A ameaça jesuítica! – O Uraguai, de Basílio da Gama.

jesuítas

Por Rafael.

Antes do advento do romance, a principal forma de narrativa circulante no mundo ocidental era o poema épico. Como exemplo, temos a Ilíada e a Odisseia, Os Lusíadas,  o Caramuru, entre outros. Neste post, e nos próximos, comentarei, brevemente, alguns aspectos de O Uraguai, poema épico lançado no ano de 1769, que narra a chamada guerra guaranítica, conflito que colocou os exércitos de Espanha e Portugal contra as reduções jesuítico-guaranis dos Sete Povos das Missões, instaladas, então, na margem oriental do rio Uruguai. Hoje, território do estado Rio Grande do Sul.

Vivenciamos, na atualidade, uma chamada “guerra de narrativas”. Aquelas discussões sobre “nazismo de esquerda”, sobre nunca ter havido ditadura no Brasil, sobre os portugueses não terem praticado a escravidão, sobre os próprios índios serem os destruidores do meio ambiente, etc. Ou seja, uma maneira de distorcer a História para que ela se esteja de acordo com determinada ideologia, determinada visão de mundo.

O Uraguai, escrito por Basílio da Gama, arrisco dizer, faz um pouco disso. Retratando, em seus versos, os jesuítas como ardilosos manipuladores dos inocentes guaranis. Estes, apenas pobres selvagens. Quanto a Gomes Freire, comandante das forças portuguesas, cabe o papel de valente general. Homem rigoroso, mas também sensível, que não sente  euforia por sua tarefa de exterminar milhares de pessoas. Outro elevado a condição de herói divino é o primeiro-ministro português, o Marquês de Pombal.

No século XVIII, a coroa portuguesa e a Cia. de Jesus não atravessavam um bom momento no seu relacionamento. Portugal vivia certos ares iluministas e o fim da ingerência da Igreja nos assuntos do Estado era conveniente, na época, para o Marquês, que não mantinha hábitos moralmente aceitos. Depois da realização do Tratado de Madrios jesuítas passaram a ser vistos como verdadeiros inimigos da Coroa portuguesa, acusados de estarem tramando um plano secreto para dominar o mundo. Lembrando muito a atualidade, com Olavo de Carvalho denunciando o chamado “Foro de São Paulo”, uma “conspiração comunista-bolivariana-gay-globalista internacional”.

Em um trecho do poema épico, no seu Canto Quinto, depois de invadirem São Miguel das Missões, Gomes Freire e seus homens adentram a catedral e admiram um afresco pintado na abóbada, assim Basílio da Gama relata:

Na vasta curva abóbeda pintara                                                                                                        A destra mão de artífice famoso,                                                                                                        Em breve espaço, e Vilas, e Cidades,                                                                                                  E Províncias e Reinos. No alto sólio                                                                                                  Estava dando leis ao mundo inteiro                                                                                                  A Companhia. (…)

A “companhia”, no caso, se refere a Cia. de Jesus, claro.

Assim é a História, escrita pelos vencedores.

Até a próxima.

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Juan Diego, o padre desaparecido

Outro personagem de YVY, o padre Juan Diego, teve breve aparição no episódio 1. O inusitajuan diegodo padre chegou à redução para investigar o caso do gado que aparecia morto. Descendente do povo nahuat, do México, ele possui ideias sobre o universo que se chocam um pouco com o que a igreja católica pensa, assim, ele está disposto a averiguar um problema por mais de um ponto de vista.

Esse personagem foi inspirado em um Juan Diego verdadeiro. Se trata do mestiço mexicano que testemunhou a dita aparição de Nossa Senhora de Guadalupe, no século XVI. Configurando um interessante caso de sincretismo católico e “pagão”.

O padre Juan Diego desapareceu no episódio 1, Ele voltará?

Padre Antônio, outro protagonista

Padre AntônioOutro personagem importante de YVY é o Padre Antônio, o administrador da redução fictícia da nossa série. Como todos os jesuítas da Cia de Jesus, nosso pacato sacerdote é versado em diversos idiomas e conhecedor das mais diversas artes e áreas de conhecimento, desde música, passando por metalurgia, arquitetura, astronomia, escultura e medicina.

 

Em um trecho do primeiro episódio, Padre Antônio revela que sua terra de origem seria o Tirol, uma região entre o norte da Itália e o sul da Áustria. Esse personagem é diretamente inspirado em outro Padre Antônio, o verdadeiro, já citado aqui no blog. Por que alguém deixaria o interior da Europa para atravessar o Atlântico e se embrenhar no coração da América colonial? Quem sabe? Continue acompanhando a série!

Silêncio: Martin Scorcese e os jesuítas

Por Rafael.

carta do filme Silêncio

Fonte: http://t2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQK7gV4wOuqoc1gey_zDlDdWCIQYFbFtdtt16DAi10PlQv6nfu6

A série YVY tem como cenário as missões jesuíticas no conesul da América. Por isso, o trabalho de pesquisa para a sua produção se debruçou um pouco sobre a história desses que eram considerados os soldados de Cristo, os jesuítas da Cia de Jesus. Nesse sentido, é preciso citar o filme Silêncio, do diretor Martin Scorcese, como um dos materiais pesquisados.

Já havia tomado conhecimento da aventura e o martírio dos padres jesuítas no longínquo Japão, ao ler o livro Viagem às Missões Jesuíticas e Trabalhos Apostólicos, outra referência usada na série YVY. Por isso, o filme me chamou a atenção quando foi lançado no Brasil, em 2017. Não se trata do filme mais aclamado do famoso diretor, mas tem o mérito de levantar fortes questões sobre fé e religião e, principalmente, sobre a importância, ou não, de se levar esse trabalho de conversão de outros à sua religião.

Nele, somos levados a nos horrorizar quanto à brutalidade com que o xogunato japonês do século XVII tratou aqueles que tentavam levar a influência estrangeira às suas terras. O protagonista do filme, o padre português Sebastião Rodrigues, interpretado por Andrew Garfield, se vê passando pelas mesmas dificuldades que os clandestinos cristãos primitivos passaram durante boa parte do império romano, tendo que viver fugindo e se escondendo, enfrentando torturas e martírios diversos. O silêncio, nesse caso, título do filme, pode dizer respeito ao modo como os cristãos japoneses deveriam viver para escapar da perseguição. Em silêncio. Mas o silêncio vai se manifestar no filme de muitos modos, o espectador que faça sua avaliação.

É bom lembar que violência em nome da religião também foi praticada largamente pelos cristãos, não só na idade média ou nas cruzadas. A Santa Inquisição que o diga.

De qualquer modo, a história dos jesuítas no Japão acabou inspirando um personagem da série YVY, você vai conhecê-lo no terceiro episódio, em fase de produção. Aguarde!

Até a próxima.

 

Jesuítas e as missões

Uma das fontes usadas na pesquisa durante a produção de YVY é o livro Viagem às Missões Jesuíticas e Trabalhos Apostólicos, publicado pela Universidade de São Paulo, em 1980. O livro é uma compilação das cartas do padre jesuíta Antônio Sepp, escritas entre os fins do século XVII e o início do século XVIII, elas se destinavam aos seus parentes e amigos da Europa e contavam, em detalhes, os modos de vida das populações indígenas, o trabalho diário nas reduções, as dificuldades que encontravam, as doenças europeias que acometiam os indígenas, as defesas contra os ataques dos bandeirantes do Brasil, entre outras coisas. É o primeiro relato da vida em sociedade no território do atual estado do Rio Grande do Sul, sul do Brasil.

padre Antônio Sepp

Astronomia nas Missões

Se diz que o primeiro a apontar uma luneta para o céu foi o astrônomo italiano Galileu Galilei (1564-1642). A partir de então, tudo mudaria, ele descobriu que o planeta Júpiter era rodeado por satélites. Sendo assim, era verdade que nem tudo no universo circulava em torno do nosso planeta Terra, como acreditava Copérnico, um astrônomo de um período anterior (1473-1543), responsável pela ideia do universo heliocêntrico, modelo defendido por Galileu.

Galileu teve que se retratar perante o tribunal da inquisição, por suas ideias contrárias ao geocentrismo defendido pela igreja católica. Isso nos faz pensar sobre a nossa página 11, do nosso primeiro episódio de YVY. Por que um jesuíta carregaria uma luneta? Bom, o período em que a nossa história se passa é finais do século XVII e início do XVIII, as ideias de Galileu já deveriam estar bem conhecidas nos meios acadêmicos, qualquer pessoa bem informada, na época, já deveria ter tido contato com essa discussão de heliocentrismo X geocentrismo e feito seu juízo. Acho que não é inconcebível que pessoas altamente letradas como eram os jesuítas não tivessem estudado essa questão e, quem sabe, alguns deles, até começassem a duvidar do modelo geocêntrico. Caso do nosso amigo Juan Diego. Aguardem a continuação da história!

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Coleção explorando o ensino astronomia