Êxodo de Guaíra

Por Rafael.

êxodo

Êxodo é o título do próximo episódio de YVY que, em breve, estará disponível no blog. A história foi inspirada no episódio real da destruição das chamadas reduções do Guaíra, que ficavam onde hoje é território do estado brasileiro do Paraná, próximo à fronteira com a república do Paraguai.

As reduções foram atacadas, saqueadas e devastadas por várias incursões dos bandeirantes paulistas, que realizavam tais ações na busca do apresamento de nativos para o trabalho escravo. O último ataque foi liderado pelo famoso bandeirante Raposo Tavares. Conta-se que as crianças indígenas foram simplesmente mortas, para que não atrasassem o passo da expedição. Os bandeirantes foram recebidos com festa quando chegaram em São Paulo. Clique aqui para saber mais.

O padre Ruiz de Montoya, na ocasião dessa tragédia, conseguiu organizar uma fuga com cerca de 12 mil indígenas pelo rio Paraná. Uma marcha que foi comparada com a fuga dos judeus do Egito, o grande êxodo.

Enquanto o terceiro episódio não fica pronto, conheça os dois primeiros:

 

 

 

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Personagens

No próximo episódio de YVY, teremos a aparição de um novo personagem. Você vai conhecer o Padre Paulo. Um jesuíta do Japão que foi parar em terras sul-americanas. Que perigos aguardam por ele? Fique atento.

Eis o personagem no traço de Ricardo Fonseca.

padre paulo

Conheça os outros personagens: Odara, Padre Juan Diego, Padre Antônio, Eva.

A ameaça jesuítica! – O Uraguai, de Basílio da Gama.

jesuítas

Por Rafael.

Antes do advento do romance, a principal forma de narrativa circulante no mundo ocidental era o poema épico. Como exemplo, temos a Ilíada e a Odisseia, Os Lusíadas,  o Caramuru, entre outros. Neste post, e nos próximos, comentarei, brevemente, alguns aspectos de O Uraguai, poema épico lançado no ano de 1769, que narra a chamada guerra guaranítica, conflito que colocou os exércitos de Espanha e Portugal contra as reduções jesuítico-guaranis dos Sete Povos das Missões, instaladas, então, na margem oriental do rio Uruguai. Hoje, território do estado Rio Grande do Sul.

Vivenciamos, na atualidade, uma chamada “guerra de narrativas”. Aquelas discussões sobre “nazismo de esquerda”, sobre nunca ter havido ditadura no Brasil, sobre os portugueses não terem praticado a escravidão, sobre os próprios índios serem os destruidores do meio ambiente, etc. Ou seja, uma maneira de distorcer a História para que ela se esteja de acordo com determinada ideologia, determinada visão de mundo.

O Uraguai, escrito por Basílio da Gama, arrisco dizer, faz um pouco disso. Retratando, em seus versos, os jesuítas como ardilosos manipuladores dos inocentes guaranis. Estes, apenas pobres selvagens. Quanto a Gomes Freire, comandante das forças portuguesas, cabe o papel de valente general. Homem rigoroso, mas também sensível, que não sente  euforia por sua tarefa de exterminar milhares de pessoas. Outro elevado a condição de herói divino é o primeiro-ministro português, o Marquês de Pombal.

No século XVIII, a coroa portuguesa e a Cia. de Jesus não atravessavam um bom momento no seu relacionamento. Portugal vivia certos ares iluministas e o fim da ingerência da Igreja nos assuntos do Estado era conveniente, na época, para o Marquês, que não mantinha hábitos moralmente aceitos. Depois da realização do Tratado de Madrios jesuítas passaram a ser vistos como verdadeiros inimigos da Coroa portuguesa, acusados de estarem tramando um plano secreto para dominar o mundo. Lembrando muito a atualidade, com Olavo de Carvalho denunciando o chamado “Foro de São Paulo”, uma “conspiração comunista-bolivariana-gay-globalista internacional”.

Em um trecho do poema épico, no seu Canto Quinto, depois de invadirem São Miguel das Missões, Gomes Freire e seus homens adentram a catedral e admiram um afresco pintado na abóbada, assim Basílio da Gama relata:

Na vasta curva abóbeda pintara

  A destra mão de artífice famoso    

 Em breve espaço, e Vilas, e Cidades,

 E Províncias e Reinos. No alto sólio

   Estava dando leis ao mundo inteiro                                                                                                  A Companhia. (…)

A “companhia”, no caso, se refere a Cia. de Jesus, claro.

Assim é a História, escrita pelos vencedores.

Até a próxima.

Índios são índios?

Por Rafael

índios

Por que os povos nativos do continente americano, que aí viviam antes da chegada dos europeus, são chamados de índios? Seria esse um termo adequado para designar toda uma população que habitava (ainda habita) uma porção de terras que vai do norte do Canadá até o sul da Patagônia? Seria esse um termo adequado para designar sociedades com modos de vida tão diversos como dos caçadores-coletores das florestas do litoral atlântico ou dos comerciantes das grandes cidades astecas? Talvez devêssemos nos fazer essas perguntas.

O erro inicial

Muitos de nós conhecemos a história da chegada do navegador Cristóvão Colombo às terras que ele acreditava serem as Índias (assim se conhecia toda a região sul da Ásia). Colombo, em nome da coroa espanhola, saiu ao mar em busca de uma nova rota para este importante centro de comércio mundial da época. Baseado nos cálculos  do pensador grego Ptolomeu, ele acreditava que as costas da China estariam muito mais próximas da Europa do que realmente estão. Ptolomeu fizera seus cálculos nos primeiros séculos da era cristã, então, eles não eram muito precisos. De qualquer forma, essa falsa noção de proximidade encorajou a aventura do navegador genovês.

A Europa toda acreditava, assim como Colombo, que as terras nas quais ele havia aportado, no ano de 1492, eram, de fato, as Índias. Seriam, no seu julgamento, um cantão oriental perdido do continente asiático. Habitado por um povo primitivo, chamados, a partir de então, pelos europeus, de índios. Essa versão perdurou até que o florentino Américo Vespúcio, através de suas viagens, descobrisse se tratar, aquela porção de terras, de um novo continente. O qual ganhou um nome inspirado neste explorador europeu.

Nós quem, cara-pálida?

Segundo a obra do professor Mario Maestri, Os Senhores do Litoral, onde é narrada e analisada a aventura europeia na América e o flagelo dos povos americanos, as designações que as populações do litoral brasileiro de então usavam para referirem-se a si mesmas eram extremamente diversas: tupinambás, tupiniquins, caetés, etc. Porém, ainda que os europeus considerassem o ato de nomear e individualizar próprio das sociedades civilizadas, eles não tiveram problemas em reduzir todo um universo complexo de culturas e línguas em uma única palavra, “índios”.

Mais tarde, essa designação foi ganhando contornos de outra ordem. Mais do que definir os habitantes nativos do novo continente descoberto, passou a representar um estereótipo. Era usada ao se referir a pessoas atrasadas, preguiçosas, selvagens, etc. Para os portugueses, se tornaria sinônimo de escravo, assim como a palavra “negro”. Desse modo, haviam os “negros da terra” (americanos) e os “negros da guiné” (africanos), mas alguém também poderia usar os termos “índios da terra” ou “índios da guiné”. Ou seja, pessoas destinadas pela natureza ao trabalho escravo.

capa de Os senhores do litoral

Um erro com mais de 500 anos

Errado ou não, até os dia de hoje, a palavra “índio” é usada. Com significados distintos, é verdade, conforme o grau de simpatia das pessoas para com os sobreviventes dos nativos americanos e sua luta para continuarem existindo. Mesmo estas populações, muitas vezes, acabam usando esse velho termo para falarem de si próprias. Talvez, para se fazerem entender melhor perante a civilização branca.

De qualquer maneira, o leitor de YVY não vai se deparar com Eva ou os seus conterrâneos, usando o termo “índio”. Eles são guarani, ainda que dentro desse termo também haja suas nuances. Assunto para outro post.