Descomplincando com Kaê Guajajara: o que você precisa saber sobre os povos originários e como ajudar na luta anti-racista.

Kaê Guajajara

Por Rafael.

Recentemente adquiri a versão pdf do livro organizado pela artista e ativista indígena Kaê Guajajara. Trata-se de uma importante obra para o momento em que vivemos, onde, cada vez mais, os direitos dos povos indígenas por suas terras e seus modos de vida são atacados.

O livro é totalmente produzido por representantes dos diferentes povos indígenas brasileiros e se dirige, principalmente, à população não-indígena, branca e/ou habitantes dos centros urbanos.  O objetivo da obra é desmistificar alguns conceitos deturpados que circulam pela sociedade brasileira, em relação aos nativos americanos, ajudando os interessados em apoiar a causa a entendê-la e agir para tal.

Uma das primeiras ideias a ser descontruída na obra é a de “descobrimento” do Brasil, afirmando a importância de se usar o conceito de “invasão”, bem mais adequado para a situação. Depois, temos o debate sobre o uso do termo “índio”, sobre a escravização indígena – pouco comentada – e a catequese. Busca-se entender o processo colonial como um processo de genocídio e etnocídio, conceitos que também são trabalhados no livro.

Entre muitos temas apresentados, nos deparamos com algumas “curiosidades”, se podemos dizer assim. Como o caso da origem da palavra “grilagem”, se referindo ao roubo das terras indígenas, e o uso das palavras “tibira”, que se refere aos indígenas LGBT, e “parente”, que é como os povos originários se dirigem uns aos outros, independentemente de suas etnias.

Mas, um dos capítulos mais importantes, ao meu ver, é o que se destina a explicar as maneiras como nós, não-indígenas, podemos apoiar a causa desse povo, ou melhor, desses povos. E acredite, não é muito difícil fazer isso. Você pode começar indo no perfil da loja Azuruhu no instagram e entrar em contato com eles para descobrir como receber o pdf do livro, que teve sua versão impressa suspensa por causa da pandemia.

YVY-Mistérios da Terra/Capítulo 15 – final

                                                 

̶  Yvytu! Achamos o velho Nhee Porã!  ̶ As luzes do dia já se faziam presente sobre o rio Uruguai, e Eva e Odara caminhavam juntas entre os destroços da batalha, quando ouviram o aviso. Era um grupo de guaranis que estavam no interior da mata procurando sobreviventes. Ela correu depressa para o local. Encontrou o avô caído, de barriga para cima. Um ferimento de bala no lado direito do tórax vertia sangue.

Eva se abaixou e, com cuidado, ergueu o velho Moreyra pelos ombros. O pescoço dele não acompanhou o movimento do corpo, pendendo para trás. Ela aconchegou a cabeça do avô em seu peito. Tudo era silêncio na mata. O Palavra Bonita havia se calado para sempre.

Então, alguém se aproximou de Eva, por trás, tocando-lhe o ombro. Era o padre Antônio.

̶  O senhor aqui, padre?  ̶  Eva tinha a voz um pouco embargada.

̶  Claro, minha filha. Fiquei de longe, rezando por você. Como eu já disse, uma vez, você é especial.

Outros guaranis se aproximaram deles e carregaram o corpo do velho Moreyra, o Nhee Porã, para uma canoa. Todos voltariam para a Redução, onde, ao que tudo indica, teria paz por mais algum tempo.

Em meio aos preparativos, Eva notou Odara, à beira do rio, de braços cruzados. A jovem de pele negra tinha um olhar vago, fixo na água corrente, e sorriu, um sorriso afetuoso, quando se voltou para a jovem de pele vermelha que se aproximava dela.

̶  Então, você já sabe o que vai fazer?  ̶  Eva devolvia o sorriso.

̶  Não sei, mas gostaria de voltar para o lugar de onde vim, de onde me arrancaram.

A guarani se aproximou da ex-escreva, tocando-lhe um dos ombros.

­ ̶  Gostaria de ajudar, se eu pudesse  ̶  Odara, apenas sorriu, mais uma vez.

̶  Sabe  ̶   Eva continuou  ̶  preciso acompanhar meu povo ao Yvy Maraêy. A terra sem males.

Odara ficou pensativa por uns instantes, com os olhos imersos na correnteza do rio. Então, perguntou.

̶  E onde fica isso, essa terra sem males?

̶  Não sei, mas meu avô me ensinou que fica em algum lugar à leste. Do outro lado, de lá, da grande água.

Enquanto as duas conversavam, canoas iam cruzando o rio Uruguai, algumas pessoas abanavam para Eva. A jovem guarani havia conquistado uma posição importante entre seu povo.  Odara notava isso, e se voltou para sua nova amiga.

̶  Você disse do outro lado da grande água? Engraçado, é de lá que eu vim.

Capítulo 1

 

 

Por que webcomics?Aonde elas podem chegar?

Por Rafael

Nos últimos anos tem ganhado relevância, no mundo dos quadrinhos, um formato de publicação típico da nossa era tecnológica/informacional, estou falando das chamadas webcomics, webquadrinhos ou ,simplesmente, quadrinhos pela internet. Podemos dizer que são histórias em quadrinhos publicadas nas plataformas de internet, como blogs, websites, facebook, twitter, etc. Atualmente, são incontáveis os títulos e personagens lançados na rede mundial de computadores. Tentando acompanhar essa tendência, lançamos YVY – Mistérios da Terra, em março de 2017.

Certamente, uma inspiração para essa iniciativa foi a explosão do fenômeno O Doutrinador. Esta já clássica história em quadrinhos (HQ) começou a chamar a atenção durante as chamadas Jornadas de Junho, em junho de 2013, fazendo história juntamente com o povo nas ruas. Nesse período, o facebook era inundado por fotos de manifestantes tomando as ruas por todo o Brasil, confrontos com a polícia, repressão, pessoas golpeadas, vidraças quebradas, etc. tudo isso fazia parte do cardápio diário dos usuários dessa rede social. Em meio a esse turbilhão de imagens, ganharam destaque páginas de uma HQ, atualizada semanalmente, que traziam um personagem todo de preto, capuz, camiseta de rock, máscara de gás, armas e acessórios militares. Se a justiça não era possível nas ruas ou no congresso nacional, nas páginas de O Doutrinador, o leitor poderia acompanhar políticos e empresários corruptos encontrando um fim digno para eles. Com a imensa repercussão de seu trabalho, seu autor, Luciano Cunha, começa a busca de viabilizar seu projeto com a venda de camisetas, prints, a versão impressa da HQ e a versão digital. Em 2018 seu personagem ganhará as telas do cinema. Quem sabe, este seja o mais bem sucedido projeto de quadrinhos que começou pela internet, ao menos no Brasil.

Outros exemplos de webcomics brasileiras que parecem ter se viabilizado de maneira satisfatória, porém navegando pelo gênero cartum/tirinhas, são os Quadrinhos Ácidos e o Willtirando , criadas, respectivamente, por Pedro Leite e Will Leite. Através da excelente resposta do público, com milhares de compartilhamentos e inscritos em redes sociais, seus autores puderam investir em várias áreas, desde comercialização de produtos com a estampa dos seus personagens, livros impressos, livros digitais, até arrecadação em plataformas de crowdfunding. Parece haver muitas possibilidades para quem tem um projeto original de quadrinhos.

Ainda temos outros projetos como a personagem Valkíria, de Alex Mir e Alex Genaro, que tem suas histórias publicadas na plataforma petisco, ou o site Outros Quadrinhos, onde por exemplo, temos a HQ Contos do Cão Negro. Ambas ganharam suas versões impressas e conquistaram boa aceitação de público, mas a intenção desse texto não é fazer uma longa lista de títulos e personagens brasileiros, portanto, saiamos do país, por um momento, e vamos conhecer outras webcomics pelo mundo.

A menos que esteja enganado, parece ser no exterior, Estados Unidos e Europa, que temos uma repercussão maior dos projetos de quadrinhos pela internet. Existem centenas de títulos, que podemos encontrar em websites quem fazem um “ranqueamento” das webcomics mais populares, tipo um top 100 ou top 50. Um dos mais populares é o Spying With Lana, dos Estados UnidosEssa HQ tem como personagem central Lana, uma agente secreta sensual que, usando muito pouca roupa, se envolve nas missões mais estapafúrdias possíveis. Mesclando humor e erotismo, essa webcomic angariou milhares de seguidores e parece dar um bom retorno a seu autor, Sean Harrington.

Também dos Estados Unidos, venho a série Mag Na Mell. Com centenas de seguidores, esse projeto se fundamenta non folclore irlandês e apresenta, ao leitor, um mundo habitado por brinquedos que seguem suas vidas a partir de onde parou a fantasia de seus donos. Enviei uma fanart para a autora, Emily Rhain Andrews, que em retribuição me mandou alguns dos produtos com que ela trabalha no seu site, como diversos impressos e objetos dos personagens do universo criado por ela. Confira as imagens abaixo:

mag na mell key ring

mag na mell prints

 

 

 

 

 

mag na mell print

Na Europa, um título muito popular se chama El Vosque . Como sugere o título, a HQ é recheada dos ícones ligados ao imaginário europeu dos bosques, como elfos, druidas, fadas e animais falantes. Com um estilo próximo do Mangá, essa série é publicada na sua homepage em dois idiomas; espanhol e inglês, possui uma loja virtual com livros impressos e camisetas e um link para a plataforma de crowdfunding chamada Patreon, tudo indica que é um projeto rentável.

No universo hispano hablante, existe uma plataforma, meio rede social, chamada Subcultura. Fazendo o registro, você ganha um perfil, onde pode postar suas páginas de HQ, artes avulsas e textos. Também pode se relacionar com os demais autores, curtindo, “faneando”, comentando, compartilhando, etc. É uma rede muito rica para travar relações no campo das webcomics. Foi feito um perfil de YVY nessa plataforma e a ideia é explorar ao máximo seu potencial.

As webcomics chegarão a substituir as HQs impressas? Quem pode saber? Quais serão as formas de leitura do futuro? São coisas difíceis de antecipar, mas algo que acredito ser possível de dizer é que a internet facilitou um pouco o trabalho dos autores e autoras. Divulgando de maneira própria seu trabalho e para um público amplo, podendo travar relação direta com leitores, um caminho promissor se abre para quem quer fazer quadrinhos na internet e não dispõe de muitos recursos financeiros para iniciar uma publicação. Este é um pouco do caminho que pretendemos percorrer com YVY, carregando um pouco da História e cultura local em que seus autores estão imersos, no sul do Brasil, contando histórias interessantes e esperando fazer jus ao apoio do público.