YVY – Mistérios da Terra. Capítulo 1

Aqui começará uma série de postagens, com as origens de Eva, Odara e padre Antônio. Você poderá entender melhor a respeito desses personagens e da webcomic YVY. Embarque conosco nessa história.

Capítulo 1

Quando padre Antônio aceitou a missão de evangelizar os pagãos no interior da América, não tinha ideia do que o aguardava. Para ele, cada dia era uma nova provação naquele mundo esquecido por Deus, onde pobres selvagens viviam abandonados à própria sorte. Sabia que, nos últimos tempos, uma doença desconhecida derrubava os índios que viviam fora da redução, mas não esperava que a situação fosse tão desesperadora.

Os guaranis que viviam nas matas próximas ao rio Uruguai eram resistentes a ideia de viver na redução, sob o controle dos jesuítas. O principal motivo era a liderança de um feiticeiro guarani, inimigo de Antônio, conhecido pelo nome de Moreyra, que fizera de tudo para desacreditar os homens de preto perante os indígenas. Antônio ouviu os rumores de que essa enfermidade, de que ninguém ouvira falar, estava dizimando as aldeias da região. Era um bom momento para um homem de Deus se apresentar e trazer conforto espiritual, além de, por que não, atrair novas almas para o seu rebanho.

Porém, ao chegar a uma dessas aldeias, o padre percebeu que seria muito difícil aumentar seu rebanho com aquelas ovelhas. Era uma aldeia fantasma. O único som era o das moscas, que infestavam o local. Muitos corpos espalhados pelo chão, crianças, adultos e velhos. Estavam como se tivessem se deitado e esperado a morte chegar. Todos tinham o corpo coberto por feridas ensanguentas e purulentas. O inferno deveria ser parecido com aquilo.

O padre desceu do cavalo e foi entrando nos casebres de pau a pique que formavam a aldeia. Em cada um deles, a mesma cena. Pessoas alheias a qualquer ajuda de ordem terrena. Até que, em uma das casinhas, o inusitado. Alguém em pé. Antônio o observou desde a entrada do recinto. A figura estava de costas, os cabelos negros caídos até os ombros. Vestido em um poncho de algodão cru, balançava de um lado para o outro, embalava alguma coisa nos braços. Então, parecendo notar a presença do padre, a figura se virou.

Era Moreyra, seu desafeto. Tinha um olhar derrotado, de súplica, como se estivesse se rendendo. O índio se aproximou, nos braços, tinha uma criança recém nascida. Ele fez um gesto como que oferecendo o bebê para o padre. Ele tomou a criança no colo, foi quando viu que se tratava de uma menina. Também notou que ela, assim como Moreyra, não tinha a pele doente como os demais, pareciam saudáveis.

Assim, o padre Antônio descobriu que, mesmo numa terra sem Deus, milagres acontecem.

Guarani

Por Rafael.

guarani

Recentemente, meu parceiro de projeto YVY, o Ricardo Fonseca, me mandou um link para uma História em Quadrinhos sensacional que vou resenhar minimamente aqui pra vocês.

A chamada Guerra do Paraguai, salvo exceções, é pouco tratada nos quadrinhos nacionais, porém, temos aqui essa bela obra dos argentinos Diego Agrimbau (roteiro) e Gabriel Ippóliti (arte) que trata desse tema de grande importância para a história do Conesul.

A obra se chama Guarani e traz as aventuras do fictício fotógrafo francês Pierre Duprat que acompanha o exército argentino até o coração da República Paraguaia. Duprat é especialista em registrar povos nativos e o seu modo de vida, carrega consigo várias fotos tiradas na África. Ele quer encontrar representantes do povo guarani para aumentar seu acervo fotográfico. Ao chegar ao seu destino, acaba conhecendo profundamente a cultura e o modo de vida guarani.

Porém, durante esse caminho, se depara com o horror que foi a Guerra do Paraguai, conhecida pelos paraguaios como Guerra Grande. Em especial, testemunha a horrenda batalha que ficou conhecida como Batalha de Acosta Ñu, Acontecida no final do conflito, quando o exército paraguaio já não contava com mais soldados para continuar lutando, apelando, dessa forma, para o recrutamento de crianças. Nesse dia, milhares de soldados da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) enfrentaram um contingente paraguaio composto por menores de 15 anos na sua maioria. A pouca idade dos soldados paraguaios não diminuiu a vontade de lutar de seus inimigos, terminando, então, numa carnificina atroz. O exército brasileiro era comandado pelo Conde D’Eu, de nacionalidade francesa, casado com a princesa Isabel.

Duprat bem que tenta registrar aquela vergonhosa “batalha”, porém lhe foi ordenado pelo Conde D’Eu que destruísse esses registros, ficando, assim, esquecido na história brasileira esse absurdo protagonizado pelo nosso exército. A Batalha de Acosta Ñu se deu no dia 16 de agosto de 1869, nessa data é celebrado o Dia da Criança no Paraguai.

Na verdade, não existe uma edição brasileira dessa HQ, tive acesso a uma versão “pirata”, cujo link, para fins não-lucrativos, deixo aqui.

Até a próxima!

 

Nheçu: no corredor central (resenha)

Por Rafael.

nheçu

É bem conhecida, entre os habitantes do Rio Grande do Sul, a história do cacique Sepé Tiarajú, que liderou os guaranis na luta contra os impérios espanhol e português para defender os Sete Povos das Missões.

Uma figura menos popular é a do cacique Nheçu. Esse personagem perdido da história do Rio Grande do Sul foi poucas vezes retrato na bibliografia historiográfica ou literária, e quase sempre figurando como vilão. Uma destas raras obras é o livro Nheçu – no corredor central, do escritor Barbosa Lessa, publicado pela Editora do Brasil, em 1999.

Numa linguagem literária, um pouco voltada para o público juvenil, o livro traz o dia-a-dia dos habitantes de uma aldeia guarani próxima ao rio Uruguai, numa área conhecida como colina do Maçambará. Lá pelas tantas, chega na aldeia a notícia de que os “roupas-preta”, como são chamados os jesuítas, estão nas proximidades da aldeia. A notícia foi recebida com apreensão pelo povo. Temerosos, pois já tinham ouvido falar das histórias de escravidão que vinham logo depois da cristianização.

Nheçu foi um cacique que se opôs à influência cristã sobre os seu povo. Talvez por isso seja menos lembrado que Sepé Tiaraju, que era um guarani cristianizado. Em alguns livros, ele é colocado como responsável pela morte dos famosos “três mártires riograndenses”: os padres Roque Gonzales, Afonso Rodríguez e Juan de Castillo. Fundadores da redução de São Nicolau e outras. Mas, a história de Barbosa Lessa, o coloca como alguém que, ao mesmo tempo em que se opunha aos cristãos, respeitava muito a figura dos jesuítas, principalmente a do padre Roque Gonzales. Não tendo sido ele o fomentador da guerra que se travou entre os guaranis não-cristianizados e os outros, ainda que não tenha feito nada para evitá-la.

Com ilustrações de Fernando Merlo, a obra é uma boa referência inicial a esse personagem, contando também como uma forte pesquisa sobre o modo de vida original dos guaranis. Fica a dica.

Êxodo de Guaíra

Por Rafael.

êxodo

Êxodo é o título do próximo episódio de YVY que, em breve, estará disponível no blog. A história foi inspirada no episódio real da destruição das chamadas reduções do Guaíra, que ficavam onde hoje é território do estado brasileiro do Paraná, próximo à fronteira com a república do Paraguai.

As reduções foram atacadas, saqueadas e devastadas por várias incursões dos bandeirantes paulistas, que realizavam tais ações na busca do apresamento de nativos para o trabalho escravo. O último ataque foi liderado pelo famoso bandeirante Raposo Tavares. Conta-se que as crianças indígenas foram simplesmente mortas, para que não atrasassem o passo da expedição. Os bandeirantes foram recebidos com festa quando chegaram em São Paulo. Clique aqui para saber mais.

O padre Ruiz de Montoya, na ocasião dessa tragédia, conseguiu organizar uma fuga com cerca de 12 mil indígenas pelo rio Paraná. Uma marcha que foi comparada com a fuga dos judeus do Egito, o grande êxodo.

Enquanto o terceiro episódio não fica pronto, conheça os dois primeiros:

 

 

 

A ameaça jesuítica! – O Uraguai, de Basílio da Gama.

jesuítas

Por Rafael.

Antes do advento do romance, a principal forma de narrativa circulante no mundo ocidental era o poema épico. Como exemplo, temos a Ilíada e a Odisseia, Os Lusíadas,  o Caramuru, entre outros. Neste post, e nos próximos, comentarei, brevemente, alguns aspectos de O Uraguai, poema épico lançado no ano de 1769, que narra a chamada guerra guaranítica, conflito que colocou os exércitos de Espanha e Portugal contra as reduções jesuítico-guaranis dos Sete Povos das Missões, instaladas, então, na margem oriental do rio Uruguai. Hoje, território do estado Rio Grande do Sul.

Vivenciamos, na atualidade, uma chamada “guerra de narrativas”. Aquelas discussões sobre “nazismo de esquerda”, sobre nunca ter havido ditadura no Brasil, sobre os portugueses não terem praticado a escravidão, sobre os próprios índios serem os destruidores do meio ambiente, etc. Ou seja, uma maneira de distorcer a História para que ela se esteja de acordo com determinada ideologia, determinada visão de mundo.

O Uraguai, escrito por Basílio da Gama, arrisco dizer, faz um pouco disso. Retratando, em seus versos, os jesuítas como ardilosos manipuladores dos inocentes guaranis. Estes, apenas pobres selvagens. Quanto a Gomes Freire, comandante das forças portuguesas, cabe o papel de valente general. Homem rigoroso, mas também sensível, que não sente  euforia por sua tarefa de exterminar milhares de pessoas. Outro elevado a condição de herói divino é o primeiro-ministro português, o Marquês de Pombal.

No século XVIII, a coroa portuguesa e a Cia. de Jesus não atravessavam um bom momento no seu relacionamento. Portugal vivia certos ares iluministas e o fim da ingerência da Igreja nos assuntos do Estado era conveniente, na época, para o Marquês, que não mantinha hábitos moralmente aceitos. Depois da realização do Tratado de Madrios jesuítas passaram a ser vistos como verdadeiros inimigos da Coroa portuguesa, acusados de estarem tramando um plano secreto para dominar o mundo. Lembrando muito a atualidade, com Olavo de Carvalho denunciando o chamado “Foro de São Paulo”, uma “conspiração comunista-bolivariana-gay-globalista internacional”.

Em um trecho do poema épico, no seu Canto Quinto, depois de invadirem São Miguel das Missões, Gomes Freire e seus homens adentram a catedral e admiram um afresco pintado na abóbada, assim Basílio da Gama relata:

Na vasta curva abóbeda pintara

  A destra mão de artífice famoso    

 Em breve espaço, e Vilas, e Cidades,

 E Províncias e Reinos. No alto sólio

   Estava dando leis ao mundo inteiro                                                                                                  A Companhia. (…)

A “companhia”, no caso, se refere a Cia. de Jesus, claro.

Assim é a História, escrita pelos vencedores.

Até a próxima.

Índios são índios?

Por Rafael

índios

Por que os povos nativos do continente americano, que aí viviam antes da chegada dos europeus, são chamados de índios? Seria esse um termo adequado para designar toda uma população que habitava (ainda habita) uma porção de terras que vai do norte do Canadá até o sul da Patagônia? Seria esse um termo adequado para designar sociedades com modos de vida tão diversos como dos caçadores-coletores das florestas do litoral atlântico ou dos comerciantes das grandes cidades astecas? Talvez devêssemos nos fazer essas perguntas.

O erro inicial

Muitos de nós conhecemos a história da chegada do navegador Cristóvão Colombo às terras que ele acreditava serem as Índias (assim se conhecia toda a região sul da Ásia). Colombo, em nome da coroa espanhola, saiu ao mar em busca de uma nova rota para este importante centro de comércio mundial da época. Baseado nos cálculos  do pensador grego Ptolomeu, ele acreditava que as costas da China estariam muito mais próximas da Europa do que realmente estão. Ptolomeu fizera seus cálculos nos primeiros séculos da era cristã, então, eles não eram muito precisos. De qualquer forma, essa falsa noção de proximidade encorajou a aventura do navegador genovês.

A Europa toda acreditava, assim como Colombo, que as terras nas quais ele havia aportado, no ano de 1492, eram, de fato, as Índias. Seriam, no seu julgamento, um cantão oriental perdido do continente asiático. Habitado por um povo primitivo, chamados, a partir de então, pelos europeus, de índios. Essa versão perdurou até que o florentino Américo Vespúcio, através de suas viagens, descobrisse se tratar, aquela porção de terras, de um novo continente. O qual ganhou um nome inspirado neste explorador europeu.

Nós quem, cara-pálida?

Segundo a obra do professor Mario Maestri, Os Senhores do Litoral, onde é narrada e analisada a aventura europeia na América e o flagelo dos povos americanos, as designações que as populações do litoral brasileiro de então usavam para referirem-se a si mesmas eram extremamente diversas: tupinambás, tupiniquins, caetés, etc. Porém, ainda que os europeus considerassem o ato de nomear e individualizar próprio das sociedades civilizadas, eles não tiveram problemas em reduzir todo um universo complexo de culturas e línguas em uma única palavra, “índios”.

Mais tarde, essa designação foi ganhando contornos de outra ordem. Mais do que definir os habitantes nativos do novo continente descoberto, passou a representar um estereótipo. Era usada ao se referir a pessoas atrasadas, preguiçosas, selvagens, etc. Para os portugueses, se tornaria sinônimo de escravo, assim como a palavra “negro”. Desse modo, haviam os “negros da terra” (americanos) e os “negros da guiné” (africanos), mas alguém também poderia usar os termos “índios da terra” ou “índios da guiné”. Ou seja, pessoas destinadas pela natureza ao trabalho escravo.

capa de Os senhores do litoral

Um erro com mais de 500 anos

Errado ou não, até os dia de hoje, a palavra “índio” é usada. Com significados distintos, é verdade, conforme o grau de simpatia das pessoas para com os sobreviventes dos nativos americanos e sua luta para continuarem existindo. Mesmo estas populações, muitas vezes, acabam usando esse velho termo para falarem de si próprias. Talvez, para se fazerem entender melhor perante a civilização branca.

De qualquer maneira, o leitor de YVY não vai se deparar com Eva ou os seus conterrâneos, usando o termo “índio”. Eles são guarani, ainda que dentro desse termo também haja suas nuances. Assunto para outro post.