A Queda do Céu: o pacto entre dois mundos.

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Capa do livro.

Nem Disney, nem Marvel, muito menos DC, seriam capazes de criar tantas histórias quanto a mitologia yanomami consegue. Exagero? Faça as suas conclusões, lendo A Queda do Céu, obra de autoria do líder desse povo, Davi Kopenawa, e do antropólogo francês, Bruce Albert. Lançado, primeiramente em língua francesa, só foi publicado no Brasil no ano de 2010, pela Cia das Letras. O livro é fruto de um pacto, como coloca Albert, entre dois mundos.

Pacto entre o mundo do antropólogo, pesquisador da cidade, e o mundo do Xamã, o intelectual da floresta. Diferentemente de um trabalho científico, onde um lado relata e analisa o comportamento e a vida do outro, este livro é uma obra escrita por ambos. Pois, ainda que Albert tenha sido o redator das páginas, cada ideia e parágrafo foram supervisionados por Kopenawa. De modo que o produto final representa o depoimento histórico e analítico sobre a luta e a cultura do povo yanomami, feito por um dos seus.

Na obra, temos uma apresentação da rica visão de mundo yanomami e dos seus mitos da criação, onde Omama, o grande criador de tudo, tem papel destacado. Dentro dessa cosmovisão, animais e humanos possuem a mesma origem. Fazendo-os, igualmente, habitantes da floresta, como irmãos. Mas, o mais impressionante, para alguém da cultura letrada, urbana e industrial, é como suas incontáveis histórias passam de geração a geração, de forma oral. Cabendo aos xamãs, o que poderíamos chamar de bibliotecas vivas, o dever de guardá-las. Essas histórias, além de contar como tudo surgiu (inclusive os brancos e suas mercadorias), também organizam o modo de ser desse povo. Elas guardam os ensinamentos de proteção da floresta e das pessoas ao seu redor.    

davi kopenawa
Imagem do interior do livro. Kopenawa é o indígena sem pintura no corpo, abaixo e a esquerda da faixa.

Outro ponto que chama muito a atenção é a análise que Kopenawa faz da socidade dos brancos. Acabamos por nos sentir no papel de objeto de estudo. Para o xamã, estamos sempre tontos, perdidos, procurando orientação nos “desenhos de palavras” que colocamos nas “peles de papel”, pois não somos capazes de guarda-las em nós mesmos. Estamos sempre confusos com o barulho dos motores e o zumbido dos aparelhos de rádio e televisão. O “ruído”, como Kopenawa se refere. Ruído que os brancos levaram para o interior da floresta e também causou confusão na cabeça do seu povo, sobretudo para os jovens, que se encantaram com os equipamentos e mercadorias da cidade, esquecendo-se de suas histórias e de seus espíritos. Sem os seus espíritos, chamados de xapiri, os yanomami não podem existir, como o xamã explica. Eles são responsáveis por evitar “a queda do céu”, por cuidar das doenças, por favorecer a colheita e a caça. Assim como os brancos aprendem com seus livros, os yanomami aprendem com seus xapiri.

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A história da amizade de 30 anos entre Bruce Albert e Davi Kopenawa, que possibilitou a elaboração do livro, poderia muito bem ser transformada em filme. Albert testemunhou a execução dos megaprojetos de “desenvolvimento” da ditadura militar na floresta amazônica e acompanhou missionários e agentes da FUNAI em suas atividades. Numa dessas, ele encontrou o jovem Kopenawa, que trabalhava como interprete para o posto da FUNAI do rio Demini, no estado de Roraima. Mas a relação levou muito tempo para se consolidar. Só mais tarde, o yanomami vai enxergar no francês um aliado na proteção da floresta e da vida do seu povo. O livro ainda traz um detalhado glossário de palavras yanomami referentes a animais, plantas e topônimos da região. Além da aterradora história do massacre de Haximu, onde mulheres, crianças e idosos yanomami foram mortos por garimpeiros. Ler o livro agora, em 2020, em pleno governo Bolsonaro, em plena hecatombe ambiental brasileira, é chocar-se com a realidade. Não são apenas “desenhos de palavras” em uma “pele de papel”. O que vamos fazer para evitar o nosso fim? Fica a reflexão.

Nheçu: no corredor central (resenha)

Por Rafael.

nheçu

É bem conhecida, entre os habitantes do Rio Grande do Sul, a história do cacique Sepé Tiarajú, que liderou os guaranis na luta contra os impérios espanhol e português para defender os Sete Povos das Missões.

Uma figura menos popular é a do cacique Nheçu. Esse personagem perdido da história do Rio Grande do Sul foi poucas vezes retrato na bibliografia historiográfica ou literária, e quase sempre figurando como vilão. Uma destas raras obras é o livro Nheçu – no corredor central, do escritor Barbosa Lessa, publicado pela Editora do Brasil, em 1999.

Numa linguagem literária, um pouco voltada para o público juvenil, o livro traz o dia-a-dia dos habitantes de uma aldeia guarani próxima ao rio Uruguai, numa área conhecida como colina do Maçambará. Lá pelas tantas, chega na aldeia a notícia de que os “roupas-preta”, como são chamados os jesuítas, estão nas proximidades da aldeia. A notícia foi recebida com apreensão pelo povo. Temerosos, pois já tinham ouvido falar das histórias de escravidão que vinham logo depois da cristianização.

Nheçu foi um cacique que se opôs à influência cristã sobre os seu povo. Talvez por isso seja menos lembrado que Sepé Tiaraju, que era um guarani cristianizado. Em alguns livros, ele é colocado como responsável pela morte dos famosos “três mártires riograndenses”: os padres Roque Gonzales, Afonso Rodríguez e Juan de Castillo. Fundadores da redução de São Nicolau e outras. Mas, a história de Barbosa Lessa, o coloca como alguém que, ao mesmo tempo em que se opunha aos cristãos, respeitava muito a figura dos jesuítas, principalmente a do padre Roque Gonzales. Não tendo sido ele o fomentador da guerra que se travou entre os guaranis não-cristianizados e os outros, ainda que não tenha feito nada para evitá-la.

Com ilustrações de Fernando Merlo, a obra é uma boa referência inicial a esse personagem, contando também como uma forte pesquisa sobre o modo de vida original dos guaranis. Fica a dica.