YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 5

Tinha algo estranho com aquela manhã, Eva pressentia. A refeição matinal não havia lhe caído bem, Barnabé andava calado e havia muito pouca gente andando pela redução. Os dois se encaminhavam aos estábulos, como sempre. Desde que se conheceram e ficaram juntos, essa tem sido sua rotina. Selar os cavalos, tocar o gado no pasto, levá-los a beber água, cuidar das vacas, dos terneiros, comer juntos, passear pela campina, ir à missa, enfim. Eva não sentia felicidade maior. Mas, naquele dia, algo a preocupava.

Ao fim da rua de chão batido da redução, dava para se avistar a silhueta de homens montados. Quando se aproximaram, eram em número de quatro. Padre Antônio estava entre eles. A idade já fazia seus estragos no velho sacerdote. Ele já não tinha mais o mesmo cabelo castanho de quando Eva, criança, o conheceu. Os outros eram dois guaranis, fardados com o uniforme do exército espanhol, e um branco, poderia ser um emissário da Coroa.

Padre Antônio deu bom dia e pediu para que Barnabé os acompanhasse. Eva ficou apreensiva, mas a tranquilizaram e pediram que continuasse com os afazeres, logo seu marido se juntaria a ela.

Na manhã seguinte, lá estava Eva, chorando na praça central da redução. Se abraçava na perna de Barnabé que, montado em seu cavalo, tentava acalmar a companheira.

̶   Eu voltarei, meu amor. Não se preocupe.

̶   Por que você? Por quê? Isso não é justo!  ̶  Ela não soltava a perna.

̶   É meu dever. Nosso dever. Quando tudo isso acabe, voltarei.

Um pouco afastado da cena, padre Antônio observava. Seu rosto era de tristeza.

Depois de mais de um beijo e de mais promessas de regresso, Barnabé tocou seu cavalo e acompanhou os demais. Eva assistiu até que o último cavalo dobrasse a esquina da redução em direção à estrada.

Então, ela se voltou para o padre Antônio, com um olhar acusador que o assustou, ele nunca tinha visto Eva assim.

Passaram-se alguns meses, até que chegaram notícias do fronte de batalha. O exército espanhol, no qual estava Barnabé, havia cercado os portugueses em Colônia do Sacramento, mas tiveram que recuar. Estaria Barnabé voltando para casa?

No dia em que os guerreiros guaranis voltariam, todos se puseram na expectativa e muitos já esperavam desde cedo na entrada da redução. Quando o sol começava a se encaminhar para sua descida no céu, era possível avistar pontinhos levantando poeira, no horizonte. Eram eles. O coração de Eva disparou, estava para escapar-lhe do peito.

A expectativa se transformou em decepção quando descobriu que Barnabé não estava entre eles. Pior, estava desaparecido, não sabiam o que havia lhe acontecido, mas o mais certo era que estivesse morto, atolado na lama do fundo do Rio da Prata.

A decepção se transformou em fúria ao avistar o padre Antônio, recém chegado para recepcionar os guerreiros. Ela o interpela logo que se aproxima.

̶   É para isso que nos cria, padre Antônio? Para morrermos pelo seu Rei?

̶   Eva, estamos nas terras do Rei da Espanha. Não há nada que possamos fazer.

O corpo da garota todo tremia, lágrimas começavam a brotar.

̶   Terras do Rei da Espanha? Essa terra é nossa! Era dos meus pais, dos pais dos meus pais!

̶   Mas, Eva…

̶   Chega! Não obedecerei mais a rei nenhum!

Padre Antônio começava a perder a paciência.

̶   Eva, desobedecer o Rei é como desobedecer Deus! Não aprendeu nada do que lhe ensinei?

A garota dá as costas e, com passos firmes, vai até o seu cavalo que pastava ali perto. Montada, ela se aproxima mais uma vez do padre.

̶   Não obedecerei mais seu Rei, nem seu Deus! Que não é o meu Deus, nem dos meus pais, nem do meu avô. Vou agora mesmo pra floresta e vou viver lá, com ele!

A menção ao antigo Moreyra fez o sangue do sacerdote subir.

̶   Você sabe quem é seu avô, Eva? Não te contaram?  ̶  O padre olha ao redor e abre os braços, como se estivesse cobrando explicações das pessoas.

̶   Pois ele é um mentiroso! Sempre foi!

̶   Sim, ele mentia. Mas mentia para ajudar nosso povo! Quando ele distorcia as palavras da sua língua para a nossa, era a verdade que ele falava!  ̶  Eva, agitada, fazia o cavalo dar voltas em torno dele mesmo  ̶  Vocês vieram para tomar nossas terras e nossas vidas! Adeus!

̶   Eva cutucou o cavalo e saiu em disparada, em direção a sua casa, precisava  se preparar para a jornada que a aguardava.

O padre Antônio ficou ali parado. A briga dos dois havia atrapalhado um pouco a recepção dos guerreiros. As pessoas olhavam para ele, alguns se aproximaram para consolá-lo. Logo depois, cada família abraçou seu ente querido e foi para sua casa. O sacerdote ficou um pouco mais, pensativo. Voltou para seus aposentos, num passo muito lento.

Será que ele pensava que esse momento nunca chegaria? Será que Eva voltará? Quem será mais forte, o ensinamento cristão que ele deu, ou as palavras mentirosas de um bruxo? O padre ainda não sabe, mas não será esse o problema que afetará a redução no futuro.

Tatu-Guaçu

Por Rafael.

Um personagem que me chamou a atenção no poema épico O Uraguai, que tratei em outro post, foi Tatu-Guaçu. Era um cacique guarani que lutou ao lado de Sepé Tiarajú
contra as forças conjuntas de Portugal e Espanha. Basílio da Gama o retrata como um poderoso guerreiro, que usava uma couraça de pele de jacaré nas batalhas.

Não sei se Tatu-Guaçu é um personagem fictício, criado por Basílio da Gama, ou se existiu de fato, não achei menção a ele em nenhum outro livro, ainda que minha pesquisa não tenha sido tão aprofundada.

De qualquer maneira, gostei dele e desenhei minha versão do Tatu-Guaçu para vocês apreciarem. Uma hora, descobrirei mais sobre ele.

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A ameaça jesuítica! – O Uraguai, de Basílio da Gama.

jesuítas

Por Rafael.

Antes do advento do romance, a principal forma de narrativa circulante no mundo ocidental era o poema épico. Como exemplo, temos a Ilíada e a Odisseia, Os Lusíadas,  o Caramuru, entre outros. Neste post, e nos próximos, comentarei, brevemente, alguns aspectos de O Uraguai, poema épico lançado no ano de 1769, que narra a chamada guerra guaranítica, conflito que colocou os exércitos de Espanha e Portugal contra as reduções jesuítico-guaranis dos Sete Povos das Missões, instaladas, então, na margem oriental do rio Uruguai. Hoje, território do estado Rio Grande do Sul.

Vivenciamos, na atualidade, uma chamada “guerra de narrativas”. Aquelas discussões sobre “nazismo de esquerda”, sobre nunca ter havido ditadura no Brasil, sobre os portugueses não terem praticado a escravidão, sobre os próprios índios serem os destruidores do meio ambiente, etc. Ou seja, uma maneira de distorcer a História para que ela se esteja de acordo com determinada ideologia, determinada visão de mundo.

O Uraguai, escrito por Basílio da Gama, arrisco dizer, faz um pouco disso. Retratando, em seus versos, os jesuítas como ardilosos manipuladores dos inocentes guaranis. Estes, apenas pobres selvagens. Quanto a Gomes Freire, comandante das forças portuguesas, cabe o papel de valente general. Homem rigoroso, mas também sensível, que não sente  euforia por sua tarefa de exterminar milhares de pessoas. Outro elevado a condição de herói divino é o primeiro-ministro português, o Marquês de Pombal.

No século XVIII, a coroa portuguesa e a Cia. de Jesus não atravessavam um bom momento no seu relacionamento. Portugal vivia certos ares iluministas e o fim da ingerência da Igreja nos assuntos do Estado era conveniente, na época, para o Marquês, que não mantinha hábitos moralmente aceitos. Depois da realização do Tratado de Madrios jesuítas passaram a ser vistos como verdadeiros inimigos da Coroa portuguesa, acusados de estarem tramando um plano secreto para dominar o mundo. Lembrando muito a atualidade, com Olavo de Carvalho denunciando o chamado “Foro de São Paulo”, uma “conspiração comunista-bolivariana-gay-globalista internacional”.

Em um trecho do poema épico, no seu Canto Quinto, depois de invadirem São Miguel das Missões, Gomes Freire e seus homens adentram a catedral e admiram um afresco pintado na abóbada, assim Basílio da Gama relata:

Na vasta curva abóbeda pintara

  A destra mão de artífice famoso    

 Em breve espaço, e Vilas, e Cidades,

 E Províncias e Reinos. No alto sólio

   Estava dando leis ao mundo inteiro                                                                                                  A Companhia. (…)

A “companhia”, no caso, se refere a Cia. de Jesus, claro.

Assim é a História, escrita pelos vencedores.

Até a próxima.