YVY-Mistérios da Terra/Capítulo 15 – final

                                                 

̶  Yvytu! Achamos o velho Nhee Porã!  ̶ As luzes do dia já se faziam presente sobre o rio Uruguai, e Eva e Odara caminhavam juntas entre os destroços da batalha, quando ouviram o aviso. Era um grupo de guaranis que estavam no interior da mata procurando sobreviventes. Ela correu depressa para o local. Encontrou o avô caído, de barriga para cima. Um ferimento de bala no lado direito do tórax vertia sangue.

Eva se abaixou e, com cuidado, ergueu o velho Moreyra pelos ombros. O pescoço dele não acompanhou o movimento do corpo, pendendo para trás. Ela aconchegou a cabeça do avô em seu peito. Tudo era silêncio na mata. O Palavra Bonita havia se calado para sempre.

Então, alguém se aproximou de Eva, por trás, tocando-lhe o ombro. Era o padre Antônio.

̶  O senhor aqui, padre?  ̶  Eva tinha a voz um pouco embargada.

̶  Claro, minha filha. Fiquei de longe, rezando por você. Como eu já disse, uma vez, você é especial.

Outros guaranis se aproximaram deles e carregaram o corpo do velho Moreyra, o Nhee Porã, para uma canoa. Todos voltariam para a Redução, onde, ao que tudo indica, teria paz por mais algum tempo.

Em meio aos preparativos, Eva notou Odara, à beira do rio, de braços cruzados. A jovem de pele negra tinha um olhar vago, fixo na água corrente, e sorriu, um sorriso afetuoso, quando se voltou para a jovem de pele vermelha que se aproximava dela.

̶  Então, você já sabe o que vai fazer?  ̶  Eva devolvia o sorriso.

̶  Não sei, mas gostaria de voltar para o lugar de onde vim, de onde me arrancaram.

A guarani se aproximou da ex-escreva, tocando-lhe um dos ombros.

­ ̶  Gostaria de ajudar, se eu pudesse  ̶  Odara, apenas sorriu, mais uma vez.

̶  Sabe  ̶   Eva continuou  ̶  preciso acompanhar meu povo ao Yvy Maraêy. A terra sem males.

Odara ficou pensativa por uns instantes, com os olhos imersos na correnteza do rio. Então, perguntou.

̶  E onde fica isso, essa terra sem males?

̶  Não sei, mas meu avô me ensinou que fica em algum lugar à leste. Do outro lado, de lá, da grande água.

Enquanto as duas conversavam, canoas iam cruzando o rio Uruguai, algumas pessoas abanavam para Eva. A jovem guarani havia conquistado uma posição importante entre seu povo.  Odara notava isso, e se voltou para sua nova amiga.

̶  Você disse do outro lado da grande água? Engraçado, é de lá que eu vim.

 

 

YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 14

Eva não conseguiu decifrar o sentimento no semblante de padre Antônio, quando ela disse que não acompanharia a retirada da Redução e tentaria atrasar o passo dos brasileiros. Ele estaria desapontado com ela por não os acompanhar? Ou a sua expressão representaria incredulidade quanto ao sucesso da empreitada de Eva? De qualquer forma, antes de escurecer, a guarani, o velho Moreyra e Odara partiram, todos a cavalo, para o acampamento dos bandeirantes.

Quando os três se aproximaram do acampamento, apenas a lua e as tochas que carregavam iluminavam a floresta. Odara pôde reconhecer a árvore de largas raízes em que deixara Jerônima. Porém, o corpo da amiga não estava mais lá.

 

̶  Você tem certeza de que a colocou aqui?  ̶  Perguntou a guarani.

̶  Sim, ela já estava sem vida… como isso é possível?

Avô e neta se entreolharam, tinham dúvidas quanto às palavras de Odara. Então, decidiram que aquela não era hora para se preocuparem com aquilo. Agradeceram a ajuda da jovem negra e pediram que ela ficasse onde estava. Agora os dois se aproximariam do acampamento e o plano de Eva e Moreyra seria posto em ação.

Odara concordou e sentou-se para descansar, depois ela iria até os cavalos, que ficaram atados na entrada da floresta. Ela começou a observar com curiosidade o que faziam os outros dois. No escuro, dava para notar que Moreyra usava alguma coisa para traçar riscos no rosto da neta. Quando terminou, Eva tinha, em cada bochecha, um desenho composto por três linhas retas. Uma linha ficava no meio, enquanto as outras duas partiam de uma das extremidades desta, formando alguma coisa parecida com a pata de uma ave.

̶  Com esta pintura, Yvytu, nenhuma arma dos brancos poderá ferir você, ela lhe trará proteção.

Então, o velho guarani deu uma baforada no seu petyngua, o cachimbo mágico, e soprou um pouco de fumaça na neta. Eva, muito séria, encaixou a aljava de flechas e o arco nos ombros e agarrou, com expressão confiante, a sua lança de taquara. Moreyra vasculhou a bolsa que trazia consigo, tirou de lá um pedaço de madeira entalhado em forma de jaguaretê[1]. Segurou o artefato com firmeza e olhou para Eva.

̶  Chegou a nossa hora, minha neta.

Os dois se abraçaram e mergulharam na escuridão da floresta. Odara ela ficou ali.

Eva e Moreyra atravessaram o rio Uruguai sem problemas, o barulho da correnteza soava mais alto naquela hora da noite. O som ajudou a abafar a aproximação dos dois ao acampamento dos brasileiros.

No acampamento, um grupo de bandeirantes se reunia em volta da fogueira, conversavam e passam, de mão em mão, uma garrafa de aguardente. O Diabo Velho estava entre eles.

̶  Então, senhor, quando partiremos?

O Diabo agarrou a garrafa, tomou um gole, passou a manga da camisa na boca e respondeu.

̶  Assim que amanhecer. Já descansamos bastante.

Não muito longe dali, dois bandeirantes montavam guarda.

̶  E então, Henrique, será que enriquecemos dessa vez?  ̶  Perguntou um deles.

 

̶   Depois de um trago da inseparável garrafa de aguardente, ele respondeu:

̶  Assim espero, meu amigo. Parece que esses selvagens que vivem em reduções valem mais. Ouvi que têm uns três mil nessa para onde vamos  ̶  Tomou mais um trago e entregou a garrafa para o colega.

̶  Toma aí, vou mijar  ̶  o outro recebeu a garrafa e deu um sorriso.

̶  Cuidado, nesse mato aí tem onça  ̶  E emborcou a garrafa garganta a baixo.

O homem escutava os passos do colega dentro da mata. De repente, o som da calça sendo desabotoada e do esguicho de urina. Até ali, tudo normal.

Então, de repente, lhe chamou a atenção um som que ele não esperava. Como de uma voz sendo abafada.

̶  Henrique?  ̶  Ele sussurrou, sem obter resposta. Então, faltando-lhe coragem para adentar a mata, ele correu até a fogueira onde estavam os demais bandeirantes. Estes, em princípio, não deram muito crédito à história do colega, e o Diabo Velho permitiu que apenas um deles o acompanhasse.

̶  É aqui, atrás dessa árvore. Vamos!  ̶  Os dois ingressaram na mata e encontraram o corpo do desaparecido. Antes que um deles tivesse tempo para correr e avisar os outros, uma flecha lhe alcançou, como um raio. Aquele ali, nunca mais falaria nada. O sobrevivente, com os olhos arregalados, voltou à toda velocidade para a fogueira.

Desta vez, levaram a história à sério.

̶  Acordem tudo mundo, podemos estar sob ataque  ̶  O Diabo Velho desembainhou sua espada e adentrou a mata com os homens que estavam com ele na fogueira, eram em número de seis.

Do outro lado do rio, uma Odara assustada, sabe-se lá por que ainda estava ali, escutava a movimentação no acampamento. Ela pôde escutar a voz do seu antigo patrão ecoando na noite, ainda que não pudesse discernir que palavras ele gritava.

̶  Eu sei que vocês estão aí! Mostrem-se seus animais! – O líder dos bandeirantes encabeçava a coluna no interior da floresta.

A resposta veio em forma de flecha, farfalhando as folhas das árvores e indo terminar no pescoço do Diabo Velho.

̶  Acertaram o patrão! Acertaram nosso senhor! Acudam!

Um tumulto começou entre os bandeirantes, alguns, paralisados, olhavam para todos os lados, outros tentavam acudir seu patrão, que tinha dificuldades para respirar e agonizava com a seta atravessada na garganta. Dois deles, assustados, tentavam voltar para o acampamento. Estes não conseguiram sair da mata fechada. Uma sombra viva salta de entre as folhagens e cai por cima deles. Era uma enorme onça-pintada. Antes que o animal tocasse no chão, já tinha atingido a cabeça do primeiro bandeirante com uma patada, aquele não voltaria para junto dos seus. Quanto ao segundo, não teve tempo de usar seu mosquete. A mandíbula da onça se fechou sobre a sua garganta e, em instantes, ele não se movia mais. A criatura, então, retornou para a escuridão de onde havia saído.

Tomados pelo pavor, os homens iniciaram um tiroteio, às cegas. Como resposta, mais uma flecha iniciou seu caminho pela noite e encontrou o final do seu trajeto na cabeça de outro bandeirante.

Odara escutou os disparos, agora o acampamento estava muito mais agitado, tomado por um vozerio nervoso. O coração da ex-escrava parecia saltar de seu peito. Ela, então, agarrou firme o pingente de espada, presente de Jerônima, em volta do seu pescoço.

Os três homens restantes do primeiro grupo, descarregaram suas armas atirando à esmo e são atingidos por mais flechas. Só sobrou o Diabo Velho, sozinho na mata, agonizante. Mas, logo, teria companhia. A onça saiu da mata, mais uma vez, e se preparava para dar o bote final sobre o velho bandeirante, quando o estampido de um mosquete interrompeu seu avanço.  O animal voltou para o interior da floresta e uma pequena mancha de sangue, imperceptível no escuro, passou a ocupar o lugar onde ele estava. A chegada dos reforços animou o Diabo Velho que, apesar da flecha no pescoço, levantou-se e grunhiu ordens para caçar os índios escondidos no mato.

Do outro lado do rio, Odara continuava agarrada no seu pingente. Por que ela não ia embora? Essa pergunta ecoava dentro da sua cabeça. Mas não era só isso. Ela também escutava a voz de Jerônima. “Você não é uma escrava”. “Você não é uma escrava”. A mulher negra, vinda do outro lado do oceano, sentia, aos poucos, uma chama acender dentro de si.

Eva não sabia onde estava seu avô. Agora, era só ela. Bem posicionada atrás de uma árvore, ainda pode flechar mais dois homens, as tochas os tornavam alvos mais fáceis. Mas ela teve que deixar sua posição e correr em direção ao rio, as balas zuniam em seus ouvidos. Um dos seus perseguidores se aproximou o bastante da sua lança, a ponto de ser atingido. Já com os pés na água, Eva, então, se preparou para desferir mais uma flechada, talvez a última, antes de ser morta. Quando a primeira tocha saiu de trás das folhagens, ela liberou a sua flecha.

Em princípio, não entendeu do que se tratava, se era alguma magia surpresa do seu avô, mas não foi apenas a sua flecha que atingiu os bandeirantes, foram várias. Então, ela descobriu o que havia acontecido. Os gritos chamaram a sua atenção e ela olhou para trás. Do outro lado do rio estava o povo da Redução. Aqueles poucos velhos e mulheres que não eram considerados aptos para guerreiros e estavam prontos para fugir. Não fugiram, estavam ali. Empunhavam seus arcos e bradavam seus gritos de guerra. Eva ganhara um novo ânimo.

Alguns deles, começavam a atravessar o rio com suas canoas, quando os mosquetes dos bandeirantes voltaram a ressoar, fazendo-os cair de suas embarcações.

“Você não é uma escrava”. “Você não é uma escrava”. A chegada do povo da Redução foi como um combustível para a chama que ardia dentro de Odara.

̶  Eu sei quem eu sou! Eu sei quem eu sou!

Os gritos da mulher chamaram a atenção dos guaranis mais próximos. Ao mesmo tempo, uma lufada de vento os empurrou, derrubando-os.

Eva preparava a última flecha da sua aljava quando um raio desceu do céu e explodiu parte da vegetação à sua frente, onde estavam os bandeirantes. Ela caiu sentada, o barulho a havia atordoado. Enquanto se recobrava, viu o Diabo Velho, que segurava seu pescoço banhado em sangue. E viu que ele apontava e gritava de forma ameaçadora para o alto. Foi quando uma tempestade teve início.

̶  Eu sou Iansã! A rainha do vento e da tempestade!  ̶  Os gritos de Odara se misturavam aos trovões e aos raios.

O céu noturno começava a receber colorações alaranjadas quando a tempestade parecia se acalmar. Os guaranis já haviam, quase todos, atravessado o rio. Os bandeirantes, com a pólvora molhada, preferiam, em sua maioria fugir. Alguns ficaram para proteger seu chefe, que gritava e balançava sua espada, ameaçando seus inimigos.

Bandeirantes e guaranis entraram em luta corporal. Os habitantes da Redução compensaram sua pretensa fraqueza com uma vontade muito maior que a dos seus oponentes. Em pouco tempo, só o Diabo Velho estava em pé.

̶  Índia maldita! Você vai morrer!  ̶  Só o ódio o animava. Tossindo e engasgando, suas ofensas se dirigiam a Eva, que o observava, acompanhada do seu povo. Ela, então, empunhou sua lança e se preparou para atravessá-lo, quando, de repente, mais uma flecha foi se alojar próximo à outra que o senhor de escravos trazia na garganta.

Todos se voltaram para trás e viram a jovem negra segurando um arco, ofegante. Ela também atravessara o rio.

[1] Onça-pintada, em guarani.

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YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 13

YVY

YVY

Eva observava aquela jovem que dormia no chão, sobre um couro de boi, no interior do cotiguaçu. Sua pele negra e seus cabelos enrolados eram familiares. A garota havia sido colocada ali há algumas horas e já começava a se mexer, parecia prestes a despertar.

Em pé, ao lado dela, estavam Eva, o velho Moreyra e o padre Antônio. Eva se agachou, segurava um copo de água em uma mão, com a outra, segurou a nunca da jovem.

̶  Tudo bem?  ̶   Eva falou em espanhol, ao mesmo tempo que gesticulava oferecendo a água.

A garota negra deixou que Eva colocasse o copo em sua boca e sorveu o líquido do seu interior. Depois de satisfeita, fez um gesto agradecido com a cabeça e se apoiou em um cotovelo. De repente, ela se pôs inquieta. Olhava ao redor e tateava pelo corpo.

̶  É isso que procura?  ̶  Eva tinha na mão o pingente em forma de espada. A garota fez um gesto afirmativo com a cabeça e esticou o braço para pegar o objeto. Eva fechou a mão e perguntou em português.

̶  Como você se chama?

Odara, então, revelou seu nome, ou, ao menos, como ela era chamada. Contou como fugiu do acampamento do Diabo Velho e sobre sua jornada pela floresta, a noite inteira, até ali.

Depois do relato, os três ouvintes se entreolharam. Eva devolveu o pingente à jovem e voltou-se para o padre.

̶  Então, acredita em nós, agora? Ela confirma minha visão. Esses brasileiros estão aqui para nos atacar.

Padre Antônio balançou a cabeça, como se concordasse com a antiga pupila. Então, deparou-se com o olhar fixo do velho Moreyra. A ideia de que toda a história que o feiticeiro lhe contara pudesse fazer sentido lhe causava repulsa. Então, na tentativa de expulsar esses pensamentos, se dirigiu até a porta e saiu.

̶  O que acha que ele vai fazer, minha neta?  ̶  Quis saber o velho Moreyra.

̶  Acho que vai reunir o cabildo[1]. Agora, só nos resta esperar.

Eva e Moreyra sentaram-se do lado de fora do cotiguaçu, estava um dia quente. Dentro da construção, Odara voltava a dormir.

̶  Essa garota de pele negra estava nas minhas visões, meu avô. O que isso significa?  ̶  Moreyra ouviu a neta e ficou pensativo. Então colocou sua mão sobre a dela, apoiada no banco em que sentavam.

̶  Você vai conduzir nosso povo ao Yvy Maraêy, minha neta. Deve refletir sobre os sinais que aparecem para você.

Os dois não falaram mais, até que, depois de algum tempo, um garoto se aproximou de avô e neta, com um recado. Os caciques reunidos no cabildo gostariam de ver os dois parentes que trouxeram tão importante notícia.

Assim, Eva e Moreyra entraram no salão, onde, sentados em círculo, os membros do cabildo se reuniam. Ao avistarem os dois, eles se levantaram, eram em número de oito. Um guarani, que aparentava ser muito mais velho que todos, inclusive que Moreyra, tomou a palavra.

̶  Irmãos, aproximem-se, queremos ouvir vocês.

Padre Antônio, que não havia se levantado junto com os demais, o fez, então, para dar espaço aos recém-chegados.

̶  É bom ver você, Nhee Porã e saber que está vivo. Você ainda era um jovem quando estive na sua aldeia, antes daquela praga, há muito tempo. Meu coração ficou pesado quando você não quis vir morar aqui conosco.  ̶ Os outros participantes da reunião balançavam as cabeças, concordando com as palavras ditas. O velho, então, voltou-se para Eva.

̶ E você, pequena. A sua partida também nos trouxe tristeza. Você era a última do povo de Nhee Porã. Como um ramo que nasce depois de uma floresta queimada  ̶  Avô e neta receberam as palavras do ancião em silêncio, e ele continuou  ̶  Vivemos com os homens de vestido preto há muito tempo. Mas nunca esquecemos das visões que os sonhos nos trazem. Queremos dizer que acreditamos em você, Eva  ̶  Neta e avô se entreolham satisfeitos  ̶  Mas estamos sem nossos melhores guerreiros, como vamos lutar?

O padre Antônio, imóvel, apenas observava. Sentada ao lado dele, Eva começou a falar.

̶  Meus parentes, agora tenho meu nome guarani, Yvytu Eté. E minha principal preocupação é com a vida do meu povo. Quem traz os brasileiros para nos escravizar é o Anhá! Não espero que vocês lutem agora, meu avô e eu estamos pedindo para vocês irem para longe daqui.

A decisão foi tomada, depois de uma discussão onde cada cacique se posicionou. Padre Antônio não demonstrava concordância, mas aceitou, diante da sua posição de inferioridade. Organizariam carroças, carros-de-boi, mulas, o que quer que fosse, e partiriam em direção ao leste. Eva e o velho Moreyra tinham outro plano para si próprios.

O sol recém ultrapassava seu ponto mais alto no céu, quando os dois foram despertar a jovem chamada Odara. Deram-lhe mais água e esperaram que se recompusesse.

̶  Precisamos da sua ajuda. Queremos que nos leve até onde estão os brasileiros  ̶  Falou Eva. Ao ver que a garota, pensativa, demorava a responder, argumentou:

̶  É hora de retribuir essas pessoas que lhe deram um abrigo quando você precisou.

̶  Sim, eu concordo  ̶  respondeu Odara  ̶  Deixei uma amiga na floresta, quero ver se, ao menos, lhe dou um enterro decente.

[1] Cabildo – Instância política-administrativa da redução, espécie de prefeitura colegiada, que reunia caciques e jesuítas.

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1499 – O Brasil Antes de Cabral

Por Rafael

1499 o brasil antes de cabral

Há tempos queria ler esse livro e, finalmente, consegui. “1499, o Brasil antes de Cabral”, foi escrito pelo jornalista Reinaldo José Lopes, profissional dedicado a área da divulgação científica, que fez um compilado de todas as principais pesquisas e teorias acerca da saga histórica do Homo Sapiens no continente americano e do seu desenvolvimento até a chegada dos europeus por essas terras. O jornalista concentra sua discussão sobre a história dos povos que habitavam o que viria a se tornar o Brasil de hoje. Porém, para isso, relações com o resto do continente, e do mundo, são estabelecidas. Com a leitura, aprendemos que a história no nosso país não começou com a chegada dos portugueses. Antes disso, verdadeiras cidades e civilizações floresceram e ruíram, batalhas aconteceram, trocas comerciais e intercâmbios de ponta a ponta do continente se deram. Estejam prontos para se surpreenderem com esse livro.

A obra é dividida em ordem cronológica da chegada dos primeiros seres humanos às Américas até o desembarque dos europeus.  Sendo assim, começa com o debate a respeito de como teria ocorrido essa ocupação, há mais de dez mil anos. Se pelo estreito de Bering ou pelo oceano Pacífico, como sugerem algumas opiniões. É muito interessante a maneira como o autor aborda essa discussão, apresentando as teorias e, mais do que isso, o raciocínio que os pesquisadores elaboraram para chegar a elas. Nos brindando com pitadas de conhecimento sobre evolução das espécies e tipos de datação. Não que eu tivesse entendido tudo, mas já me despertou a curiosidade para saber mais.

É igualmente interessante a abordagem sobre as sociedades construtoras dos famosos sambaquis. Essas estruturas feitas de conchas marinhas, encontradas no litoral brasileiro, foram erguidas pelos antepassados dos indígenas que fizeram contato com os portugueses. Esses povos antigos também são chamados de paleoíndios ou paleoamericanos pelos pesquisadores.

O desenvolvimento de antigas cidades na Amazônia abre um leque ainda maior para conhecermos nosso passado. O autor cita os trabalhos de alguns pesquisadores que se dedicam a história desses vestígios, que incluem até uma “Stonehenge amazônica”, além de linhas pelo solo, assim como as famosas “linhas de Nazca”. A abordagem da história dos antigos marajoaras e sua sociedade complexa, com cerâmicas e urnas funerárias nos leva a pensar o quão humana e histórica é essa importante região do nosso continente. Por muito tempo tida como “selvagem” ou “vazia” de população e história.

A abordagem sobre o desenvolvimento da agricultura no nosso continente me deixou muito curioso. Reinaldo comenta sobre a cultura do milho, oriunda do território do atual México, que teria se espalhado de norte a sul das Américas. Como teria acontecido isso? Que histórias nossos rios, nossas montanhas, florestas, trilhas e praias nos contariam se pudessem falar?

O último capítulo do livro tratará da chegada dos europeus por aqui. Quais foram os fatores que fizeram com que esses diversos e numerosos povos que habitavam essas terras sucumbissem à invasão estrangeira? O autor levanta algumas possiblidades estudadas pelos cientistas.

1499 é leitura recomendada para quem quer conhecer mais sobre o passado do nosso continente. Nos ajudando a, quem sabe, encontrarmos nossa história própria nesse mundo. Uma história americana, ainda que europeia e africana também, mas com suas características particulares.

YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 11

Mulher negra

A longa coluna formada por carroças, carros de boi, mulas de carga e homens à pé e à cavalo partiu da fazenda de Raposo Velho há um mês. O homem conhecido como Diabo Velho encabeçava a marcha, montado no seu cavalo branco. Haviam chegado ao topo do imenso planalto no interior do continente. A viagem seguia, em meio a uma vasta floresta de pinheiros, em direção ao sul.

Odara estava fascinada com aquelas árvores. Eram muito altas, com os galhos encurvados para cima, bonitas de se ver. O problema era suas folhas secas pelo chão, eram duras e pontiagudas. Para quem, como Odara, andava descalço, era como pisar em pontas de facas.

No começo, quando soube que teria que acompanhar o patrão até o sul da colônia, ficou apreensiva, temendo o que pudesse acontecer no caminho. Mas, ao fim, se sentiu um pouco mais livre do que fechada na casa grande. Ao menos, poderia conhecer paisagens novas.

Ao seu lado, ia sempre Jerônima, sua companheira desde o embarque no navio negreiro. Lhe ajudava com a preparação da comida. Faziam ensopados, feijão com carne seca, pirão de milho, de mandioca. Para preparar as refeições, usavam os animais que o patrão mandou levar na viagem. Mas, às vezes, acontecia de um homem trazer alguma caça, abatida no meio do caminho. Cozinharam bugios, quatis, gambás, jacus, perdizes e muitos outros animais que Odara não conhecia.

Depois de muito tempo viajando, tanto que Odara não podia contar, ou não estava interessada nisso, pararam nas margens de um grande rio. Lhe disseram que o rio se chamava Uruguai. Ali, o Diabo Velho mandou montar acampamento.

̶  Negra, água!  ̶  Odara ouviu, agarrou as bolsas de couro de cabra e foi para o rio, Jerônima a acompanhou.

Chegando lá, as duas se agacharam para encher as bolsas. Quando a sua já estava bem cheia, Odara se levantou, pronta para ir embora. Jerônima permaneceu um pouco mais de tempo agachada.

̶  E então, vamos embora?  ̶  Disse Odara.

Jerônima olhou para a companheira, mas continuou na mesma posição. Então, voltou seu olhar para a outra margem do rio e suspirou.

̶  Você não gostaria de lembrar?

Odara estalou a língua, demonstrando impaciência.

̶   Já lhe disse que não quero lembrar nada! Essa é minha vida agora, eu sou uma escrava!

̶  Mas, e se você nem sempre tivesse sido uma escrava?

Odara não respondeu, abaixou a cabeça pensativa. Depois de um instante, fez um gesto, pedindo que a companheira se apressasse. Jerônima levantou-se com sua bolsa cheia d’água e voltaram para o local onde a coluna montava acampamento.

À noite, Odara se deitou embaixo de uma carroça, sobre uma esteira de palha trançada. Passara o dia fazendo comida e servindo aos homens. As pálpebras, pesadas, fecharam-se com facilidade. Mas não permaneceram assim por muito tempo.

No começo, ela pensou que aqueles sussurros eram parte de um sonho. Porém, as mãos que sacudiram seus ombros a convenceram do contrário. No escuro, ela reconheceu o rosto redondo de Jerônima.

̶  Odara, acorde. Precisamos fugir.

Fugir para onde? Ela quis perguntar. Não conheciam nada, nem ninguém naquele lugar. Quando escutou o som de vozes alteradas pelo álcool, mudou de ideia. Um frio percorreu seu corpo e seu instinto falou mais alto. Decidiu seguir a amiga.

̶  Negrinhaaaa! Cadê você? Tenho algo aqui que você vai gostar!

Era um grupo de homens que fazia parte da coluna liderada pelo Diabo Velho. Conhecidos como bandeirantes. Quando chegaram ao local onde Odara dormia, não a encontraram.

̶  Seus porcos! Eu disse para fazerem silêncio.  ̶  Repreendeu um deles.

Os homens a procuraram em volta, nas outras carroças e barracas. Sem sucesso. Enfim, deduziram que ela pudesse ter aproveitado a escuridão para escapar. Determinados a encontrá-la, buscaram os cães. Os animais esfregaram os focinhos na esteira que servia de cama para Odara. Então, um deles, farejando ao redor, encontrou o rastro da fugitiva. Todos se precipitaram mata adentro, em direção ao rio.

Odara e Jerônima tinham uma boa vantagem em relação aos bandeirantes, mas corriam de forma desajeitada pela floresta. Tropeçavam em raízes, empurravam galhos, pulavam sobre troncos caídos. Só as estrelas e a lua quebravam a escuridão. Odara lembrava da vez em que vira os homens do patrão violentarem uma outra negra da fazenda. Foi quando ela ia lavar roupa no riacho. De repente, enquanto caminhava, ouviu gemidos abafados de desespero e movimento nas folhagens. Ela se esgueirou para descobrir do que se tratava. As lembranças do que ela vira naquele dia, lhe davam mais ânimo para a fuga.

As duas já estavam se aproximando do meio do rio, quando os homens chegaram à margem. Odara acompanhava a amiga com um nado desajeitado, que ela nem ao menos sabia que era capaz de realizar. Ouviu os gritos, os xingamentos e os latidos e, logo depois, as balas que começaram a zunir nos seus ouvidos. Ela engoliu água e cuspia, enchia os pulmões com todo o ar que podia e continuava movimentando pernas e braços, atrapalhada pelos panos que vestia. Aquilo parecia interminável. Enfim, começou a sentir o chão firme sob os pés e se apressou mais ainda.

Quando saíram da água, as duas arfavam. Odara olhava para Jerônima como quem diz, “e agora?”. A amiga não teve tempo de responder coisa alguma. Escutaram mais uma bala assobiar na escuridão e Jerônima caiu. Desesperada, Odara a abraçou e tentou erguê-la, uma das suas mãos sentiu que não era só a umidade da água que molhava as costas da amiga. Arrastaram-se para dentro da mata.

Do outro lado, os bandeirantes tentavam avaliar a situação através da escuridão.

̶  Deixem isso! Não vou entrar nesse rio por causa de uma negra. Vai virar comida de onça, agora.

Após tropeçarem por mais alguns metros, as duas se sentiram seguras o bastante para descansar. Odara escorou a amiga embaixo de uma árvore de raízes grossas e sentou-se ao seu lado. Jerônima tinha o pingente de espada no pescoço. Arrancou ele e o ofereceu para Odara.

̶  Tome, minha querida. Lembre-se, você não é uma escrava.

Odara agarrou o pingente e encostou a cabeça no ombro da amiga. Quando o dia amanheceu, apenas Odara se acordou. Sacudiu Jerônima e percebeu, depois de um tempo, que estaria sozinha dali para frente. Observou em volta, como se guardasse os detalhes daquele lugar. Então, olhou uma última vez para a companheira de tantas jornadas, amarrou o pingente no pescoço e começou a caminhar em direção ao sul.

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YVY-Mistéiros da Terra/Capítulo 9

As noites e os dias iam se sucedendo para avô e neta. Com frequência, navegavam pelo Uruguai acima ou abaixo, pescando e conversando. Eva conhecia um novo mundo. Seu ensinamento guarani era todo através das palavras do velho Nhee Porã. Mas também através da prática. Roçando e colhendo milho, conheceu a história de Avati. O jovem guerreiro que ofereceu sua vida para salvar seu povo e, de seus olhos plantados na terra guarani, brotaram as espigas douradas que lhes serviam de alimento. Tomando mate, conheceu a história de Ka’a, a jovem que foi morta pelo seu amado. Sua vida era recheada com as palavras do seu avô.

̶  A palavra é a maior riqueza para nosso povo, minha neta. Somos feitos de palavras. Cada coisa nesse mundo foi criada pela palavra do nosso grande pai, Nhanderu. ̶  Enquanto falava, Nhee Porã entalhava um pequeno pedaço de madeira.

̶  As palavras erradas podem levar para o caminho errado.

O velho guarani terminou de entalhar e deu o artefato para sua neta, recém batizada como Yvytu Eté. Com um sorriso, a garota analisou o objeto. Uma onça de madeira. Então, ela perguntou.

̶  Vovô. O senhor sempre usou as palavras corretas?

Sem responder, o velho abaixou a cabeça, ficou um instante pensativo. Levantou-se, agarrou uma cabaça de água e encheu um recipiente de cerâmica que foi levado ao fogo. Não conversaram mais até a hora de dormir.

Eva vê a Redução, o local em que cresceu. Homens à cavalo adentram por suas ruas. À frente deles, um velho, de barba branca e comprida, dividida no meio, como língua de cobra. Tinha um chapéu de abas largas na cabeça. 

Então, o velho de barba branca grita alguma coisa. Os homens começam a invadir as casas e arrancar as famílias de dentro. Algumas pessoas são mortas sem qualquer cerimônia, com golpes de espada. Os que tentam fugir são alcançados pelos tiros de mosquete ou pistola. A Redução começa a arder.

Eva despertou suando. Uma sensação de medo invadiu seu coração. Sua rede ainda balançava, quando viu seu avô, em pé, ao seu lado. Levou um susto.

̶  Não foi um simples sonho, Yvytu. Há coisas que preciso lhe contar.

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YVY-Mistérios da Terra/Capítulo 8

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Dizia-se que, no caudoloso rio Uruguai, não se precisava de nada para pescar, nenhum tipo de instrumento. Os peixes pulavam sozinhos da água para a sua canoa, se estivesse atravessando ele.  Deus teria tornado a vida muito fácil naquela terra. O próprio padre Antônio se queixava disso, às vezes. Pois, para o gosto dele, os índios trabalhavam muito pouco.

Nas matas próximas a esse rio, vivia o avô de Eva, conhecido como Velho Moreyra. Sua casa era feita de pau-a-pique, com telhado de taquaras. Com muita relutância, ele abrigou Eva ali.

̶ Você não devia ter vindo, menina. Mas, agora já está aqui. ̶  Moreyra abaixou a cabeça e catou alguns gravetos amontoados ao seu lado.

̶ Fico feliz com isso.  ̶ O velho quebrou um graveto e largou na fogueira que estava entre os dois. Eva, em silêncio, não desgrudava os olhos de seu avô. Para ela, era o mesmo homem dos seus sonhos, apenas os cabelos estavam mais grisalhos. Ele continuou.

̶  Agora que está aqui, vai aprender o que os juruás[1] não podem te ensinar. ̶  Usando uma vara,  velho guarani tentava catar uma brasa do fogo, uma bem pequena, a agarrou rapidamente com os dedos ossudos e a colocou no cachimbo que estava preparando. Deu algumas baforadas fortes e foi possível ver o brilho da brasa na boca do artefato. Eva continuou observando em silêncio, então, ela arriscou.

̶  É o que mais quero, meu avô.

̶  Primeira coisa que deve saber é que meu nome verdadeiro não é Moreyra. Esse é o nome que os juruás me deram. Eu tenho um nome guarani. Você disse que se chama Eva, não? Pois, você também terá um nome como o meu.

Os olhos da menina brilhavam. Ela sentia que estava conhecendo um mundo novo e isso era excitante. Seu avô continuou

Aqueles que vieram antes de mim, escolheram me chamar de Nhee Porã. Palavra bonita. Quando chegar a hora, seu nome surgirá, é preciso esperar. Deve ser escolhido com cuidado, pois, para nós, guaranis, nosso nome é a palavra que expressa quem somos. Qual será a sua palavra? Precisamos descobrir.

̶  O velho guarani dá mais uma tragada e, soltando a fumaça, aponta o cachimbo para Eva.

̶  Este é o petyngua. Ele é a nossa porta para o mundo dos espíritos. Eles nos mostrarão qual é a sua palavra.

Aos poucos, o recinto foi se enchendo com a fumaça do petyngua. Eva via seu avô com cada vez mais dificuldade, até que já não podia mais definir quem estava além da névoa. Também não era mais possível ver nem o teto, nem as paredes da residência. Então, uma luz chamou a atenção dela. Eram relâmpagos que riscavam por sobre suas cabeças.

De repente, a visão de Eva foi tapada pelos seus cabelos, parecia que tinham ganhado vida. Na verdade, era o vento que havia adentrado o ambiente e se somado aos relâmpagos. Ela lembrou dos sonhos que vinha tendo. Pôde sentir, inclusive, o ar salgado da praia.

Então, a jovem se pôs de pé. Queria saber onde estava. Começou a ouvir passos, não podiam ser do seu avô, soavam mais como o de uma multidão. Foi aí que, de dentro da névoa, ela viu sair uma senhora guarani. Vestida como o povo da Redução, ela carregava um cesto de taquara nas costas, atrás dela, duas crianças. A essas, se seguiam pessoas adultas, homens, mulheres, mais crianças, mais idosos. Todos passavam diante de Eva e adentram a névoa, uma vez mais. Sabe-se lá para onde iam. Não ligavam para a garota, ela era só uma espectadora, como nos sonhos que tivera.

A névoa, aos poucos, se dissipou. Eva viu-se sentada em volta da fogueira, de novo. Diante dela, o avô Nhee Porã esboçava um leve sorriso.

̶  Você tem o espírito inquieto como o vento, minha neta. Você será Yvytu Eté. O vento sagrado.

[1] Termo guarani para homem branco.

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YVY – Mistérios da Terra/ Capítulo 7

A procissão de acorrentados seguia silenciosa pela trilha. Vez ou outra, quando o cansaço fazia o ritmo da fila diminuir, se ouvia o som de um chicote ou de um grito, para forçar os infelizes a apertar o passo. Não fosse essa sinistra comitiva, se poderia acreditar que aquele lugar era o paraíso.

A trilha quase se escondia na densa vegetação. Ás vezes,  passava pela beira de um precipício e a paisagem de morros se descortinava, como se fossem dentes verdes da boca de um gigante. Para a garota que ganhou o nome de Odara, a floresta por onde andavam, lembrava um pouco a sua casa  ̶  lá no outro lado do oceano  ̶  exceto pelo sobe e desce das encostas.

As duas mulheres que se conheceram no navio negreiro, iam juntas, uma atrás da outra.

̶  Odara!

̶  Não me chame assim, já disse.

Jerônima, parecendo não se aborrecer com a resposta da companheira de jornada, continuou:

̶  Odara, você gostaria de lembrar como era sua vida antes?

A jovem ficou pensando na pergunta. Talvez, quisesse se lembrar, mas numa situação com aquela, era melhor não lembrar nada, mesmo. Imagine, ficar pensando nas pessoas que você perdeu, nas coisas que fazia… Seria muito mais dolorido.

̶  Olha, Jerônima…

Porém, ela não pôde concluir a frase, um homem à cavalo logo se aproximou.

̶  Cala a boca, negra!

E o chicote fez-se ouvir mais uma vez, próximo aos ouvidos, fazendo as mulheres se encolherem e apertarem o passo.

Um mês de caminhada. Esse foi o tempo que levou para chegarem ao seu destino. Uma grande fazenda, localizada em uma planície, cercada por morros verdejantes. Ao chegar, a coluna começou a se dispersar. Ordens eram dadas, cada qual buscava realizar seus afazeres, descarregar os animais, levá-los para beber água, guardar mantimentos, entre outras coisas. Quanto aos aprisionados, o lugar deles era o porão da grande casa, que era a sede da fazenda.

Um mês de caminhada. Esse foi o tempo que levou para chegarem ao seu destino. Uma extensa fazenda, localizada em uma planície, cercada por morros verdejantes. Ao chegar, a coluna começou a se dispersar. Ordens eram dadas, cada qual buscava realizar suas tarefas. Havia quem descarregava os animais, quem guardava as bagagens, ninguém ficava parado. Quanto aos aprisionados, o lugar deles era o porão da grande casa, que era a sede da fazenda.

Lá dentro, Odara recebeu, de uma senhora negra, um prato de madeira com uma farinha branca, que ela não conhecia. Também recebeu uma laranja. A senhora a ensinou a pôr a farinha na boca com a mão e a espremer a laranja para ajudar a engolir. Essa foi sua primeira refeição naquele lugar.

Não muito longe dali, dois homens levavam seus cavalos ao estábulo. Um deles avistou uma figura na varanda da casa grande, procurando não chamar muito a atenção, ele olhou para o parceiro e fez um movimento de cabeça.

̶  Olha lá. É Dom Raposo Velho, o dono da fazenda.

̶  Por que chamam ele de Diabo Velho?  ̶  O homem olhou para os lados antes de fazer a pergunta.

̶  Não sei, mas dizem que tem parte com o Diabo. É por isso que tem tudo o que tem.

Enquanto esses dois concluíam seus afazeres, Dom Raposo Velho, recebia os recém-chegados na varanda, para saber como foi a viagem e os negócios. Era um homem de barba cinzenta e bifurcada, como língua de lagarto. Alto e corpulento. Seu chapéu de abas largas escondia a cabeça calva.

O sol nem havia aparecido por detrás dos morros verdes e Odara e Jerônima já estavam trabalhando. As duas foram designadas para as tarefas domésticas e tudo deveria estar pronto antes do amo se levantar.

Odara viu os raios solares entraram pelas frestas da cozinha. Escutou canto de pássaros e pensou que aquela deveria ser uma linda amanhã. Puxou o trinco e empurrou uma das folhas da janela. Ao olhar para fora, um homem recém começava a ser chicoteado no pelourinho. As costas negras mal tinham sido marcadas. Ela voltou para dentro e fechou tudo, como estava antes.

Depois de servirem a mesa e do amo se alimentar, as duas começaram a organizar tudo. Esse era o dia-a-dia das mulheres que vieram do outro lado do oceano. Odara estava se conformando com aquilo, não que estivesse feliz. Mas, como não conhecera outra vida, ou, ao menos, não lembrava, seguia adiante.

Apenas não entendia a situação de sua colega, Jerônima, que não demonstrava a mesma tristeza que os demais escravos da fazenda. Isso a intrigava. Uma tarde, quando Jerônima, de joelhos, esfregava o chão da sala, percebeu que ela sorria.

̶  Como você pode sorrir? Eu não entendo.

A mulher, largou o pano ensaboado, colocou as mãos na cintura e olhou para Odara, sem desfazer o sorriso.

̶ Minha Querida, eu não me preocupo com esses homens. Eles não podem fazer nada contra mim, contra o que eu sou.

Odara parecia que estava mais confusa ainda. Bateu com as mãos nas coxas e abriu os braços. jerônima riu e tirou alguma coisa debaixo do pano que trazia enrolado na cabeça.

̶ Eles nunca poderão quebrar meu espírito, porque eu sei de onde vim.

Então, ela abriu a mão e mostrou para Odara o que havia escondido. Era um pingente. Tinha o formato de uma espada curva, com protetor no cabo.

As duas escravas faziam o seu trabalho e não chamavam a atenção do seu amo, Dom Raposo. Conhecido como Diabo Velho. Numa manhã, ele se aproximou delas.

̶  Estou indo para a Vila.  ̶  O tom de voz seco e o olhar frio paralisou as duas.

̶  Sim, meu senhor.  ̶  Elas responderam, de cabeça baixa.

Até a Vila, se levava uma manhã de cavalgada. O homem foi acompanhado de dois empregados, dois mamelucos descalços. Aquele era um lugar pouco povoado, se via casas de taipa espalhadas e roças de mandioca aqui e ali, a chegada do trio chamou a atenção de todos, mas ninguém ousava levantar a cabeça para encará-los. Apearam defronte a Igreja, construída no ponto mais alto da localidade. Era uma construção simples, apesar do seu tamanho avantajado. Possuía uma torre, que ficava ao lado esquerdo de quem entra na Igreja.

O Diabo Velho se encaminhou para o interior do prédio, enquanto os outros dois ficaram esperando. Lá dentro, sem tirar o chapéu, foi direto para o confessionário. Uma espécie de câmara de madeira, adornada com motivos cristãos, com uma única abertura feita de frestas verticais, de modo dificultar a visão para o seu interior. Também havia um suporte  para os prováveis pecadores se ajoelharem e falarem com o padre, lá dentro.

O recém chegado colocou seus joelhos no local determinado, tirou o chapéu, olhou para os lados e aproximou o rosto da abertura de frestas.

̶  Senhor, mandou me chamar?  ̶  A resposta demora uns instantes, então, se ouve uma voz rouca do interior do confessionário.

̶   O pacto foi quebrado.

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