Samaúma: o chamado da floresta

Capa do livro

Samaúma é o nome de uma árvore encontrada na floresta amazônica, de tronco muito alto – ultrapassando o dossel da floresta – e raízes tão largas que seria possível entalhar uma casa nelas. Samaúma também é o nome da história em quadrinhos de autoria de Fabio Gimovski, lançada, recentemente, através de um financiamento coletivo, pela plataforma Catarse.

Samaúma: o chamado da floresta conta a história de Ravi, um rapaz da cidade grande que, de repente, é assaltado por sonhos enigmáticos. Às vezes, ouve seu nome ser chamado, outras, está caminhando em uma floresta e, outras ainda, está conversando com um pajé. Uma angustia começa a tomar o seu coração, durante o dia. Então, com a ajuda de uma amiga, decide descobrir o que os sonhos significam. Sua busca o levará para o interior do Acre, onde, em meio a floresta amazônica, se encontrará com o povo shanenawa.   

Uma das páginas do livro

O autor optou por uma espécie de metalinguagem, que nos faz pensar que ele conta sua própria história, a de alguém que escreveu um livro sobre suas experiências com os shanenawa. E parece que o objetivo principal do trabalho é apresentar as histórias desse povo, contadas ao jovem Ravi pelos seus representantes. Nelas, ficamos sabendo da origem dos shanenawa e de como eles descobriram o poder da bebida uni.

A história ainda faz menção à realidade que vivemos no Brasil atualmente, de devastação dos biomas e ataques aos povos indígenas. E nos apresenta um outro modo de vida, uma outra visão de mundo em relação à natureza, que é a dos povos originários, onde os valores são muito distintos aos da sociedade industrial capitalista.

Para saber mais sobre o autor: https://fabiogimovski.org/

Para saber mais sobre o povo shanenawa: https://www.indios.org.br/pt/Povo:Shanenawa    

Post relacionado: https://yvycomics.com/2019/01/20/os-indios-de-andre-toral/

A Queda do Céu: o pacto entre dois mundos.

a queda docéu
Capa do livro.

Nem Disney, nem Marvel, muito menos DC, seriam capazes de criar tantas histórias quanto a mitologia yanomami consegue. Exagero? Faça as suas conclusões, lendo A Queda do Céu, obra de autoria do líder desse povo, Davi Kopenawa, e do antropólogo francês, Bruce Albert. Lançado, primeiramente em língua francesa, só foi publicado no Brasil no ano de 2010, pela Cia das Letras. O livro é fruto de um pacto, como coloca Albert, entre dois mundos.

Pacto entre o mundo do antropólogo, pesquisador da cidade, e o mundo do Xamã, o intelectual da floresta. Diferentemente de um trabalho científico, onde um lado relata e analisa o comportamento e a vida do outro, este livro é uma obra escrita por ambos. Pois, ainda que Albert tenha sido o redator das páginas, cada ideia e parágrafo foram supervisionados por Kopenawa. De modo que o produto final representa o depoimento histórico e analítico sobre a luta e a cultura do povo yanomami, feito por um dos seus.

Na obra, temos uma apresentação da rica visão de mundo yanomami e dos seus mitos da criação, onde Omama, o grande criador de tudo, tem papel destacado. Dentro dessa cosmovisão, animais e humanos possuem a mesma origem. Fazendo-os, igualmente, habitantes da floresta, como irmãos. Mas, o mais impressionante, para alguém da cultura letrada, urbana e industrial, é como suas incontáveis histórias passam de geração a geração, de forma oral. Cabendo aos xamãs, o que poderíamos chamar de bibliotecas vivas, o dever de guardá-las. Essas histórias, além de contar como tudo surgiu (inclusive os brancos e suas mercadorias), também organizam o modo de ser desse povo. Elas guardam os ensinamentos de proteção da floresta e das pessoas ao seu redor.    

davi kopenawa
Imagem do interior do livro. Kopenawa é o indígena sem pintura no corpo, abaixo e a esquerda da faixa.

Outro ponto que chama muito a atenção é a análise que Kopenawa faz da socidade dos brancos. Acabamos por nos sentir no papel de objeto de estudo. Para o xamã, estamos sempre tontos, perdidos, procurando orientação nos “desenhos de palavras” que colocamos nas “peles de papel”, pois não somos capazes de guarda-las em nós mesmos. Estamos sempre confusos com o barulho dos motores e o zumbido dos aparelhos de rádio e televisão. O “ruído”, como Kopenawa se refere. Ruído que os brancos levaram para o interior da floresta e também causou confusão na cabeça do seu povo, sobretudo para os jovens, que se encantaram com os equipamentos e mercadorias da cidade, esquecendo-se de suas histórias e de seus espíritos. Sem os seus espíritos, chamados de xapiri, os yanomami não podem existir, como o xamã explica. Eles são responsáveis por evitar “a queda do céu”, por cuidar das doenças, por favorecer a colheita e a caça. Assim como os brancos aprendem com seus livros, os yanomami aprendem com seus xapiri.

Relacionado: Ideias para adiar o fim do mundo.

A história da amizade de 30 anos entre Bruce Albert e Davi Kopenawa, que possibilitou a elaboração do livro, poderia muito bem ser transformada em filme. Albert testemunhou a execução dos megaprojetos de “desenvolvimento” da ditadura militar na floresta amazônica e acompanhou missionários e agentes da FUNAI em suas atividades. Numa dessas, ele encontrou o jovem Kopenawa, que trabalhava como interprete para o posto da FUNAI do rio Demini, no estado de Roraima. Mas a relação levou muito tempo para se consolidar. Só mais tarde, o yanomami vai enxergar no francês um aliado na proteção da floresta e da vida do seu povo. O livro ainda traz um detalhado glossário de palavras yanomami referentes a animais, plantas e topônimos da região. Além da aterradora história do massacre de Haximu, onde mulheres, crianças e idosos yanomami foram mortos por garimpeiros. Ler o livro agora, em 2020, em pleno governo Bolsonaro, em plena hecatombe ambiental brasileira, é chocar-se com a realidade. Não são apenas “desenhos de palavras” em uma “pele de papel”. O que vamos fazer para evitar o nosso fim? Fica a reflexão.

Descomplincando com Kaê Guajajara: o que você precisa saber sobre os povos originários e como ajudar na luta anti-racista.

Kaê Guajajara

Por Rafael.

Recentemente adquiri a versão pdf do livro organizado pela artista e ativista indígena Kaê Guajajara. Trata-se de uma importante obra para o momento em que vivemos, onde, cada vez mais, os direitos dos povos indígenas por suas terras e seus modos de vida são atacados.

O livro é totalmente produzido por representantes dos diferentes povos indígenas brasileiros e se dirige, principalmente, à população não-indígena, branca e/ou habitantes dos centros urbanos.  O objetivo da obra é desmistificar alguns conceitos deturpados que circulam pela sociedade brasileira, em relação aos nativos americanos, ajudando os interessados em apoiar a causa a entendê-la e agir para tal.

Uma das primeiras ideias a ser descontruída na obra é a de “descobrimento” do Brasil, afirmando a importância de se usar o conceito de “invasão”, bem mais adequado para a situação. Depois, temos o debate sobre o uso do termo “índio”, sobre a escravização indígena – pouco comentada – e a catequese. Busca-se entender o processo colonial como um processo de genocídio e etnocídio, conceitos que também são trabalhados no livro.

Entre muitos temas apresentados, nos deparamos com algumas “curiosidades”, se podemos dizer assim. Como o caso da origem da palavra “grilagem”, se referindo ao roubo das terras indígenas, e o uso das palavras “tibira”, que se refere aos indígenas LGBT, e “parente”, que é como os povos originários se dirigem uns aos outros, independentemente de suas etnias.

Mas, um dos capítulos mais importantes, ao meu ver, é o que se destina a explicar as maneiras como nós, não-indígenas, podemos apoiar a causa desse povo, ou melhor, desses povos. E acredite, não é muito difícil fazer isso. Você pode começar indo no perfil da loja Azuruhu no instagram e entrar em contato com eles para descobrir como receber o pdf do livro, que teve sua versão impressa suspensa por causa da pandemia.

Os indígenas e a tecnologia

Por Rafael

“Índio com telefone”? Quantas vezes já não ouvimos alguém fazer uma pergunta semelhante a essa ao ver algum representante dos povos indígenas utilizando uma tecnologia moderna qualquer? Como se alguém, não importa quem seja, tivesse sua identidade apagada ao usar algum artefato que não pertença, originalmente, a sua cultura. Ninguém sofre essa acusação mais do que os povos indígenas. Isso é uma coisa engraçada, pois nunca vi alguém lançar o mesmo questionamento a um brasileiro de origem alemã que estivesse tomando chimarrão, por exemplo. Bom, vamos conversar um pouco sobre isso neste texto.

Durante minhas pesquisas para elaborar o universo narrativo de YVY, descobri que o mundo da tecnologia e das redes sociais está, felizmente, sendo cada vez mais ocupado pelos povos indígenas, do Brasil e do mundo.  Que encontraram, nesse ambiente, um meio para divulgar e valorizar suas identidades enquanto povos originários. Temos canais do youtube, páginas de facebook, blogs, perfis de instagram, entre outros, alimentados por representantes dos mais diferentes grupos, com as mais diversas finalidades. São muitos os jovens que, individualmente, usam essas mídias para exporem sua cultura, seu modo de vida, seus gostos e suas lutas. Mas, também, temos organizações indígenas, grupos musicais e artísticos de todos os gêneros.

A geógrafa Doreen Massey, em seu livro ”Pelo Espaço”, analisa a forma capitalista de ver o mundo, desde os seus inícios nas chamadas grandes navegações. Para os europeus, o espaço terrestre, vamos dizer assim, é apenas uma superfície a ser conquistada. O encontro com os povos americanos, ao se depararem com este continente, foi apenas um acidente de percurso. Ou seja, os povos indígenas seriam apenas um acontecimento fortuito na trajetória triunfante da colonização. Não se tratariam de povos com sua própria história e cultura a ser considerada e respeitada. Daí vem uma distinção muito comum que é feita por muitas pessoas: os “povos adiantados” e os “povos atrasados”. Ou seja, é realizada uma distinção temporal entre povos diferentes que compartilham o mesmo espaço, o planeta Terra, no caso.  É uma distinção que não respeita a diversidade.

Porém, ao se apropriarem da tecnologia elaborada pela sociedade capitalista, os povos indígenas dão sinal de que não estão confortáveis dentro desse papel imposto a eles pelo projeto colonizador. Não querem ser o “acidente” da história de outros, da narrativa de outros. Mostram que almejam o papel de protagonistas de suas próprias histórias. Nesse contexto, trago alguns exemplos, entre muitos, dessa apropriação subversiva da tecnologia pelos povos originários.

Talvez, um dos pioneiros, salvo engano, seja o grupo de rap Bro MCs. Na ativa desde 2009, o grupo foi formado por jovens da etnia Guarani Kaiowá, do interior do Mato Grosso do Sul. Cantando em português e guarani, denunciam as mazelas que se abatem sobre seu povo, desde a violência do agronegócio e a discriminação, até o alcoolismo e drogadição em suas aldeias. Já lançaram diversos clipes no youtube. Como Eju Orendive, Koangagua e Nhe’ê Mbaratê.

bro mcs

Essa apropriação do rap, não parece ser por acaso. Como todos sabem, esse estilo musical oriundo dos guetos estadunidenses ganhou projeção mundial e é usado como instrumento de expressão para os mais diversos povos oprimidos do mundo, como a população de origem árabe da França e os palestinos que vivem em territórios ocupados pelo estado de Israel. Nada mais normal que os povos indígenas também se identificassem com esse estilo. É o caso dos outros dois exemplos que trago aqui.

Tendo lançado, recentemente, o clipe Xondaro Ka’aguy Reguá, o jovem Kunumi MC não começou agora sua trajetória de luta em favor de seu povo. Pertencente à etnia Guarani (não descobri de qual ramo, na minha pesquisa), Werá Jeguaka Mirim, como se chama o rapper, é aquele garoto indígena que, na abertura da copa do mundo do Brasil, quebrou o roteiro e estendeu um cartaz onde se lia “demarcação já”. Além do lançamento recente, Kunumi postou outros clipes na plataforma youtube: O Kunumi chegou e Somos Guerreiros Daqui, entre outros.

kunumi mc

Outro representante indígena nessa luta é a rapper e atriz Katu, de origem Boe Bororo, um povo do Brasil central. Tendo angariado milhares de seguidores na plataforma instagram, Katu, criada na periferia da cidade de São Paulo, usa esse espaço para falar de como ela busca se aproximar de suas origens indígenas, denunciando a violência histórica e sistêmica que a levou a se separar delas.  Identificada, também, com a comunidade lgbt, Katu, além de cantar, atua como modelo fotográfica e atriz, tendo participado do último de clipe da cantora Iza, chamado Let Me Be The One.

katu

Mas a apropriação indígena das tecnologias atuais vai além do rap. Trago, também, o exemplo do perfil de instagram, Literatura Indígena Brasileira. Administrado pela jovem de origem Pataxó, Carina Oliveira. Nele, temos dicas de leitura e entrevistas com escritores oriundos dos mais diversos povos indígenas do Brasil. São contadores e contadoras de histórias, pensadores e pensadoras, poetas e poetisas que, entre outras coisas, expressam a cultura de seus povos, sua visão de mundo e seus desafios para sobreviver na excludente sociedade brasileira. Carina já entrevistou, em lives, nomes consagrados da área como Daniel Munduruku e Ailton Krenak.

literatura indígena brasileira

Para encerrar a lista de exemplos, trago o perfil Índio Meme, também da plataforma instagram. Aqui, vemos a apropriação da novíssima linguagem dos memes pelos povos indígenas. Nesse perfil, podemos acompanhar postagens em tom mais cômico, procurando expressar costumes das aldeias, comparações engraçadas entre a cultura indígena e a dos brancos e, em alguns momentos, postagens em tom de denúncia, ainda que de forma cômica, dos problemas que afetam suas comunidades.

indio meme

Concluo, repetindo que apresentei apenas alguns exemplos. Nas redes sociais, encontramos muitos outros, não só do Brasil, mas também do mundo. Acompanhar, curtir, compartilhar, valorizar essas formas de expressão, é o mínimo que todos os brasileiros podem fazer para compensar os séculos de agressões que esses povos sofreram e continuam sofrendo. Eles parecem estar se saindo bem com a tecnologia da sociedade capitalista. Poderíamos, os não-indígenas, nos sair tão bem na sociedade indígena?

1499 – O Brasil Antes de Cabral

Por Rafael

1499 o brasil antes de cabral

Há tempos queria ler esse livro e, finalmente, consegui. “1499, o Brasil antes de Cabral”, foi escrito pelo jornalista Reinaldo José Lopes, profissional dedicado a área da divulgação científica, que fez um compilado de todas as principais pesquisas e teorias acerca da saga histórica do Homo Sapiens no continente americano e do seu desenvolvimento até a chegada dos europeus por essas terras. O jornalista concentra sua discussão sobre a história dos povos que habitavam o que viria a se tornar o Brasil de hoje. Porém, para isso, relações com o resto do continente, e do mundo, são estabelecidas. Com a leitura, aprendemos que a história no nosso país não começou com a chegada dos portugueses. Antes disso, verdadeiras cidades e civilizações floresceram e ruíram, batalhas aconteceram, trocas comerciais e intercâmbios de ponta a ponta do continente se deram. Estejam prontos para se surpreenderem com esse livro.

A obra é dividida em ordem cronológica da chegada dos primeiros seres humanos às Américas até o desembarque dos europeus.  Sendo assim, começa com o debate a respeito de como teria ocorrido essa ocupação, há mais de dez mil anos. Se pelo estreito de Bering ou pelo oceano Pacífico, como sugerem algumas opiniões. É muito interessante a maneira como o autor aborda essa discussão, apresentando as teorias e, mais do que isso, o raciocínio que os pesquisadores elaboraram para chegar a elas. Nos brindando com pitadas de conhecimento sobre evolução das espécies e tipos de datação. Não que eu tivesse entendido tudo, mas já me despertou a curiosidade para saber mais.

É igualmente interessante a abordagem sobre as sociedades construtoras dos famosos sambaquis. Essas estruturas feitas de conchas marinhas, encontradas no litoral brasileiro, foram erguidas pelos antepassados dos indígenas que fizeram contato com os portugueses. Esses povos antigos também são chamados de paleoíndios ou paleoamericanos pelos pesquisadores.

O desenvolvimento de antigas cidades na Amazônia abre um leque ainda maior para conhecermos nosso passado. O autor cita os trabalhos de alguns pesquisadores que se dedicam a história desses vestígios, que incluem até uma “Stonehenge amazônica”, além de linhas pelo solo, assim como as famosas “linhas de Nazca”. A abordagem da história dos antigos marajoaras e sua sociedade complexa, com cerâmicas e urnas funerárias nos leva a pensar o quão humana e histórica é essa importante região do nosso continente. Por muito tempo tida como “selvagem” ou “vazia” de população e história.

A abordagem sobre o desenvolvimento da agricultura no nosso continente me deixou muito curioso. Reinaldo comenta sobre a cultura do milho, oriunda do território do atual México, que teria se espalhado de norte a sul das Américas. Como teria acontecido isso? Que histórias nossos rios, nossas montanhas, florestas, trilhas e praias nos contariam se pudessem falar?

O último capítulo do livro tratará da chegada dos europeus por aqui. Quais foram os fatores que fizeram com que esses diversos e numerosos povos que habitavam essas terras sucumbissem à invasão estrangeira? O autor levanta algumas possiblidades estudadas pelos cientistas.

1499 é leitura recomendada para quem quer conhecer mais sobre o passado do nosso continente. Nos ajudando a, quem sabe, encontrarmos nossa história própria nesse mundo. Uma história americana, ainda que europeia e africana também, mas com suas características particulares.

YVY-Mistérios da Terra/Capítulo 10

Eva, rebatizada Yvytu Eté, sabia da doença desconhecida que levara embora seus pais e toda a sua tribo. Sabia, também, que ela e seu avô, que a entregou ainda bebê ao padre Antônio, eram os únicos que não tinham sido tocados pela enfermidade. Ouviu de padre Antônio que esse milagre de Deus acontecera para salvá-la e para castigar o velho Moreyra. Salvá-la, pois ela era especial; castigar seu avô, pois não era um bom cristão e viveria sozinho o resto da sua vida.

Porém, naquele dia, ela conheceu outra versão para a sua história. O que a levou a refletir sobre tudo que havia aprendido até então.

̶  Aquela doença foi obra do Anhá, minha neta.

Após escutar seu avô, Eva tomou um gole do ka’a e colocou a cuia de lado. Levantou-se e foi para a entrada da cabana, o sol já começava a espalhar sua luz pela floresta.

Eva já havia aprendido sobre o Anhá, o senhor do mau. Aquele que quer desfazer tudo o que o grande pai Tupã fez. Então, um pensamento veio à sua cabeça, a doença que levou sua tribo foi obra de Deus, como disse o padre, ou do Diabo? Nesse caso, para quem o padre Antônio trabalhava?  Voltou-se para o seu avô.

̶  Mas, por que a doença não nos atacou também?

A jovem foi convidada a voltar para perto da fogueira. O velho Palavra Bonita já preparava o petyngua. Quando ela se sentou, ele lhe alcançou o cachimbo aceso. As primeiras tragadas  arderam no interior da sua boca. Aos poucos, ela foi liberando a fumaça pelo nariz.

Então, devolveu o cachimbo para seu avô e, logo depois de algumas baforadas, o tomou de volta. Esse movimento foi se repetindo e, com o tempo, o ambiente estava tomado pela fumaça branca. O velho Moreyra, as paredes de pau a pique, o telhado de taquara, tudo sumira da vista de Eva.

Ela levantou e começou a andar. Não sabia onde estava. De repente, sentiu que seu pé direito encostava em alguma coisa e olhou para baixo. Era uma pessoa deitada, inerte. Dava pra ver que era um homem do seu povo, e tinha o corpo coberto por feridas cheias de pus. Ela se assustou, voltou o olhar ao redor de si e percebeu que havia muitas pessoas na mesma situação, atiradas pelo chão.

O som de um chocalho chamou sua atenção e ergueu a cabeça para o seu lado direito. Dava para ouvir uma batida ritmada, acompanhada por um canto masculino. Aos poucos, ela foi identificando um vulto em meio à fumaça. Ela se aproximou, com calma, e pode ver com mais clareza. Era o seu avô, mais jovem, do jeito que ela o via em seus sonhos.

Se aproximou mais e pode perceber que ele carregava um bebê no colo. A expressão do homem era de angustia. Seus pés também acompanhavam o ritmo do chocalho, cada vez mais frenético. Então, faíscas luminosas atraíram a atenção de todos para o alto. Eram relâmpagos. Eva começou a se assustar com aquilo tudo. Então, quando, em meio aos clarões, enxergou o rosto de um homem branco, velho, ela caiu sentada, com as mãos protegendo o seu rosto.

O velho, do alto, encarava seu avô, que tinha o bebê no colo. Os olhos azuis do velho chispavam. Sua imensa barba grisalha e os cabelos longos revoavam em meio aos relâmpagos. Seu pavor aumentou quando, de trás da fumaça, viu mais homens brancos. Como aqueles que destruíam a Redução, no seu sonho. Começaram a cercar seu avô, devagar.

Nhee Porã não parou de cantar e tocar seu chocalho em nenhum momento. Ao contrário, fazia isso com cada vez mais vontade. Até que, com uma das mãos, ergueu o bebê bem alto. Eva percebeu que tanto os homens ao redor do seu avô, como o velho que pairava nas alturas, se assustaram e recuaram um pouco. Um vento forte começou a soprar, dispersando a névoa branca. Eva observava tudo, perplexa.

A ventania terminou de afastar a fumaça e, mais uma vez, Eva estava na praia dos seus sonhos. Mas tinha algo diferente. Entre a areia e o mar, havia uma longa paliçada, ameaçadora. O que ela estaria protegendo? O mar ou a terra? Ela não pôde refletir muito sobre isso. Percebeu que já havia voltado para o redor do fogo, junto com o velho Moreyra, que segurava o petyngua e a observava com seus olhos serenos.

̶  Meu avô. O velho de barbas brancas nos olhando lá de cima, era o Anhá?

O velho Nhee Porã balançou a cabeça.

̶  Sim, Yvytu.

̶  Ele que trouxe a doença?

̶  Na verdade, ele trouxe os juruás. Os juruás trouxeram a doença e tudo o mais que atinge nosso povo.  ̶ O avô de Eva bateu o petyngua sobre o fogo, expulsando o conteúdo do cachimbo.  ̶  O poder do meu canto não foi bastante para proteger nossa tribo, só consegui salvar a mim mesmo.  ̶  O velho abaixou a cabeça e esfregou seus olhos, que começavam a lacrimejar.  ̶  Com você foi diferente. Sobreviveu por outro motivo.

Eva enrugou a testa, como quem não estava entendendo nada.

̶  Sim, minha neta. Você sobreviveu porque é especial. Você veio ao mundo para conduzir nosso povo ao Yvy Maraêy. A Terra Sem Males, o paraíso guarani. O Anhá não podia fazer nada contra você.

Era muita informação de uma única vez, Eva sentia sua cabeça ferver. O padre Antônio sempre dizia que ela era especial. Mas, parece que não pelo motivo que ele imaginava. Ela se levantou e começou a andar pela cabana.

̶  O Anhá não podia me matar, mas podia matar nosso povo. Não é isso?

̶  Sim, minha neta. E a única barganha que consegui fazer com ele foi de entregá-la aos homens de vestido preto, em troca de deixar nosso povo em paz.

̶  Então, por isso a minha visão! Comigo fora da Redução, o acordo foi desfeito e os homens brancos estão vindo para destruir tudo.

Ela voltou a se sentar ao redor do fogo, próximo ao seu avô.

 

̶  Mas tem mais uma coisa. Onde fica o Yvy Maraêy?

̶  Não sabemos. Mas, dizem que viajando sempre para a direção do lugar onde o sol nasce, existe a grande água, o Paraguaçu. Que os juruás chamam de oceano Atlântico. O paraíso pode ficar do outro lado da água.

Assim, Eva entendeu mais um elemento recorrente nos seus sonhos, o mar.

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YVY-Mistéiros da Terra/Capítulo 9

As noites e os dias iam se sucedendo para avô e neta. Com frequência, navegavam pelo Uruguai acima ou abaixo, pescando e conversando. Eva conhecia um novo mundo. Seu ensinamento guarani era todo através das palavras do velho Nhee Porã. Mas também através da prática. Roçando e colhendo milho, conheceu a história de Avati. O jovem guerreiro que ofereceu sua vida para salvar seu povo e, de seus olhos plantados na terra guarani, brotaram as espigas douradas que lhes serviam de alimento. Tomando mate, conheceu a história de Ka’a, a jovem que foi morta pelo seu amado. Sua vida era recheada com as palavras do seu avô.

̶  A palavra é a maior riqueza para nosso povo, minha neta. Somos feitos de palavras. Cada coisa nesse mundo foi criada pela palavra do nosso grande pai, Nhanderu. ̶  Enquanto falava, Nhee Porã entalhava um pequeno pedaço de madeira.

̶  As palavras erradas podem levar para o caminho errado.

O velho guarani terminou de entalhar e deu o artefato para sua neta, recém batizada como Yvytu Eté. Com um sorriso, a garota analisou o objeto. Uma onça de madeira. Então, ela perguntou.

̶  Vovô. O senhor sempre usou as palavras corretas?

Sem responder, o velho abaixou a cabeça, ficou um instante pensativo. Levantou-se, agarrou uma cabaça de água e encheu um recipiente de cerâmica que foi levado ao fogo. Não conversaram mais até a hora de dormir.

Eva vê a Redução, o local em que cresceu. Homens à cavalo adentram por suas ruas. À frente deles, um velho, de barba branca e comprida, dividida no meio, como língua de cobra. Tinha um chapéu de abas largas na cabeça. 

Então, o velho de barba branca grita alguma coisa. Os homens começam a invadir as casas e arrancar as famílias de dentro. Algumas pessoas são mortas sem qualquer cerimônia, com golpes de espada. Os que tentam fugir são alcançados pelos tiros de mosquete ou pistola. A Redução começa a arder.

Eva despertou suando. Uma sensação de medo invadiu seu coração. Sua rede ainda balançava, quando viu seu avô, em pé, ao seu lado. Levou um susto.

̶  Não foi um simples sonho, Yvytu. Há coisas que preciso lhe contar.

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YVY-Mistérios da Terra/Capítulo 8

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Dizia-se que, no caudoloso rio Uruguai, não se precisava de nada para pescar, nenhum tipo de instrumento. Os peixes pulavam sozinhos da água para a sua canoa, se estivesse atravessando ele.  Deus teria tornado a vida muito fácil naquela terra. O próprio padre Antônio se queixava disso, às vezes. Pois, para o gosto dele, os índios trabalhavam muito pouco.

Nas matas próximas a esse rio, vivia o avô de Eva, conhecido como Velho Moreyra. Sua casa era feita de pau-a-pique, com telhado de taquaras. Com muita relutância, ele abrigou Eva ali.

̶ Você não devia ter vindo, menina. Mas, agora já está aqui. ̶  Moreyra abaixou a cabeça e catou alguns gravetos amontoados ao seu lado.

̶ Fico feliz com isso.  ̶ O velho quebrou um graveto e largou na fogueira que estava entre os dois. Eva, em silêncio, não desgrudava os olhos de seu avô. Para ela, era o mesmo homem dos seus sonhos, apenas os cabelos estavam mais grisalhos. Ele continuou.

̶  Agora que está aqui, vai aprender o que os juruás[1] não podem te ensinar. ̶  Usando uma vara,  velho guarani tentava catar uma brasa do fogo, uma bem pequena, a agarrou rapidamente com os dedos ossudos e a colocou no cachimbo que estava preparando. Deu algumas baforadas fortes e foi possível ver o brilho da brasa na boca do artefato. Eva continuou observando em silêncio, então, ela arriscou.

̶  É o que mais quero, meu avô.

̶  Primeira coisa que deve saber é que meu nome verdadeiro não é Moreyra. Esse é o nome que os juruás me deram. Eu tenho um nome guarani. Você disse que se chama Eva, não? Pois, você também terá um nome como o meu.

Os olhos da menina brilhavam. Ela sentia que estava conhecendo um mundo novo e isso era excitante. Seu avô continuou

Aqueles que vieram antes de mim, escolheram me chamar de Nhee Porã. Palavra bonita. Quando chegar a hora, seu nome surgirá, é preciso esperar. Deve ser escolhido com cuidado, pois, para nós, guaranis, nosso nome é a palavra que expressa quem somos. Qual será a sua palavra? Precisamos descobrir.

̶  O velho guarani dá mais uma tragada e, soltando a fumaça, aponta o cachimbo para Eva.

̶  Este é o petyngua. Ele é a nossa porta para o mundo dos espíritos. Eles nos mostrarão qual é a sua palavra.

Aos poucos, o recinto foi se enchendo com a fumaça do petyngua. Eva via seu avô com cada vez mais dificuldade, até que já não podia mais definir quem estava além da névoa. Também não era mais possível ver nem o teto, nem as paredes da residência. Então, uma luz chamou a atenção dela. Eram relâmpagos que riscavam por sobre suas cabeças.

De repente, a visão de Eva foi tapada pelos seus cabelos, parecia que tinham ganhado vida. Na verdade, era o vento que havia adentrado o ambiente e se somado aos relâmpagos. Ela lembrou dos sonhos que vinha tendo. Pôde sentir, inclusive, o ar salgado da praia.

Então, a jovem se pôs de pé. Queria saber onde estava. Começou a ouvir passos, não podiam ser do seu avô, soavam mais como o de uma multidão. Foi aí que, de dentro da névoa, ela viu sair uma senhora guarani. Vestida como o povo da Redução, ela carregava um cesto de taquara nas costas, atrás dela, duas crianças. A essas, se seguiam pessoas adultas, homens, mulheres, mais crianças, mais idosos. Todos passavam diante de Eva e adentram a névoa, uma vez mais. Sabe-se lá para onde iam. Não ligavam para a garota, ela era só uma espectadora, como nos sonhos que tivera.

A névoa, aos poucos, se dissipou. Eva viu-se sentada em volta da fogueira, de novo. Diante dela, o avô Nhee Porã esboçava um leve sorriso.

̶  Você tem o espírito inquieto como o vento, minha neta. Você será Yvytu Eté. O vento sagrado.

[1] Termo guarani para homem branco.

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YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 5

Tinha algo estranho com aquela manhã, Eva pressentia. A refeição matinal não havia lhe caído bem, Barnabé andava calado e havia muito pouca gente andando pela redução. Os dois se encaminhavam aos estábulos, como sempre. Desde que se conheceram e ficaram juntos, essa tem sido sua rotina. Selar os cavalos, tocar o gado no pasto, levá-los a beber água, cuidar das vacas, dos terneiros, comer juntos, passear pela campina, ir à missa, enfim. Eva não sentia felicidade maior. Mas, naquele dia, algo a preocupava.

Ao fim da rua de chão batido da redução, dava para se avistar a silhueta de homens montados. Quando se aproximaram, eram em número de quatro. Padre Antônio estava entre eles. A idade já fazia seus estragos no velho sacerdote. Ele já não tinha mais o mesmo cabelo castanho de quando Eva, criança, o conheceu. Os outros eram dois guaranis, fardados com o uniforme do exército espanhol, e um branco, poderia ser um emissário da Coroa.

Padre Antônio deu bom dia e pediu para que Barnabé os acompanhasse. Eva ficou apreensiva, mas a tranquilizaram e pediram que continuasse com os afazeres, logo seu marido se juntaria a ela.

Na manhã seguinte, lá estava Eva, chorando na praça central da redução. Se abraçava na perna de Barnabé que, montado em seu cavalo, tentava acalmar a companheira.

̶   Eu voltarei, meu amor. Não se preocupe.

̶   Por que você? Por quê? Isso não é justo!  ̶  Ela não soltava a perna.

̶   É meu dever. Nosso dever. Quando tudo isso acabe, voltarei.

Um pouco afastado da cena, padre Antônio observava. Seu rosto era de tristeza.

Depois de mais de um beijo e de mais promessas de regresso, Barnabé tocou seu cavalo e acompanhou os demais. Eva assistiu até que o último cavalo dobrasse a esquina da redução em direção à estrada.

Então, ela se voltou para o padre Antônio, com um olhar acusador que o assustou, ele nunca tinha visto Eva assim.

Passaram-se alguns meses, até que chegaram notícias do fronte de batalha. O exército espanhol, no qual estava Barnabé, havia cercado os portugueses em Colônia do Sacramento, mas tiveram que recuar. Estaria Barnabé voltando para casa?

No dia em que os guerreiros guaranis voltariam, todos se puseram na expectativa e muitos já esperavam desde cedo na entrada da redução. Quando o sol começava a se encaminhar para sua descida no céu, era possível avistar pontinhos levantando poeira, no horizonte. Eram eles. O coração de Eva disparou, estava para escapar-lhe do peito.

A expectativa se transformou em decepção quando descobriu que Barnabé não estava entre eles. Pior, estava desaparecido, não sabiam o que havia lhe acontecido, mas o mais certo era que estivesse morto, atolado na lama do fundo do Rio da Prata.

A decepção se transformou em fúria ao avistar o padre Antônio, recém chegado para recepcionar os guerreiros. Ela o interpela logo que se aproxima.

̶   É para isso que nos cria, padre Antônio? Para morrermos pelo seu Rei?

̶   Eva, estamos nas terras do Rei da Espanha. Não há nada que possamos fazer.

O corpo da garota todo tremia, lágrimas começavam a brotar.

̶   Terras do Rei da Espanha? Essa terra é nossa! Era dos meus pais, dos pais dos meus pais!

̶   Mas, Eva…

̶   Chega! Não obedecerei mais a rei nenhum!

Padre Antônio começava a perder a paciência.

̶   Eva, desobedecer o Rei é como desobedecer Deus! Não aprendeu nada do que lhe ensinei?

A garota dá as costas e, com passos firmes, vai até o seu cavalo que pastava ali perto. Montada, ela se aproxima mais uma vez do padre.

̶   Não obedecerei mais seu Rei, nem seu Deus! Que não é o meu Deus, nem dos meus pais, nem do meu avô. Vou agora mesmo pra floresta e vou viver lá, com ele!

A menção ao antigo Moreyra fez o sangue do sacerdote subir.

̶   Você sabe quem é seu avô, Eva? Não te contaram?  ̶  O padre olha ao redor e abre os braços, como se estivesse cobrando explicações das pessoas.

̶   Pois ele é um mentiroso! Sempre foi!

̶   Sim, ele mentia. Mas mentia para ajudar nosso povo! Quando ele distorcia as palavras da sua língua para a nossa, era a verdade que ele falava!  ̶  Eva, agitada, fazia o cavalo dar voltas em torno dele mesmo  ̶  Vocês vieram para tomar nossas terras e nossas vidas! Adeus!

̶   Eva cutucou o cavalo e saiu em disparada, em direção a sua casa, precisava  se preparar para a jornada que a aguardava.

O padre Antônio ficou ali parado. A briga dos dois havia atrapalhado um pouco a recepção dos guerreiros. As pessoas olhavam para ele, alguns se aproximaram para consolá-lo. Logo depois, cada família abraçou seu ente querido e foi para sua casa. O sacerdote ficou um pouco mais, pensativo. Voltou para seus aposentos, num passo muito lento.

Será que ele pensava que esse momento nunca chegaria? Será que Eva voltará? Quem será mais forte, o ensinamento cristão que ele deu, ou as palavras mentirosas de um bruxo? O padre ainda não sabe, mas não será esse o problema que afetará a redução no futuro.

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YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 3

Ela firmou o cabo da lança, feito de taquara, na axila. Divisou o saco de serragem que balançava no galho de uma ampla figueira. Se preparou para a investida.

̶   Concentração, Eva. Mantenha o equilíbrio.

Ao lado dela, estava Barnabé, seu futuro marido. Outro jovem guarani que vivia na redução e que já contava seus 20 anos de idade. Ela, 18. Ele a observava, como se a avaliasse. Corrigia sua postura e dava orientações. Apesar do rapaz parecer rude, quem prestasse atenção em seus olhos, veria que havia orgulho neles.

Eva tocou a barriga do cavalo com os calcanhares e disparou em direção ao alvo, Barnabé a seguia, não muito de perto.

̶   Firme, Eva! Firme!

A lança atingiu em cheio o saco de serragem e se prendeu nele. Eva terminou a investida de mãos vazias.

̶   Muito bem. Foi um bom ataque   ̶   Elogiou Barnabé, se aproximando com seu cavalo.

Eva sorriu, então, ele continuou.

̶   Mas você perdeu a lança. O que faria se isso acontecesse em uma batalha?

A garota foi virando o rosto, bem devagar.

̶   Bom… eu faria…

De repente, num gesto rápido, ela tirou o poncho que usava e o atirou sobre Barnabé.

̶   Isto!

O jovem guarani se enredou como se estivesse em uma teia. Eva aproveitou o momento e disparou a galope. Barnabé levou alguns instantes para se desvencilhar e logo saiu em disparada atrás dela.

̶   Então, é assim?  ̶  Ele tinha um sorriso no rosto, adorava esses joguinhos que ela fazia.

Naquela imensidão verde, apenas os quero-queros eram os espectadores daquela carreira. No fim, foi uma corrida sem vencedor, nem vencido. Os dois terminaram em um pequeno rio, bem raso. Barnabé saltou de seu cavalo, quando se aproximou de Eva, a abraçando por trás. Os dois caíram de suas montarias, sobre a água.

Naquela imensidão verde, apenas os quero-queros e os dois cavalos eram os espectadores do amor entre Eva e Barnabé. Enfim, a garota órfã já não se inquietava tanto sobre seu passado, também ouvia cada vez menos aquele velho chamado que a impelia para fora da redução. Ela apenas vivia sua vida, era até feliz.

O sol começou a se querer se esconder, o casal voltou para casa.

Aquela mesma praia, a mesma escuridão, o mesmo vento. O mesmo cenário. O som das ondas quebrando. Mas Eva não está lá. Ela apenas observa. Algo começa a emergir das ondas. De longe, é apenas uma mancha escura. Mas, quando se aproxima, se vê uma silhueta feminina. A lua joga sua luz sobre a figura. Sim, é uma mulher.

Ela sai da água e se para sobre a areia. Eva nunca viu uma mulher como aquela. Sua pele escura reluz ao luar. Sua boca se abre num sorriso. O brilho dos dentes é arrebatador.

Eva se acordou de um pulo. Estava na sua cama de couro de boi sobre o chão. Ao seu lado, Barnabé continuava dormindo.  

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