YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 4

Já fazia três dias que os homens caminhavam naquela floresta. Sabiam de uma aldeia próxima a uma das margens do rio Níger, mas acabaram chegando tarde demais. De algum jeito, os moradores de lá ficaram sabendo da chegada deles. O grupo voltava de mãos abanando para a costa.

O sentimento de fracasso, o calor, os mosquitos, tudo colaborava para tornar aquele regresso mais difícil. Não fosse uma surpresa no meio do caminho. Próximo a uma árvore de largas raízes, jazia uma garota, inconsciente. Com o que ela sonhava? Quem poderia saber? O certo é que o pior dos pesadelos seria preferível ao que a aguardava quando  fosse desperta pelos escravagistas. Para eles, aquela jovem negra era um verdadeiro presente.

Ela ainda não sabia nem onde estava quando seus pulsos foram amarrados.

̶   Caminha, negra!

Ela não entendia as palavras do homem branco de cara barbuda, mas não precisava entender nada. Um puxão na corda e ela já se pôs a caminhar. Atravessaram florestas e rios, subiram e desceram colinas, até que, ao anoitecer, montaram acampamento. A garota sempre com as mãos atadas. Talvez fosse inútil falar com aqueles homens, mas ela nem tentou.

Ao amanhecer recomeçaram a marcha. Quando o sol atingiu seu ponto mais alto no céu, era possível sentir a maresia no ar, se aproximavam da praia. De longe, ela viu muita gente, uma construção de madeira que se projetava mar adentro e embarcações de muitos tipos flutuando.

Quando lá chegaram, havia muitas pessoas negras como ela. Alguns acorrentados, outros amarrados, crianças chorando, lamentos, gritos de ordem, sons de chicote. Nem em pesadelos ela tinha visto algo como aquilo.

Então, a puxaram pela corda, a subiram na plataforma de madeira e a levaram para um daqueles navios. Antes de embarcarem, um homem de vestido preto, com uma cruz pendurada no pescoço, lhe respingou um pouco de água de uma garrafa e lhe disse palavras que ela, mais uma vez, não entendeu.

Ao entrar no porão do navio, quase desmaiou. O calor, o cheiro de suor, vômito, urina e fezes fizeram seu estômago embrulhar, ela levou a mão à boca. Enxotou uns ratos e se sentou em um dos poucos cantos vazios.

̶   Você é muito bonita.

A garota se virou rapidamente para o seu lado direito, de onde partira aquela voz desconhecida. Quem proferiu a frase fora uma outra garota negra, que tinha os cabelos enrolados em pequenas tranças e um inacreditável sorriso nos lábios.

A recém chegada não disse nada, nem agradeceu o elogio, nem sorriu. Balançou a cabeça, fez uma careta e virou o rosto para frente. A outra insistiu com o contato.

̶   Eu me chamo Jerônima.

Mais uma vez, a tentativa de aproximação acabou fracassando.

̶   E você? Tem um nome?

Dessa vez, a garota se virou para sua interlocutora, demonstrando pouca paciência.

̶   Nome? Isso importa nesse lugar?

A garota de tranças sorriu, conseguira, enfim, uma resposta.

̶   Minha irmã, nada mais importa.

Depois de alguns instantes observando o vazio, a recém chegada ao porão, respondeu.

̶   Não sei, não lembro de nada. Não sei nem quem eu sou, nem de onde vim.

Então, a porta do porão se fechou, um movimento de pessoas começou no convés do navio. A hora da partida estava chegando.

As duas jovens que acabaram de se conhecer continuavam lado a lado. A de tranças sorriu e apontou o dedo indicador para a outra.

̶   Vou chamá-la de Odara.