e é usado como instrumento de expressão para os mais diversos povos oprimidos do mundo, como a população de origem árabe da França e os palestinos que vivem em territórios ocupados pelo estado de Israel. Nada mais normal que os povos indígenas também se identificassem com esse estilo. É o caso dos outros dois exemplos que trago aqui.

Tendo lançado, recentemente, o clipe Xondaro Ka’aguy Reguá, o jovem Kunumi MC não começou agora sua trajetória de luta em favor de seu povo. Pertencente à etnia Guarani (não descobri de qual ramo, na minha pesquisa), Werá Jeguaka Mirim, como se chama o rapper, é aquele garoto indígena que, na abertura da copa do mundo do Brasil, quebrou o roteiro e estendeu um cartaz onde se lia “demarcação já”. Além do lançamento recente, Kunumi postou outros clipes na plataforma youtube: O Kunumi chegou e Somos Guerreiros Daqui, entre outros.

kunumi mc

Outro representante indígena nessa luta é a rapper e atriz Katu, de origem Boe Bororo, um povo do Brasil central. Tendo angariado milhares de seguidores na plataforma instagram, Katu, criada na periferia da cidade de São Paulo, usa esse espaço para falar de como ela busca se aproximar de suas origens indígenas, denunciando a violência histórica e sistêmica que a levou a se separar delas.  Identificada, também, com a comunidade lgbt, Katu, além de cantar, atua como modelo fotográfica e atriz, tendo participado do último de clipe da cantora Iza, chamado Let Me Be The One.

katu

Mas a apropriação indígena das tecnologias atuais vai além do rap. Trago, também, o exemplo do perfil de instagram, Literatura Indígena Brasileira. Administrado pela jovem de origem Pataxó, Carina Oliveira. Nele, temos dicas de leitura e entrevistas com escritores oriundos dos mais diversos povos indígenas do Brasil. São contadores e contadoras de histórias, pensadores e pensadoras, poetas e poetisas que, entre outras coisas, expressam a cultura de seus povos, sua visão de mundo e seus desafios para sobreviver na excludente sociedade brasileira. Carina já entrevistou, em lives, nomes consagrados da área como Daniel Munduruku e Ailton Krenak.

literatura indígena brasileira

Para encerrar a lista de exemplos, trago o perfil Índio Meme, também da plataforma instagram. Aqui, vemos a apropriação da novíssima linguagem dos memes pelos povos indígenas. Nesse perfil, podemos acompanhar postagens em tom mais cômico, procurando expressar costumes das aldeias, comparações engraçadas entre a cultura indígena e a dos brancos e, em alguns momentos, postagens em tom de denúncia, ainda que de forma cômica, dos problemas que afetam suas comunidades.

indio meme

Concluo, repetindo que apresentei apenas alguns exemplos. Nas redes sociais, encontramos muitos outros, não só do Brasil, mas também do mundo. Acompanhar, curtir, compartilhar, valorizar essas formas de expressão, é o mínimo que todos os brasileiros podem fazer para compensar os séculos de agressões que esses povos sofreram e continuam sofrendo. Eles parecem estar se saindo bem com a tecnologia da sociedade capitalista. Poderíamos, os não-indígenas, nos sair tão bem na sociedade indígena?

La Digna Rabia – Música e Compromisso

Por Rafael.

Banda La Digna Rabia

Foto: Marcelo Curia.

A Banda porto-alegrense, La Digna Rabia, iniciou suas atividades no ano de 2010, reunindo três amigos interessados em fazer um som, tendo como referência bandas do cenário hispano-americano, como Ska-p, Skalariak, La Polla Records, Los Fabulosos Cadillac, Karamelo Santo, Los de Abajo, entre outras. Eu era um, desses três amigos. No final de 2016, quando deixei a banda para morar em outra cidade, ela já contava com nove integrantes. Desde então, o também chamado Conjunto Musical La Digna Rabia segue mais vivo do que nunca.

O nome, “La Digna Rabia”, veio como uma referência ao conhecido festival cultural de mesmo nome, que acontece todos anos no estado rebelde de Chiapas, sul do México. Lar do conhecido Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). Um movimento social e político que busca dignidade para a população pobre mexicana, desde 1994, e que inspira movimentos políticos no mundo inteiro. Inspirando a nós, também, em Porto Alegre.

Partindo de uma referência como essa, entendemos as temáticas de muitas letras da banda (que opta por cantar em espanhol, buscando essa ligação com a América Latina) e, também, dos materiais visuais trabalhados por ela.

Nestes, encontramos caveiras mexicanas, mas também referências à povos indígenas sul-americanos como um todo. Fazendo com que, visualmente, a banda tenha uma forte ligação com a causa dos povos originários da América.

conexión chiapas

Arte do EP: Conexión Chiapas. Autor: Tharcus Aguilar.

cd la digna rabia

Arte do primeiro CD da banda. Autor: Tharcus Aguilar.

la digna rabia

Logo da banda, criado por Tharcus Aguilar.

Como desenhista, sigo contribuindo com a banda, mas Tharcus Aguilar, o baterista, que tem formação e trabalha na área das artes, é um dos principais criadores nesse sentido. A banda ainda conta com a contribuição de outro artista, o produtor artístico Leo Garbin. 

Porém, a ligação da banda com a luta dos povos originários não se dá apenas nas letras ou nas artes que ela usa. O grupo musical procura sempre levar o seu apoio às lutas concretas desse campo.

No dia 24 de março deste ano, ocorreu um ato em solidariedade à aldeia guarani mbya da Ponta do Arado, na zona sul de Porto Alegre. Uma comunidade indígena que procura lutar por seu direito à terra, em meio à pressão do mercado imobiliário, da prefeitura municipal e da Polícia Militar. Lá estava a banda para prestar sua solidariedade e participar do ato. No vídeo abaixo, temos um registo da atividade.

Mas essa não foi a primeira vez. Em abril e maio de 2018, os integrantes da banda participaram do mutirão para construção da Escola Autônoma da Retomada Guarani Mbya de Maquiné, litoral norte do Rio Grande do sul. Abaixo, algumas fotos tiradas por alguém, no dia do mutirão.

Não conhece o Conjunto Musical La Digna Rabia? Não sabe o que está perdendo. Você pode acompanhar a banda nas redes sociais:

https://www.facebook.com/conjuntomusicalladignarabia/

https://www.instagram.com/conjuntoladignarabia/

Abraços e até mais.

Visita a Retomada Guarani

Casa guarani

Por Rafael

A série YVY se inspira na história e cultura do povo guarani, cujo território ocupava uma larga mancha territorial no que hoje é considerado o centro-sul do Brasil, nordeste da Argentina, Paraguai e sudeste da Bolívia. Atualmente, esse povo vive espalhado por diferentes aldeias e nas margens das rodovias, ocupando pequenos e pobres espaços. No Rio Grande do Sul, como em outras partes, a luta pelo direito ao seu território e cultura nunca parou.

Fogo de chão

No último sábado, 15/07, fiz uma visita à chamada Retomada, uma ocupação realizada por um grupo de famílias mbyá-guarani em terras do que era a extinta FEPAGRO, Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Sul.
Fui acompanhado de minha esposa, Daniela, e minha filha Moema. Havia feito contato com o cacique André Benites, através da internet. O único meio de comunicação de que dispõe a aldeia é o celular do cacique, que é carregado através de uma placa solar, presente de apoiadores da Retomada. O sinal de telefone na área é muito ruim, então, fazer esse contato não foi algo muito fácil. Mas, no fim das contas, consegui falar com o cacique, e marquei essa visita. Reunimos, entre amigos, algumas roupas e cobertores para levar como doação. Não foi muita coisa, mas melhor do que nada e os guarani receberam de muito bom grado.

Galinhas pelo pátio da aldeia

Na entrada da antiga FEPAGRO fomos recebidos por três jovens guarani, um menino e duas moças, que nos ajudaram a carregar as sacolas até o local da Retomada. Foi uns quarenta minutos de caminhada por uma trilha, no interior da mata, um pedaço da exuberante Mata Atlântica. Ao chegar, encontramos o povo sentado em círculo, em volta de uma fogueira. Conversavam em guarani, tomavam chimarrão, fumavam seus cachimbos petynguá, crianças brincavam em volta. Fomos recepcionados pelo cacique André Benites que nos contou um pouco da situação, mas principalmente nos falou que, ali, estavam contentes, viviam tranquilamente o seu modo de vida e agradeceram muito nosso interesse em ajudá-los, para eles, todo apoio é bem vindo.

Povo em volta do fogo

A série YVY não pretende fazer um trabalho científico ou antropológico, também não deseja “representar” a cultura guarani, mas procuramos respeitar a história desse povo e, na medida do possível, apoiar essa luta. Agora, o que podemos fazer é isso, quem sabe o que nos reserva o futuro. Outras visitas ocorrerão. Máximo respeito à Retomada guarani de Maquiné!

 

 

Para saber mais, acesse o blog dos apoiadores da Retomada clicando aqui.