Os indígenas e a tecnologia

Por Rafael

“Índio com telefone”? Quantas vezes já não ouvimos alguém fazer uma pergunta semelhante a essa ao ver algum representante dos povos indígenas utilizando uma tecnologia moderna qualquer? Como se alguém, não importa quem seja, tivesse sua identidade apagada ao usar algum artefato que não pertença, originalmente, a sua cultura. Ninguém sofre essa acusação mais do que os povos indígenas. Isso é uma coisa engraçada, pois nunca vi alguém lançar o mesmo questionamento a um brasileiro de origem alemã que estivesse tomando chimarrão, por exemplo. Bom, vamos conversar um pouco sobre isso neste texto.

Durante minhas pesquisas para elaborar o universo narrativo de YVY, descobri que o mundo da tecnologia e das redes sociais está, felizmente, sendo cada vez mais ocupado pelos povos indígenas, do Brasil e do mundo.  Que encontraram, nesse ambiente, um meio para divulgar e valorizar suas identidades enquanto povos originários. Temos canais do youtube, páginas de facebook, blogs, perfis de instagram, entre outros, alimentados por representantes dos mais diferentes grupos, com as mais diversas finalidades. São muitos os jovens que, individualmente, usam essas mídias para exporem sua cultura, seu modo de vida, seus gostos e suas lutas. Mas, também, temos organizações indígenas, grupos musicais e artísticos de todos os gêneros.

A geógrafa Doreen Massey, em seu livro ”Pelo Espaço”, analisa a forma capitalista de ver o mundo, desde os seus inícios nas chamadas grandes navegações. Para os europeus, o espaço terrestre, vamos dizer assim, é apenas uma superfície a ser conquistada. O encontro com os povos americanos, ao se depararem com este continente, foi apenas um acidente de percurso. Ou seja, os povos indígenas seriam apenas um acontecimento fortuito na trajetória triunfante da colonização. Não se tratariam de povos com sua própria história e cultura a ser considerada e respeitada. Daí vem uma distinção muito comum que é feita por muitas pessoas: os “povos adiantados” e os “povos atrasados”. Ou seja, é realizada uma distinção temporal entre povos diferentes que compartilham o mesmo espaço, o planeta Terra, no caso.  É uma distinção que não respeita a diversidade.

Porém, ao se apropriarem da tecnologia elaborada pela sociedade capitalista, os povos indígenas dão sinal de que não estão confortáveis dentro desse papel imposto a eles pelo projeto colonizador. Não querem ser o “acidente” da história de outros, da narrativa de outros. Mostram que almejam o papel de protagonistas de suas próprias histórias. Nesse contexto, trago alguns exemplos, entre muitos, dessa apropriação subversiva da tecnologia pelos povos originários.

Talvez, um dos pioneiros, salvo engano, seja o grupo de rap Bro MCs. Na ativa desde 2009, o grupo foi formado por jovens da etnia Guarani Kaiowá, do interior do Mato Grosso do Sul. Cantando em português e guarani, denunciam as mazelas que se abatem sobre seu povo, desde a violência do agronegócio e a discriminação, até o alcoolismo e drogadição em suas aldeias. Já lançaram diversos clipes no youtube. Como Eju Orendive, Koangagua e Nhe’ê Mbaratê.

bro mcs

Essa apropriação do rap, não parece ser por acaso. Como todos sabem, esse estilo musical oriundo dos guetos estadunidenses ganhou projeção mundial e é usado como instrumento de expressão para os mais diversos povos oprimidos do mundo, como a população de origem árabe da França e os palestinos que vivem em territórios ocupados pelo estado de Israel. Nada mais normal que os povos indígenas também se identificassem com esse estilo. É o caso dos outros dois exemplos que trago aqui.

Tendo lançado, recentemente, o clipe Xondaro Ka’aguy Reguá, o jovem Kunumi MC não começou agora sua trajetória de luta em favor de seu povo. Pertencente à etnia Guarani (não descobri de qual ramo, na minha pesquisa), Werá Jeguaka Mirim, como se chama o rapper, é aquele garoto indígena que, na abertura da copa do mundo do Brasil, quebrou o roteiro e estendeu um cartaz onde se lia “demarcação já”. Além do lançamento recente, Kunumi postou outros clipes na plataforma youtube: O Kunumi chegou e Somos Guerreiros Daqui, entre outros.

kunumi mc

Outro representante indígena nessa luta é a rapper e atriz Katu, de origem Boe Bororo, um povo do Brasil central. Tendo angariado milhares de seguidores na plataforma instagram, Katu, criada na periferia da cidade de São Paulo, usa esse espaço para falar de como ela busca se aproximar de suas origens indígenas, denunciando a violência histórica e sistêmica que a levou a se separar delas.  Identificada, também, com a comunidade lgbt, Katu, além de cantar, atua como modelo fotográfica e atriz, tendo participado do último de clipe da cantora Iza, chamado Let Me Be The One.

katu

Mas a apropriação indígena das tecnologias atuais vai além do rap. Trago, também, o exemplo do perfil de instagram, Literatura Indígena Brasileira. Administrado pela jovem de origem Pataxó, Carina Oliveira. Nele, temos dicas de leitura e entrevistas com escritores oriundos dos mais diversos povos indígenas do Brasil. São contadores e contadoras de histórias, pensadores e pensadoras, poetas e poetisas que, entre outras coisas, expressam a cultura de seus povos, sua visão de mundo e seus desafios para sobreviver na excludente sociedade brasileira. Carina já entrevistou, em lives, nomes consagrados da área como Daniel Munduruku e Ailton Krenak.

literatura indígena brasileira

Para encerrar a lista de exemplos, trago o perfil Índio Meme, também da plataforma instagram. Aqui, vemos a apropriação da novíssima linguagem dos memes pelos povos indígenas. Nesse perfil, podemos acompanhar postagens em tom mais cômico, procurando expressar costumes das aldeias, comparações engraçadas entre a cultura indígena e a dos brancos e, em alguns momentos, postagens em tom de denúncia, ainda que de forma cômica, dos problemas que afetam suas comunidades.

indio meme

Concluo, repetindo que apresentei apenas alguns exemplos. Nas redes sociais, encontramos muitos outros, não só do Brasil, mas também do mundo. Acompanhar, curtir, compartilhar, valorizar essas formas de expressão, é o mínimo que todos os brasileiros podem fazer para compensar os séculos de agressões que esses povos sofreram e continuam sofrendo. Eles parecem estar se saindo bem com a tecnologia da sociedade capitalista. Poderíamos, os não-indígenas, nos sair tão bem na sociedade indígena?

Geografia Indígena.

Por Rafael

geografia indígena

Fonte: Os Guarani Mbyá, de Vherá Poty e Danilo Christidis.

Você já reparou no mapa político da América do Sul? É só um mapa, não é mesmo? Nele, temos as linhas de fronteira entre cada país. Por exemplo, no sul do Brasil, temos uma junção de fronteiras entre três países, Paraguai, Argentina e Brasil. Nada de mais, existem outras fronteiras tríplices pelo continente.

Alguns podem dizer que o mapa apenas representa o espaço onde vivemos, por onde nos deslocamos fisicamente, apresentando as distâncias entre um ponto e outro. Para muitos, o espaço é só isso, a superfície sobre a qual nos movemos. E, se queremos melhor nos mover, podemos ter o auxílio do mapa.

O que muitos não sabem é que as linhas de fronteira que vemos em nossos mapas, foram riscadas sobre outras fronteiras, como mundos sobrepostos. Existe um outro povo, um outro mundo, uma outra cultura que, através do nosso espaço representado nos nossos mapas, enxerga outro espaço, outras fronteiras, que pertencem ao seu espaço próprio, soterrado pelo nosso, espaço branco ocidental, capitalista.

O povo mbyáguarani, uma ramo da grande nação guarani, habita, há cerca de 2000 anos, uma área que abrange o centro-sul do atual Paraguai, mais o nordeste da Argentina e o sul do Brasil. Coincidindo, aproximadamente, com a área do chamado Aquífero Guarani. Motivo pelo qual esse grande reservatório de água subterrânea ganhou esse nome.

Apesar de seu território inteiro ter sido ocupado por outra civilização, num processo de 500 anos, e muito do seu modo de vida ter sofrido alterações, os mbyá mantêm viva sua cultura e seus mitos. Muitos desses mitos, tratam do espaço onde vivem. Espaço físico, mas também espaço de identificação cultural.

Podemos dizer que os mbyá dividem seu mundo em quatro grandes unidades, divididas de acordo com sua cosmovisão. Segundo o antropólogo José Otávio Catafesto de Souza, o centro do mundo mbyá se chama Yvy Mbité (terra central), e surgiu quando baixaram as águas do grande dilúvio do início do mundo. Correspondendo ao território da atual República do Paraguai.

Deslocando-se para o leste, acompanhando o recuo das águas diluvianas, temos o Pará Miri (água pequena). Uma grande unidade cosmo-geográfica alagada. Por onde correm os rios Paraná e Uruguai, conhecida pelos brancos como mesopotâmia argentina. Corresponde, mais ou menos, ao território da província argentina de Misiones.

Continuando o caminho para leste, adentrando o que hoje seria a área central do território do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, temos o Tape (caminho), uma grande área de circulação, de deslocamentos.

O Tape é o caminho que leva à última unidade mais a leste, o Pará Guaçu (água grande), assim a cosmovisão mbyá se refere ao Oceano Atlântico. Para o Pará Guaçu recuou toda a água do dilúvio primordial. Para o leste, está o Paraíso, a Terra Sem Males ou, como eles dizem, Yvy Marae’y.

Nem toda a opressão que sofreram, nem as centenas de linhas e fronteiras que nossos cartógrafos traçaram sobre o seu mundo, apagou essa geografia mbyá. Uma geografia cósmica,

que vive no imaginário desse povo, em sua cultura, em suas histórias e mitos.

Mesmo a geografia branca aproveitou as denominações topológicas dos mbyá. Nossos mapas estão cheios de nomes guarani. Itapuã, Tapes, Canguçu, Quaraí, Taquari, Caí, Jacuí, Arambaré, Paraguai, Uruguai, Itaqui, Itajaí, Camaquã, Paraná, Sarandi, Sapucaia, Gravataí, são só alguns exemplos.

E então, gostou de saber um pouco mais sobre cultura guarani? Deixe seu comentário e vamos aprimorando nosso conteúdo.

Obrigado!

Fontes:

Os Guarani Mbyá, de Vherá Poty e Danilo Christidis.

Breves Aspectos Socio-ambientais da territorialidade Mbyá-Guarani no Rio Grande do Sul, artigo de autoria de Flávio Schardong Gobbi, Marcela Meneghetti Baptista, Rafaela Biehl Printes e Rodrigo Rasia Cossio. Faz parte da coletânea Coletivos Guarani no Rio Grande do Sul: territorialidade, interetnicidade, sobreposições e direitos específicos.