YVY-Mistérios da Terra/Capítulo 15 – final

                                                 

̶  Yvytu! Achamos o velho Nhee Porã!  ̶ As luzes do dia já se faziam presente sobre o rio Uruguai, e Eva e Odara caminhavam juntas entre os destroços da batalha, quando ouviram o aviso. Era um grupo de guaranis que estavam no interior da mata procurando sobreviventes. Ela correu depressa para o local. Encontrou o avô caído, de barriga para cima. Um ferimento de bala no lado direito do tórax vertia sangue.

Eva se abaixou e, com cuidado, ergueu o velho Moreyra pelos ombros. O pescoço dele não acompanhou o movimento do corpo, pendendo para trás. Ela aconchegou a cabeça do avô em seu peito. Tudo era silêncio na mata. O Palavra Bonita havia se calado para sempre.

Então, alguém se aproximou de Eva, por trás, tocando-lhe o ombro. Era o padre Antônio.

̶  O senhor aqui, padre?  ̶  Eva tinha a voz um pouco embargada.

̶  Claro, minha filha. Fiquei de longe, rezando por você. Como eu já disse, uma vez, você é especial.

Outros guaranis se aproximaram deles e carregaram o corpo do velho Moreyra, o Nhee Porã, para uma canoa. Todos voltariam para a Redução, onde, ao que tudo indica, teria paz por mais algum tempo.

Em meio aos preparativos, Eva notou Odara, à beira do rio, de braços cruzados. A jovem de pele negra tinha um olhar vago, fixo na água corrente, e sorriu, um sorriso afetuoso, quando se voltou para a jovem de pele vermelha que se aproximava dela.

̶  Então, você já sabe o que vai fazer?  ̶  Eva devolvia o sorriso.

̶  Não sei, mas gostaria de voltar para o lugar de onde vim, de onde me arrancaram.

A guarani se aproximou da ex-escreva, tocando-lhe um dos ombros.

­ ̶  Gostaria de ajudar, se eu pudesse  ̶  Odara, apenas sorriu, mais uma vez.

̶  Sabe  ̶   Eva continuou  ̶  preciso acompanhar meu povo ao Yvy Maraêy. A terra sem males.

Odara ficou pensativa por uns instantes, com os olhos imersos na correnteza do rio. Então, perguntou.

̶  E onde fica isso, essa terra sem males?

̶  Não sei, mas meu avô me ensinou que fica em algum lugar à leste. Do outro lado, de lá, da grande água.

Enquanto as duas conversavam, canoas iam cruzando o rio Uruguai, algumas pessoas abanavam para Eva. A jovem guarani havia conquistado uma posição importante entre seu povo.  Odara notava isso, e se voltou para sua nova amiga.

̶  Você disse do outro lado da grande água? Engraçado, é de lá que eu vim.

Capítulo 1

 

 

Guerras do Brasil

Por Rafael.

guerras do brasil

Desde o dia 3 de junho, está disponível no catálogo da Netflix, o documentário Guerras do Brasil. Dirigido por Luis Bolognesi, a obra é composta de cinco episódios, apresentando diferentes conflitos, históricos e atuais, que afligiram e afligem o Brasil. Um dos principais méritos do documentário está em problematizar uma daquelas máximas que, vez ou outra, escutamos, a de que o brasileiro é um povo “pacífico”.

O Brasil é uma produção, ou uma invenção, como diz, no primeiro episódio, o historiador Ailton Krenak. Uma invenção construída em cima do sangue de milhões de pessoas, pertencentes às centenas de povos que habitavam essas terras antes da chegada dos europeus. Esse foi o processo de colonização.

a guerra de conquista

Nesse primeiro episódio, intitulado A Guerra de Conquista, vemos, através das falas de historiadores e estudiosos, como Ailton Krenak, Carlos Fausto, Sonia Guajajara, entre outros,  como o processo de colonização, iniciado em 1530 pelos portugueses, levou a uma guerra que dura, de certo modo, até os dias de hoje.

Os primeiros povos a ter contato com os europeus foram os tupiniquins e tupinambás, que viviam nas áreas costeiras ao oceano Atlântico. Para se apossarem do território desses povos, uma das estratégias usadas pelos europeus, foi manipular as rivalidades existentes entre eles, assim, enfraquecidos, foi mais fácil dizimá-los. A consciência de que estavam sendo manipulados chegou tarde para os nativos. Quando estes perceberam que aqueles estranhos visitantes tinham a intenção de se fixarem em suas terras, já não havia mais tempo de organizar uma resposta à altura e a vantagem numérica desses povos acabou não contando muito perante a pólvora e as armas de metal. Além disso, as doenças derrubavam assustadoramente a população nativa.

O documentário é feliz em mostrar como esse conflito está longe de ter um fim. Ainda hoje, a população originária encontra-se marginalizada, à beira das estradas, das calçadas e dos projetos econômicos dos diferentes governos brasileiros, de Lula a Bolsonaro,  os interesses indígenas são sistematicamente soterrados, seja em lavouras de soja ou em grandes hidrelétricas.

Trabalho altamente recomendável para quem acompanha a luta indígena.

Até a próxima.

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