A Missão: a história por trás da história

capa dvd a missãoA série YVY tem como cenário as missões jesuítico-guarani do século XVIII na América do Sul. Por esse motivo, uma das primeiras referências visuais a ser consultada foi o filme A Missão, de 1986, do diretor Roland Joffé. A obra não serviu como fonte histórica, propriamente dita, ela não é um documental. É mais uma dramatização para representar dramas vividos na época das missões, com locais e personagens fictícios. Porém, o trabalho de produção desenvolvido para levar às telas, de maneira convincente, o espírito da época, foi, no mínimo, extraordinário. Muitos conhecem a história do filme, por isso, gostaria neste artigo, de me concentrar em algo que foi tão impressionante quanto ele, o seu making off.

Existe uma edição especial em DVD desse filme, distribuída pela Versátil Home Vídeo, que vem com um disco extra, nele encontramos este making off  com uma história tão incrível sobre os bastidores da gravação de A Missão que poderia se transformar em mais uma obra.

Roland Joffé, o diretor, sabia que a alma de seu filme seria o povo guarani, que povoava as reduções jesuíticas daquele tempo. Ele não queria, simplesmente, contratar figurantes, pois acreditava que, assim, não faria um filme convincente. Primeiramente, foi feito contato com comunidades guarani na Argentina, mas a impressão que o diretor teve desse encontro não foi das melhores. Eram populações pequenas e espalhadas por diferentes pontos do país, segundo Roland, não demonstravam a altivez e o espírito guerreiro necessário para a realização do filme. Pareciam mais um povo derrotado.

Após algumas viagens e investigações os produtores de A Missão encontraram o que precisavam para levar para a tela do cinema a energia e força do povo guarani missioneiro. Na região do Cauca, no sudoeste da Colômbia, vivendo às margens do rio San Juan, acharam uma comunidade wanana, esta caiu como uma luva para a representação do papel, pois ainda era um povo numeroso e coeso socialmente, fortemente agarrado a sua cultura e, ao mesmo tempo, se relacionando razoavelmente bem – não sem conflitos – , com a sociedade branca. Ou seja, conheciam espanhol, lidavam com tecnologias modernas, etc.  Agora viria a parte difícil. O que aconteceu após este encontro, foi quase uma epopeia.

Quase 600 pessoas, toda a comunidade, foi deslocada de suas moradias para se instalarem, temporariamente, nos locais de filmagem. Foram construídas moradias improvisadas, além de escola e locais de lazer, saúde e refeições. tratava-se de uma mega estrutura. Os wanana se entregaram de corpo e alma ao papel. Sentiam em sua própria carne o que o povo guarani sentiu há mais de 200 anos. No vídeo é possível acompanhar o depoimento de um dos líderes da comunidade e a história que conta sobre o seu povo é idêntica a de todos os povos originários da América. Perseguição, perda de territórios, perda de direitos, mortes, descaso… Os wanana, que possuem comunidades espalhadas na Colômbia e no Brasil, lutam para manter suas terras, sempre em iminente perigo de perdê-las para algum projeto de mineração ou energia.

Outro depoimento interessante é o do responsável pela preparação de atores. Ele conta que chegou a um determinado momento do trabalho de gravação, que os próprios wanana se dirigiam. Conversavam entre si sobre como poderiam conseguir o melhor resultado para alguma cena, ajudavam os atores estrangeiros com o idioma wanana (que no filme seria considerado guarani) e se tonaram, de fato, a alma do filme. Cujo resultado foi o melhor possível: Palma de ouro no Festival de Cannes,  César de melhor filme estrangeiro, dois Globos de Ouro, Oscar de melhor fotografia, entre outros (segundo o Google).

Apesar desse êxito, não foi sem conflito que a relação entre os wanana e a produção do filme se deu. Segundo os produtores, houve um mal-entendido quanto ao tempo de duração do contrato, que os wanana acreditavam ser mais curto do que realmente era.  O vídeo mostra as assembleias em que se reuniam a comunidade e a equipe do filme para discutir essa questão. Salvo algum engano, é possível dizer que as pessoas foram respeitadas e tiveram suas exigências atendidas.

O filme serviu para valorizar o povo wanana e apoiar sua luta por direitos? O diretor poderia ter insistido com as comunidades guarani para fazer o filme? Não saberia responder isso agora. Mas sei que é um filme muito usado para se debater a história das missões jesuíticas e o massacre sofrido pelo povo guarani. Não é um documentário histórico, mas é uma obra que soube, talvez, trazer o espírito da época para as telas.

Anúncios

Fantástico colonial

Por Rafael

Em postagem anterior comentei sobre como alguns períodos históricos foram ou são aproveitados na constituição de produtos de entretenimento. Quero dizer, aqueles relacionados a mídia, cinema, quadrinhos ou literatura. Nesse sentido, temos séries e obras recheadas de samurais, vikings, cavaleiros, cowboys, etc.

YVY é uma série que quer explorar a época colonial do continente americano para esse fim. Sua ação decorre durante um período incerto, entre o final do século XVII e início do XVIII. Enquanto pensávamos e desenvolvíamos a nossa ideia, fomos tomando contato com trabalhos que já tinham buscado essa mesma linha. Um deles é A Bandeira do Elefante e da Arara.

De autoria do estadunidense radicado em Porto Alegre, Christopher Kastensmidt, o universo de A Bandeira do Elefante e da Arara tem como protagonistas uma insólita dupla, Gerard Van Oost e Oludara, um holandês e um africano de origem yorubá, que formam uma bandeira de dois indivíduos, eles mesmos, e vivem fantásticas aventuras nas selvas e cidades do Brasil colonial, conhecendo e/ou enfrentando criaturas místicas do folclore brasileiro.

A série é encontrada em forma de literatura, quadrinhos e RPG e é uma excelente maneira de conhecer elementos da história e cultura brasileira, pois se nota o primoroso trabalho de pesquisa realizado na sua elaboração. Tendo, inclusive, já sido utilizada em projetos de leitura em algumas escolas de Porto Alegre.

A nacionalidade do seu criador não parece interferir de forma alguma na construção da representação da vida dos habitantes do Brasil colonial, assim como os criadores de Tex também não eram dos EUA. Cenários e figuras interessantes existem no mundo inteiro e fora dele, basta um olhar distinto e criatividade.

Até uma próxima!

Episódio 1: A Redução – Página 3

Terceira página de A Redução. Eva é presenteada com a Espada de Iansã. Aqui está uma tentativa de representar o sincretismo que é tão característico dos povos das Américas. Existe alguma coisa entre essas duas?