1499 – O Brasil Antes de Cabral

Por Rafael

1499 o brasil antes de cabral

Há tempos queria ler esse livro e, finalmente, consegui. “1499, o Brasil antes de Cabral”, foi escrito pelo jornalista Reinaldo José Lopes, profissional dedicado a área da divulgação científica, que fez um compilado de todas as principais pesquisas e teorias acerca da saga histórica do Homo Sapiens no continente americano e do seu desenvolvimento até a chegada dos europeus por essas terras. O jornalista concentra sua discussão sobre a história dos povos que habitavam o que viria a se tornar o Brasil de hoje. Porém, para isso, relações com o resto do continente, e do mundo, são estabelecidas. Com a leitura, aprendemos que a história no nosso país não começou com a chegada dos portugueses. Antes disso, verdadeiras cidades e civilizações floresceram e ruíram, batalhas aconteceram, trocas comerciais e intercâmbios de ponta a ponta do continente se deram. Estejam prontos para se surpreenderem com esse livro.

A obra é dividida em ordem cronológica da chegada dos primeiros seres humanos às Américas até o desembarque dos europeus.  Sendo assim, começa com o debate a respeito de como teria ocorrido essa ocupação, há mais de dez mil anos. Se pelo estreito de Bering ou pelo oceano Pacífico, como sugerem algumas opiniões. É muito interessante a maneira como o autor aborda essa discussão, apresentando as teorias e, mais do que isso, o raciocínio que os pesquisadores elaboraram para chegar a elas. Nos brindando com pitadas de conhecimento sobre evolução das espécies e tipos de datação. Não que eu tivesse entendido tudo, mas já me despertou a curiosidade para saber mais.

É igualmente interessante a abordagem sobre as sociedades construtoras dos famosos sambaquis. Essas estruturas feitas de conchas marinhas, encontradas no litoral brasileiro, foram erguidas pelos antepassados dos indígenas que fizeram contato com os portugueses. Esses povos antigos também são chamados de paleoíndios ou paleoamericanos pelos pesquisadores.

O desenvolvimento de antigas cidades na Amazônia abre um leque ainda maior para conhecermos nosso passado. O autor cita os trabalhos de alguns pesquisadores que se dedicam a história desses vestígios, que incluem até uma “Stonehenge amazônica”, além de linhas pelo solo, assim como as famosas “linhas de Nazca”. A abordagem da história dos antigos marajoaras e sua sociedade complexa, com cerâmicas e urnas funerárias nos leva a pensar o quão humana e histórica é essa importante região do nosso continente. Por muito tempo tida como “selvagem” ou “vazia” de população e história.

A abordagem sobre o desenvolvimento da agricultura no nosso continente me deixou muito curioso. Reinaldo comenta sobre a cultura do milho, oriunda do território do atual México, que teria se espalhado de norte a sul das Américas. Como teria acontecido isso? Que histórias nossos rios, nossas montanhas, florestas, trilhas e praias nos contariam se pudessem falar?

O último capítulo do livro tratará da chegada dos europeus por aqui. Quais foram os fatores que fizeram com que esses diversos e numerosos povos que habitavam essas terras sucumbissem à invasão estrangeira? O autor levanta algumas possiblidades estudadas pelos cientistas.

1499 é leitura recomendada para quem quer conhecer mais sobre o passado do nosso continente. Nos ajudando a, quem sabe, encontrarmos nossa história própria nesse mundo. Uma história americana, ainda que europeia e africana também, mas com suas características particulares.

YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 11

Mulher negra

A longa coluna formada por carroças, carros de boi, mulas de carga e homens à pé e à cavalo partiu da fazenda de Raposo Velho há um mês. O homem conhecido como Diabo Velho encabeçava a marcha, montado no seu cavalo branco. Haviam chegado ao topo do imenso planalto no interior do continente. A viagem seguia, em meio a uma vasta floresta de pinheiros, em direção ao sul.

Odara estava fascinada com aquelas árvores. Eram muito altas, com os galhos encurvados para cima, bonitas de se ver. O problema era suas folhas secas pelo chão, eram duras e pontiagudas. Para quem, como Odara, andava descalço, era como pisar em pontas de facas.

No começo, quando soube que teria que acompanhar o patrão até o sul da colônia, ficou apreensiva, temendo o que pudesse acontecer no caminho. Mas, ao fim, se sentiu um pouco mais livre do que fechada na casa grande. Ao menos, poderia conhecer paisagens novas.

Ao seu lado, ia sempre Jerônima, sua companheira desde o embarque no navio negreiro. Lhe ajudava com a preparação da comida. Faziam ensopados, feijão com carne seca, pirão de milho, de mandioca. Para preparar as refeições, usavam os animais que o patrão mandou levar na viagem. Mas, às vezes, acontecia de um homem trazer alguma caça, abatida no meio do caminho. Cozinharam bugios, quatis, gambás, jacus, perdizes e muitos outros animais que Odara não conhecia.

Depois de muito tempo viajando, tanto que Odara não podia contar, ou não estava interessada nisso, pararam nas margens de um grande rio. Lhe disseram que o rio se chamava Uruguai. Ali, o Diabo Velho mandou montar acampamento.

̶  Negra, água!  ̶  Odara ouviu, agarrou as bolsas de couro de cabra e foi para o rio, Jerônima a acompanhou.

Chegando lá, as duas se agacharam para encher as bolsas. Quando a sua já estava bem cheia, Odara se levantou, pronta para ir embora. Jerônima permaneceu um pouco mais de tempo agachada.

̶  E então, vamos embora?  ̶  Disse Odara.

Jerônima olhou para a companheira, mas continuou na mesma posição. Então, voltou seu olhar para a outra margem do rio e suspirou.

̶  Você não gostaria de lembrar?

Odara estalou a língua, demonstrando impaciência.

̶   Já lhe disse que não quero lembrar nada! Essa é minha vida agora, eu sou uma escrava!

̶  Mas, e se você nem sempre tivesse sido uma escrava?

Odara não respondeu, abaixou a cabeça pensativa. Depois de um instante, fez um gesto, pedindo que a companheira se apressasse. Jerônima levantou-se com sua bolsa cheia d’água e voltaram para o local onde a coluna montava acampamento.

À noite, Odara se deitou embaixo de uma carroça, sobre uma esteira de palha trançada. Passara o dia fazendo comida e servindo aos homens. As pálpebras, pesadas, fecharam-se com facilidade. Mas não permaneceram assim por muito tempo.

No começo, ela pensou que aqueles sussurros eram parte de um sonho. Porém, as mãos que sacudiram seus ombros a convenceram do contrário. No escuro, ela reconheceu o rosto redondo de Jerônima.

̶  Odara, acorde. Precisamos fugir.

Fugir para onde? Ela quis perguntar. Não conheciam nada, nem ninguém naquele lugar. Quando escutou o som de vozes alteradas pelo álcool, mudou de ideia. Um frio percorreu seu corpo e seu instinto falou mais alto. Decidiu seguir a amiga.

̶  Negrinhaaaa! Cadê você? Tenho algo aqui que você vai gostar!

Era um grupo de homens que fazia parte da coluna liderada pelo Diabo Velho. Conhecidos como bandeirantes. Quando chegaram ao local onde Odara dormia, não a encontraram.

̶  Seus porcos! Eu disse para fazerem silêncio.  ̶  Repreendeu um deles.

Os homens a procuraram em volta, nas outras carroças e barracas. Sem sucesso. Enfim, deduziram que ela pudesse ter aproveitado a escuridão para escapar. Determinados a encontrá-la, buscaram os cães. Os animais esfregaram os focinhos na esteira que servia de cama para Odara. Então, um deles, farejando ao redor, encontrou o rastro da fugitiva. Todos se precipitaram mata adentro, em direção ao rio.

Odara e Jerônima tinham uma boa vantagem em relação aos bandeirantes, mas corriam de forma desajeitada pela floresta. Tropeçavam em raízes, empurravam galhos, pulavam sobre troncos caídos. Só as estrelas e a lua quebravam a escuridão. Odara lembrava da vez em que vira os homens do patrão violentarem uma outra negra da fazenda. Foi quando ela ia lavar roupa no riacho. De repente, enquanto caminhava, ouviu gemidos abafados de desespero e movimento nas folhagens. Ela se esgueirou para descobrir do que se tratava. As lembranças do que ela vira naquele dia, lhe davam mais ânimo para a fuga.

As duas já estavam se aproximando do meio do rio, quando os homens chegaram à margem. Odara acompanhava a amiga com um nado desajeitado, que ela nem ao menos sabia que era capaz de realizar. Ouviu os gritos, os xingamentos e os latidos e, logo depois, as balas que começaram a zunir nos seus ouvidos. Ela engoliu água e cuspia, enchia os pulmões com todo o ar que podia e continuava movimentando pernas e braços, atrapalhada pelos panos que vestia. Aquilo parecia interminável. Enfim, começou a sentir o chão firme sob os pés e se apressou mais ainda.

Quando saíram da água, as duas arfavam. Odara olhava para Jerônima como quem diz, “e agora?”. A amiga não teve tempo de responder coisa alguma. Escutaram mais uma bala assobiar na escuridão e Jerônima caiu. Desesperada, Odara a abraçou e tentou erguê-la, uma das suas mãos sentiu que não era só a umidade da água que molhava as costas da amiga. Arrastaram-se para dentro da mata.

Do outro lado, os bandeirantes tentavam avaliar a situação através da escuridão.

̶  Deixem isso! Não vou entrar nesse rio por causa de uma negra. Vai virar comida de onça, agora.

Após tropeçarem por mais alguns metros, as duas se sentiram seguras o bastante para descansar. Odara escorou a amiga embaixo de uma árvore de raízes grossas e sentou-se ao seu lado. Jerônima tinha o pingente de espada no pescoço. Arrancou ele e o ofereceu para Odara.

̶  Tome, minha querida. Lembre-se, você não é uma escrava.

Odara agarrou o pingente e encostou a cabeça no ombro da amiga. Quando o dia amanheceu, apenas Odara se acordou. Sacudiu Jerônima e percebeu, depois de um tempo, que estaria sozinha dali para frente. Observou em volta, como se guardasse os detalhes daquele lugar. Então, olhou uma última vez para a companheira de tantas jornadas, amarrou o pingente no pescoço e começou a caminhar em direção ao sul.

YVY-Mistéiros da Terra/Capítulo 9

As noites e os dias iam se sucedendo para avô e neta. Com frequência, navegavam pelo Uruguai acima ou abaixo, pescando e conversando. Eva conhecia um novo mundo. Seu ensinamento guarani era todo através das palavras do velho Nhee Porã. Mas também através da prática. Roçando e colhendo milho, conheceu a história de Avati. O jovem guerreiro que ofereceu sua vida para salvar seu povo e, de seus olhos plantados na terra guarani, brotaram as espigas douradas que lhes serviam de alimento. Tomando mate, conheceu a história de Ka’a, a jovem que foi morta pelo seu amado. Sua vida era recheada com as palavras do seu avô.

̶  A palavra é a maior riqueza para nosso povo, minha neta. Somos feitos de palavras. Cada coisa nesse mundo foi criada pela palavra do nosso grande pai, Nhanderu. ̶  Enquanto falava, Nhee Porã entalhava um pequeno pedaço de madeira.

̶  As palavras erradas podem levar para o caminho errado.

O velho guarani terminou de entalhar e deu o artefato para sua neta, recém batizada como Yvytu Eté. Com um sorriso, a garota analisou o objeto. Uma onça de madeira. Então, ela perguntou.

̶  Vovô. O senhor sempre usou as palavras corretas?

Sem responder, o velho abaixou a cabeça, ficou um instante pensativo. Levantou-se, agarrou uma cabaça de água e encheu um recipiente de cerâmica que foi levado ao fogo. Não conversaram mais até a hora de dormir.

Eva vê a Redução, o local em que cresceu. Homens à cavalo adentram por suas ruas. À frente deles, um velho, de barba branca e comprida, dividida no meio, como língua de cobra. Tinha um chapéu de abas largas na cabeça. 

Então, o velho de barba branca grita alguma coisa. Os homens começam a invadir as casas e arrancar as famílias de dentro. Algumas pessoas são mortas sem qualquer cerimônia, com golpes de espada. Os que tentam fugir são alcançados pelos tiros de mosquete ou pistola. A Redução começa a arder.

Eva despertou suando. Uma sensação de medo invadiu seu coração. Sua rede ainda balançava, quando viu seu avô, em pé, ao seu lado. Levou um susto.

̶  Não foi um simples sonho, Yvytu. Há coisas que preciso lhe contar.

YVY-Mistérios da Terra/Capítulo 8

desenho

Dizia-se que, no caudoloso rio Uruguai, não se precisava de nada para pescar, nenhum tipo de instrumento. Os peixes pulavam sozinhos da água para a sua canoa, se estivesse atravessando ele.  Deus teria tornado a vida muito fácil naquela terra. O próprio padre Antônio se queixava disso, às vezes. Pois, para o gosto dele, os índios trabalhavam muito pouco.

Nas matas próximas a esse rio, vivia o avô de Eva, conhecido como Velho Moreyra. Sua casa era feita de pau-a-pique, com telhado de taquaras. Com muita relutância, ele abrigou Eva ali.

̶ Você não devia ter vindo, menina. Mas, agora já está aqui. ̶  Moreyra abaixou a cabeça e catou alguns gravetos amontoados ao seu lado.

̶ Fico feliz com isso.  ̶ O velho quebrou um graveto e largou na fogueira que estava entre os dois. Eva, em silêncio, não desgrudava os olhos de seu avô. Para ela, era o mesmo homem dos seus sonhos, apenas os cabelos estavam mais grisalhos. Ele continuou.

̶  Agora que está aqui, vai aprender o que os juruás[1] não podem te ensinar. ̶  Usando uma vara,  velho guarani tentava catar uma brasa do fogo, uma bem pequena, a agarrou rapidamente com os dedos ossudos e a colocou no cachimbo que estava preparando. Deu algumas baforadas fortes e foi possível ver o brilho da brasa na boca do artefato. Eva continuou observando em silêncio, então, ela arriscou.

̶  É o que mais quero, meu avô.

̶  Primeira coisa que deve saber é que meu nome verdadeiro não é Moreyra. Esse é o nome que os juruás me deram. Eu tenho um nome guarani. Você disse que se chama Eva, não? Pois, você também terá um nome como o meu.

Os olhos da menina brilhavam. Ela sentia que estava conhecendo um mundo novo e isso era excitante. Seu avô continuou

Aqueles que vieram antes de mim, escolheram me chamar de Nhee Porã. Palavra bonita. Quando chegar a hora, seu nome surgirá, é preciso esperar. Deve ser escolhido com cuidado, pois, para nós, guaranis, nosso nome é a palavra que expressa quem somos. Qual será a sua palavra? Precisamos descobrir.

̶  O velho guarani dá mais uma tragada e, soltando a fumaça, aponta o cachimbo para Eva.

̶  Este é o petyngua. Ele é a nossa porta para o mundo dos espíritos. Eles nos mostrarão qual é a sua palavra.

Aos poucos, o recinto foi se enchendo com a fumaça do petyngua. Eva via seu avô com cada vez mais dificuldade, até que já não podia mais definir quem estava além da névoa. Também não era mais possível ver nem o teto, nem as paredes da residência. Então, uma luz chamou a atenção dela. Eram relâmpagos que riscavam por sobre suas cabeças.

De repente, a visão de Eva foi tapada pelos seus cabelos, parecia que tinham ganhado vida. Na verdade, era o vento que havia adentrado o ambiente e se somado aos relâmpagos. Ela lembrou dos sonhos que vinha tendo. Pôde sentir, inclusive, o ar salgado da praia.

Então, a jovem se pôs de pé. Queria saber onde estava. Começou a ouvir passos, não podiam ser do seu avô, soavam mais como o de uma multidão. Foi aí que, de dentro da névoa, ela viu sair uma senhora guarani. Vestida como o povo da Redução, ela carregava um cesto de taquara nas costas, atrás dela, duas crianças. A essas, se seguiam pessoas adultas, homens, mulheres, mais crianças, mais idosos. Todos passavam diante de Eva e adentram a névoa, uma vez mais. Sabe-se lá para onde iam. Não ligavam para a garota, ela era só uma espectadora, como nos sonhos que tivera.

A névoa, aos poucos, se dissipou. Eva viu-se sentada em volta da fogueira, de novo. Diante dela, o avô Nhee Porã esboçava um leve sorriso.

̶  Você tem o espírito inquieto como o vento, minha neta. Você será Yvytu Eté. O vento sagrado.

[1] Termo guarani para homem branco.

YVY – Mistérios da Terra/ Capítulo 7

A procissão de acorrentados seguia silenciosa pela trilha. Vez ou outra, quando o cansaço fazia o ritmo da fila diminuir, se ouvia o som de um chicote ou de um grito, para forçar os infelizes a apertar o passo. Não fosse essa sinistra comitiva, se poderia acreditar que aquele lugar era o paraíso.

A trilha quase se escondia na densa vegetação. Ás vezes,  passava pela beira de um precipício e a paisagem de morros se descortinava, como se fossem dentes verdes da boca de um gigante. Para a garota que ganhou o nome de Odara, a floresta por onde andavam, lembrava um pouco a sua casa  ̶  lá no outro lado do oceano  ̶  exceto pelo sobe e desce das encostas.

As duas mulheres que se conheceram no navio negreiro, iam juntas, uma atrás da outra.

̶  Odara!

̶  Não me chame assim, já disse.

Jerônima, parecendo não se aborrecer com a resposta da companheira de jornada, continuou:

̶  Odara, você gostaria de lembrar como era sua vida antes?

A jovem ficou pensando na pergunta. Talvez, quisesse se lembrar, mas numa situação com aquela, era melhor não lembrar nada, mesmo. Imagine, ficar pensando nas pessoas que você perdeu, nas coisas que fazia… Seria muito mais dolorido.

̶  Olha, Jerônima…

Porém, ela não pôde concluir a frase, um homem à cavalo logo se aproximou.

̶  Cala a boca, negra!

E o chicote fez-se ouvir mais uma vez, próximo aos ouvidos, fazendo as mulheres se encolherem e apertarem o passo.

Um mês de caminhada. Esse foi o tempo que levou para chegarem ao seu destino. Uma grande fazenda, localizada em uma planície, cercada por morros verdejantes. Ao chegar, a coluna começou a se dispersar. Ordens eram dadas, cada qual buscava realizar seus afazeres, descarregar os animais, levá-los para beber água, guardar mantimentos, entre outras coisas. Quanto aos aprisionados, o lugar deles era o porão da grande casa, que era a sede da fazenda.

Um mês de caminhada. Esse foi o tempo que levou para chegarem ao seu destino. Uma extensa fazenda, localizada em uma planície, cercada por morros verdejantes. Ao chegar, a coluna começou a se dispersar. Ordens eram dadas, cada qual buscava realizar suas tarefas. Havia quem descarregava os animais, quem guardava as bagagens, ninguém ficava parado. Quanto aos aprisionados, o lugar deles era o porão da grande casa, que era a sede da fazenda.

Lá dentro, Odara recebeu, de uma senhora negra, um prato de madeira com uma farinha branca, que ela não conhecia. Também recebeu uma laranja. A senhora a ensinou a pôr a farinha na boca com a mão e a espremer a laranja para ajudar a engolir. Essa foi sua primeira refeição naquele lugar.

Não muito longe dali, dois homens levavam seus cavalos ao estábulo. Um deles avistou uma figura na varanda da casa grande, procurando não chamar muito a atenção, ele olhou para o parceiro e fez um movimento de cabeça.

̶  Olha lá. É Dom Raposo Velho, o dono da fazenda.

̶  Por que chamam ele de Diabo Velho?  ̶  O homem olhou para os lados antes de fazer a pergunta.

̶  Não sei, mas dizem que tem parte com o Diabo. É por isso que tem tudo o que tem.

Enquanto esses dois concluíam seus afazeres, Dom Raposo Velho, recebia os recém-chegados na varanda, para saber como foi a viagem e os negócios. Era um homem de barba cinzenta e bifurcada, como língua de lagarto. Alto e corpulento. Seu chapéu de abas largas escondia a cabeça calva.

O sol nem havia aparecido por detrás dos morros verdes e Odara e Jerônima já estavam trabalhando. As duas foram designadas para as tarefas domésticas e tudo deveria estar pronto antes do amo se levantar.

Odara viu os raios solares entraram pelas frestas da cozinha. Escutou canto de pássaros e pensou que aquela deveria ser uma linda amanhã. Puxou o trinco e empurrou uma das folhas da janela. Ao olhar para fora, um homem recém começava a ser chicoteado no pelourinho. As costas negras mal tinham sido marcadas. Ela voltou para dentro e fechou tudo, como estava antes.

Depois de servirem a mesa e do amo se alimentar, as duas começaram a organizar tudo. Esse era o dia-a-dia das mulheres que vieram do outro lado do oceano. Odara estava se conformando com aquilo, não que estivesse feliz. Mas, como não conhecera outra vida, ou, ao menos, não lembrava, seguia adiante.

Apenas não entendia a situação de sua colega, Jerônima, que não demonstrava a mesma tristeza que os demais escravos da fazenda. Isso a intrigava. Uma tarde, quando Jerônima, de joelhos, esfregava o chão da sala, percebeu que ela sorria.

̶  Como você pode sorrir? Eu não entendo.

A mulher, largou o pano ensaboado, colocou as mãos na cintura e olhou para Odara, sem desfazer o sorriso.

̶ Minha Querida, eu não me preocupo com esses homens. Eles não podem fazer nada contra mim, contra o que eu sou.

Odara parecia que estava mais confusa ainda. Bateu com as mãos nas coxas e abriu os braços. jerônima riu e tirou alguma coisa debaixo do pano que trazia enrolado na cabeça.

̶ Eles nunca poderão quebrar meu espírito, porque eu sei de onde vim.

Então, ela abriu a mão e mostrou para Odara o que havia escondido. Era um pingente. Tinha o formato de uma espada curva, com protetor no cabo.

As duas escravas faziam o seu trabalho e não chamavam a atenção do seu amo, Dom Raposo. Conhecido como Diabo Velho. Numa manhã, ele se aproximou delas.

̶  Estou indo para a Vila.  ̶  O tom de voz seco e o olhar frio paralisou as duas.

̶  Sim, meu senhor.  ̶  Elas responderam, de cabeça baixa.

Até a Vila, se levava uma manhã de cavalgada. O homem foi acompanhado de dois empregados, dois mamelucos descalços. Aquele era um lugar pouco povoado, se via casas de taipa espalhadas e roças de mandioca aqui e ali, a chegada do trio chamou a atenção de todos, mas ninguém ousava levantar a cabeça para encará-los. Apearam defronte a Igreja, construída no ponto mais alto da localidade. Era uma construção simples, apesar do seu tamanho avantajado. Possuía uma torre, que ficava ao lado esquerdo de quem entra na Igreja.

O Diabo Velho se encaminhou para o interior do prédio, enquanto os outros dois ficaram esperando. Lá dentro, sem tirar o chapéu, foi direto para o confessionário. Uma espécie de câmara de madeira, adornada com motivos cristãos, com uma única abertura feita de frestas verticais, de modo dificultar a visão para o seu interior. Também havia um suporte  para os prováveis pecadores se ajoelharem e falarem com o padre, lá dentro.

O recém chegado colocou seus joelhos no local determinado, tirou o chapéu, olhou para os lados e aproximou o rosto da abertura de frestas.

̶  Senhor, mandou me chamar?  ̶  A resposta demora uns instantes, então, se ouve uma voz rouca do interior do confessionário.

̶   O pacto foi quebrado.

YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 6

Atravessar a mata à cavalo não foi assim tão difícil, havia já uma trilha formada há muito tempo, pelo seu próprio povo, durante suas andanças por aquelas terras. Eva desceu do cavalo e ia puxando ele pelas rédeas. Não estava tão habituada àquele ambiente, de árvores altas e vegetação tão densa que a luz do sol mau chegava ao chão. Crescera na redução, correndo pelas campinas ao redor, pouco se aventurava nas florestas mais próximas. Tentava se acostumar com a ideia de que ali seria sua nova casa. Não parecia tão ruim.

Ela chegou a uma das margens do rio Uruguai, quando o sol já começava a se esconder. Não muito longe de onde ela estava, porém mais ao norte, se encontrava o salto do Yucumã, uma queda d’água não muito alta, mas de largura impressionante. Eva tinha a informação de que próximo dali, viveria o seu avô, aquele que todos conheciam como o velho Moreyra. Era o lugar ideal para ele, protegido pela queda d’água, que dificultava a penetração das embarcações dos brancos naquele território.

Em volta da fogueira que acendeu, Eva esticou uma esteira e se deitou. Os dois dias de cavalgada cobravam o seu preço. Antes de adormecer, pensou na viagem que havia feito. Como fará para encontrar seu avô? Não havia pensado nessa possibilidade quando partiu da redução e se convenceu de que não deveria pensar nela agora. Para lá, o lugar onde lhe roubaram o amor da sua vida, não voltará mais. Até que, enfim, a órfã se entrega ao sono.

Aquela mesma praia, porém agora, além da chuva, temos o vento. Lá está Eva, em pé, observando a mulher negra que emerge das ondas, em direção à areia. Enquanto caminha, sorri. Um sorriso brilhante. Brilhava mais que a lua cheia.

Ela se aproxima de Eva, os olhos das duas não se desviam. A mulher estende a mão, Eva a agarra. Logo as duas se abraçam. É um abraço forte, como se fossem duas almas gêmeas separadas por muitos anos. A sensação de frio, por causa do vento e da chuva, já não existe mais.

Eva abriu os olhos, mas ainda não podia enxergar nada. A luz da manhã a ofuscava um pouco. Sentiu o sereno sobre a pele de vaca que usava como cobertor, olhou para a fogueira, agora eram só cinzas fumegantes. Então, se sentou, abraçou os joelhos e respirou fundo. Pensava no que fazer naquele dia que se iniciava, quando percebeu que não estava sozinha.  

No começo se assustou. Jogou longe o couro de vaca e levou a mão à adaga que estava ao seu lado. Aos poucos, foi se dando conta de que a figura que estava sentada no chão, a observando, não demonstrava ser ameaça. Era um velho guarani, de cabelos cinzentos, vestido em um poncho surrado, um cajado descansava em seu colo. Ela o olhou fixamente.

̶   Vovô?

O velho ergueu o queixo e respirou fundo. Para Eva, pareceram momentos intermináveis. Então, com uma expressão perplexa no rosto, ele perguntou.

̶   O que faz aqui, minha filha?

YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 5

Tinha algo estranho com aquela manhã, Eva pressentia. A refeição matinal não havia lhe caído bem, Barnabé andava calado e havia muito pouca gente andando pela redução. Os dois se encaminhavam aos estábulos, como sempre. Desde que se conheceram e ficaram juntos, essa tem sido sua rotina. Selar os cavalos, tocar o gado no pasto, levá-los a beber água, cuidar das vacas, dos terneiros, comer juntos, passear pela campina, ir à missa, enfim. Eva não sentia felicidade maior. Mas, naquele dia, algo a preocupava.

Ao fim da rua de chão batido da redução, dava para se avistar a silhueta de homens montados. Quando se aproximaram, eram em número de quatro. Padre Antônio estava entre eles. A idade já fazia seus estragos no velho sacerdote. Ele já não tinha mais o mesmo cabelo castanho de quando Eva, criança, o conheceu. Os outros eram dois guaranis, fardados com o uniforme do exército espanhol, e um branco, poderia ser um emissário da Coroa.

Padre Antônio deu bom dia e pediu para que Barnabé os acompanhasse. Eva ficou apreensiva, mas a tranquilizaram e pediram que continuasse com os afazeres, logo seu marido se juntaria a ela.

Na manhã seguinte, lá estava Eva, chorando na praça central da redução. Se abraçava na perna de Barnabé que, montado em seu cavalo, tentava acalmar a companheira.

̶   Eu voltarei, meu amor. Não se preocupe.

̶   Por que você? Por quê? Isso não é justo!  ̶  Ela não soltava a perna.

̶   É meu dever. Nosso dever. Quando tudo isso acabe, voltarei.

Um pouco afastado da cena, padre Antônio observava. Seu rosto era de tristeza.

Depois de mais de um beijo e de mais promessas de regresso, Barnabé tocou seu cavalo e acompanhou os demais. Eva assistiu até que o último cavalo dobrasse a esquina da redução em direção à estrada.

Então, ela se voltou para o padre Antônio, com um olhar acusador que o assustou, ele nunca tinha visto Eva assim.

Passaram-se alguns meses, até que chegaram notícias do fronte de batalha. O exército espanhol, no qual estava Barnabé, havia cercado os portugueses em Colônia do Sacramento, mas tiveram que recuar. Estaria Barnabé voltando para casa?

No dia em que os guerreiros guaranis voltariam, todos se puseram na expectativa e muitos já esperavam desde cedo na entrada da redução. Quando o sol começava a se encaminhar para sua descida no céu, era possível avistar pontinhos levantando poeira, no horizonte. Eram eles. O coração de Eva disparou, estava para escapar-lhe do peito.

A expectativa se transformou em decepção quando descobriu que Barnabé não estava entre eles. Pior, estava desaparecido, não sabiam o que havia lhe acontecido, mas o mais certo era que estivesse morto, atolado na lama do fundo do Rio da Prata.

A decepção se transformou em fúria ao avistar o padre Antônio, recém chegado para recepcionar os guerreiros. Ela o interpela logo que se aproxima.

̶   É para isso que nos cria, padre Antônio? Para morrermos pelo seu Rei?

̶   Eva, estamos nas terras do Rei da Espanha. Não há nada que possamos fazer.

O corpo da garota todo tremia, lágrimas começavam a brotar.

̶   Terras do Rei da Espanha? Essa terra é nossa! Era dos meus pais, dos pais dos meus pais!

̶   Mas, Eva…

̶   Chega! Não obedecerei mais a rei nenhum!

Padre Antônio começava a perder a paciência.

̶   Eva, desobedecer o Rei é como desobedecer Deus! Não aprendeu nada do que lhe ensinei?

A garota dá as costas e, com passos firmes, vai até o seu cavalo que pastava ali perto. Montada, ela se aproxima mais uma vez do padre.

̶   Não obedecerei mais seu Rei, nem seu Deus! Que não é o meu Deus, nem dos meus pais, nem do meu avô. Vou agora mesmo pra floresta e vou viver lá, com ele!

A menção ao antigo Moreyra fez o sangue do sacerdote subir.

̶   Você sabe quem é seu avô, Eva? Não te contaram?  ̶  O padre olha ao redor e abre os braços, como se estivesse cobrando explicações das pessoas.

̶   Pois ele é um mentiroso! Sempre foi!

̶   Sim, ele mentia. Mas mentia para ajudar nosso povo! Quando ele distorcia as palavras da sua língua para a nossa, era a verdade que ele falava!  ̶  Eva, agitada, fazia o cavalo dar voltas em torno dele mesmo  ̶  Vocês vieram para tomar nossas terras e nossas vidas! Adeus!

̶   Eva cutucou o cavalo e saiu em disparada, em direção a sua casa, precisava  se preparar para a jornada que a aguardava.

O padre Antônio ficou ali parado. A briga dos dois havia atrapalhado um pouco a recepção dos guerreiros. As pessoas olhavam para ele, alguns se aproximaram para consolá-lo. Logo depois, cada família abraçou seu ente querido e foi para sua casa. O sacerdote ficou um pouco mais, pensativo. Voltou para seus aposentos, num passo muito lento.

Será que ele pensava que esse momento nunca chegaria? Será que Eva voltará? Quem será mais forte, o ensinamento cristão que ele deu, ou as palavras mentirosas de um bruxo? O padre ainda não sabe, mas não será esse o problema que afetará a redução no futuro.

YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 4

Já fazia três dias que os homens caminhavam naquela floresta. Sabiam de uma aldeia próxima a uma das margens do rio Níger, mas acabaram chegando tarde demais. De algum jeito, os moradores de lá ficaram sabendo da chegada deles. O grupo voltava de mãos abanando para a costa.

O sentimento de fracasso, o calor, os mosquitos, tudo colaborava para tornar aquele regresso mais difícil. Não fosse uma surpresa no meio do caminho. Próximo a uma árvore de largas raízes, jazia uma garota, inconsciente. Com o que ela sonhava? Quem poderia saber? O certo é que o pior dos pesadelos seria preferível ao que a aguardava quando  fosse desperta pelos escravagistas. Para eles, aquela jovem negra era um verdadeiro presente.

Ela ainda não sabia nem onde estava quando seus pulsos foram amarrados.

̶   Caminha, negra!

Ela não entendia as palavras do homem branco de cara barbuda, mas não precisava entender nada. Um puxão na corda e ela já se pôs a caminhar. Atravessaram florestas e rios, subiram e desceram colinas, até que, ao anoitecer, montaram acampamento. A garota sempre com as mãos atadas. Talvez fosse inútil falar com aqueles homens, mas ela nem tentou.

Ao amanhecer recomeçaram a marcha. Quando o sol atingiu seu ponto mais alto no céu, era possível sentir a maresia no ar, se aproximavam da praia. De longe, ela viu muita gente, uma construção de madeira que se projetava mar adentro e embarcações de muitos tipos flutuando.

Quando lá chegaram, havia muitas pessoas negras como ela. Alguns acorrentados, outros amarrados, crianças chorando, lamentos, gritos de ordem, sons de chicote. Nem em pesadelos ela tinha visto algo como aquilo.

Então, a puxaram pela corda, a subiram na plataforma de madeira e a levaram para um daqueles navios. Antes de embarcarem, um homem de vestido preto, com uma cruz pendurada no pescoço, lhe respingou um pouco de água de uma garrafa e lhe disse palavras que ela, mais uma vez, não entendeu.

Ao entrar no porão do navio, quase desmaiou. O calor, o cheiro de suor, vômito, urina e fezes fizeram seu estômago embrulhar, ela levou a mão à boca. Enxotou uns ratos e se sentou em um dos poucos cantos vazios.

̶   Você é muito bonita.

A garota se virou rapidamente para o seu lado direito, de onde partira aquela voz desconhecida. Quem proferiu a frase fora uma outra garota negra, que tinha os cabelos enrolados em pequenas tranças e um inacreditável sorriso nos lábios.

A recém chegada não disse nada, nem agradeceu o elogio, nem sorriu. Balançou a cabeça, fez uma careta e virou o rosto para frente. A outra insistiu com o contato.

̶   Eu me chamo Jerônima.

Mais uma vez, a tentativa de aproximação acabou fracassando.

̶   E você? Tem um nome?

Dessa vez, a garota se virou para sua interlocutora, demonstrando pouca paciência.

̶   Nome? Isso importa nesse lugar?

A garota de tranças sorriu, conseguira, enfim, uma resposta.

̶   Minha irmã, nada mais importa.

Depois de alguns instantes observando o vazio, a recém chegada ao porão, respondeu.

̶   Não sei, não lembro de nada. Não sei nem quem eu sou, nem de onde vim.

Então, a porta do porão se fechou, um movimento de pessoas começou no convés do navio. A hora da partida estava chegando.

As duas jovens que acabaram de se conhecer continuavam lado a lado. A de tranças sorriu e apontou o dedo indicador para a outra.

̶   Vou chamá-la de Odara.

YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 3

Ela firmou o cabo da lança, feito de taquara, na axila. Divisou o saco de serragem que balançava no galho de uma ampla figueira. Se preparou para a investida.

̶   Concentração, Eva. Mantenha o equilíbrio.

Ao lado dela, estava Barnabé, seu futuro marido. Outro jovem guarani que vivia na redução e que já contava seus 20 anos de idade. Ela, 18. Ele a observava, como se a avaliasse. Corrigia sua postura e dava orientações. Apesar do rapaz parecer rude, quem prestasse atenção em seus olhos, veria que havia orgulho neles.

Eva tocou a barriga do cavalo com os calcanhares e disparou em direção ao alvo, Barnabé a seguia, não muito de perto.

̶   Firme, Eva! Firme!

A lança atingiu em cheio o saco de serragem e se prendeu nele. Eva terminou a investida de mãos vazias.

̶   Muito bem. Foi um bom ataque   ̶   Elogiou Barnabé, se aproximando com seu cavalo.

Eva sorriu, então, ele continuou.

̶   Mas você perdeu a lança. O que faria se isso acontecesse em uma batalha?

A garota foi virando o rosto, bem devagar.

̶   Bom… eu faria…

De repente, num gesto rápido, ela tirou o poncho que usava e o atirou sobre Barnabé.

̶   Isto!

O jovem guarani se enredou como se estivesse em uma teia. Eva aproveitou o momento e disparou a galope. Barnabé levou alguns instantes para se desvencilhar e logo saiu em disparada atrás dela.

̶   Então, é assim?  ̶  Ele tinha um sorriso no rosto, adorava esses joguinhos que ela fazia.

Naquela imensidão verde, apenas os quero-queros eram os espectadores daquela carreira. No fim, foi uma corrida sem vencedor, nem vencido. Os dois terminaram em um pequeno rio, bem raso. Barnabé saltou de seu cavalo, quando se aproximou de Eva, a abraçando por trás. Os dois caíram de suas montarias, sobre a água.

Naquela imensidão verde, apenas os quero-queros e os dois cavalos eram os espectadores do amor entre Eva e Barnabé. Enfim, a garota órfã já não se inquietava tanto sobre seu passado, também ouvia cada vez menos aquele velho chamado que a impelia para fora da redução. Ela apenas vivia sua vida, era até feliz.

O sol começou a se querer se esconder, o casal voltou para casa.

Aquela mesma praia, a mesma escuridão, o mesmo vento. O mesmo cenário. O som das ondas quebrando. Mas Eva não está lá. Ela apenas observa. Algo começa a emergir das ondas. De longe, é apenas uma mancha escura. Mas, quando se aproxima, se vê uma silhueta feminina. A lua joga sua luz sobre a figura. Sim, é uma mulher.

Ela sai da água e se para sobre a areia. Eva nunca viu uma mulher como aquela. Sua pele escura reluz ao luar. Sua boca se abre num sorriso. O brilho dos dentes é arrebatador.

Eva se acordou de um pulo. Estava na sua cama de couro de boi sobre o chão. Ao seu lado, Barnabé continuava dormindo.  

Flavio Colin: O Brasil em quadrinhos

Por Rafael.

Quantas histórias, lendas, “causos”, dramas e comédias vividos e narrados pelo nosso povo! Quantas histórias em quadrinhos podem ser desenhadas e escritas revelando nossas características, nossa maneira de ser e viver! A nossa história está repleta de figuras e episódios fabulosos(…) Até hoje se fazem filmes e histórias em quadrinhos sobre o faroeste, a corte do Rei Arthur, os Cavaleiros da Távola Redonda… Eu poderia citar dezenas de episódios, destacar dezenas de figuras que seriam perfeitamente quadrinizáveis.

O trecho acima foi tirado das memórias do quadrinista brasileiro Flavio Colin, no álbum Caraíba, lançado pela editora Desiderata, em 2007. Nele, notamos a sua preocupação em apresentar aspectos da história e cultura nacional em seus trabalhos. Essa foi uma constante na carreira desse autor, nascido no Rio de Janeiro, mas que se criou e trabalhou em cidades da região sul do Brasil.

Flavio Colin veio ao mundo no ano de 1930, concluiu seus estudos primários na cidade de Porto União, em Santa Catarina. Já nessa época se destacava como artista na sala de aula. Conseguiu seus primeiros trabalhos nos quadrinhos na antiga Rio Gráfica e Editora, no ano de 1956. Se destacou desenhando As Aventuras do Anjo (quadrinização de uma novela radiofônica de sucesso nos anos 60) e O Vigilante Rodoviário, baseado na primeira série de TV brasileira, também nos anos 60. Para conhecer mais sobre esse autor, você pode ler uma entrevista que ele concedeu ao site Universo HQ.

A primeira lembrança que tenho do trabalho de Colin foi muito marcante para mim. Muitos que, como eu, foram criança nos anos 80, devem lembrar de uma História em Quadrinhos (HQ) que era distribuída pelos postos Ipiranga do Rio Grande do sul. A HQ se chamava A Guerra dos Farrapos e trazia a dita “epopeia farroupilha”, com seus heróis, grandes batalhas, reviravoltas e tudo mais. Os desenhos tinham um traço marcante, como poucos artistas conseguem. Naquela época, vivia no interior do Rio Grande do Sul e essa cultura “gaúcha”, de cavalos, peleias, chimarrão, etc, povoavam o imaginário de todos. Me imaginava cavalgando, de lança em punho contra o exército imperial. Mais tarde, já adolescente, encontrei novamente com aquele mesmo traço vigoroso, preciso, em uma HQ de terror. Sabia que já tinha visto o trabalho daquele desenhista antes.

O desenho de Flavio Colin é assim, marcante. Procurando na internet, você vai achar muitas pessoas falando sobre o trabalho desse premiado quadrinista. Infelizmente, ainda que tenha muito reconhecimento por parte de seu público e colegas de profissão, o mesmo não se deu em relação ao mercado editorial brasileiro, até o dia do seu falecimento, no ano de 2001. E essa era uma reclamação dele. O pouco valor que se dá às “coisas do Brasil”, nossa cultura, história, nossos personagens, nossas paisagens, mitos, entre outras coisas. Colin sonhava com um público brasileiro que pudesse se ver em uma HQ e se identificar. Podemos pensar que, assim, construiríamos um povo, uma identidade nacional, que talvez ainda não esteja tão consolidada. Mas, isso é uma outra discussão.

Tenho alguns trabalhos de Colin na minha coleção:

  • O Caraíba, 2007. Com história e desenhos do próprio,
  • Estórias Gerais, 2012. Com histórias de Wellington Srbek e desenhos de Flavio Colin,
  • Fawcet, 2000. História de André Diniz e desenhos de Flavio Colin,
  • Histórias avulsas publicadas no fanzine AHQB, publicação dedicada aos quadrinhos da antiga editora Grafipar, dos anos 70 e 80.

Em YVY, concordamos com Flavio Colin, e queremos trazer aspectos pouco explorados da nossa história e cultura, nacional e latino-americana, para nossa série. Conheça o trabalho desse mestre dos quadrinhos nacionais. Você não vai se arrepender.

Flavio Colin

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