YVY – Mistérios da Terra/ Capítulo 7

A procissão de acorrentados seguia silenciosa pela trilha. Vez ou outra, quando o cansaço fazia o ritmo da fila diminuir, se ouvia o som de um chicote ou de um grito, para forçar os infelizes a apertar o passo. Não fosse essa sinistra comitiva, se poderia acreditar que aquele lugar era o paraíso.

A trilha quase se escondia na densa vegetação. Ás vezes,  passava pela beira de um precipício e a paisagem de morros se descortinava, como se fossem dentes verdes da boca de um gigante. Para a garota que ganhou o nome de Odara, a floresta por onde andavam, lembrava um pouco a sua casa  ̶  lá no outro lado do oceano  ̶  exceto pelo sobe e desce das encostas.

As duas mulheres que se conheceram no navio negreiro, iam juntas, uma atrás da outra.

̶  Odara!

̶  Não me chame assim, já disse.

Jerônima, parecendo não se aborrecer com a resposta da companheira de jornada, continuou:

̶  Odara, você gostaria de lembrar como era sua vida antes?

A jovem ficou pensando na pergunta. Talvez, quisesse se lembrar, mas numa situação com aquela, era melhor não lembrar nada, mesmo. Imagine, ficar pensando nas pessoas que você perdeu, nas coisas que fazia… Seria muito mais dolorido.

̶  Olha, Jerônima…

Porém, ela não pôde concluir a frase, um homem à cavalo logo se aproximou.

̶  Cala a boca, negra!

E o chicote fez-se ouvir mais uma vez, próximo aos ouvidos, fazendo as mulheres se encolherem e apertarem o passo.

Um mês de caminhada. Esse foi o tempo que levou para chegarem ao seu destino. Uma grande fazenda, localizada em uma planície, cercada por morros verdejantes. Ao chegar, a coluna começou a se dispersar. Ordens eram dadas, cada qual buscava realizar seus afazeres, descarregar os animais, levá-los para beber água, guardar mantimentos, entre outras coisas. Quanto aos aprisionados, o lugar deles era o porão da grande casa, que era a sede da fazenda.

Um mês de caminhada. Esse foi o tempo que levou para chegarem ao seu destino. Uma extensa fazenda, localizada em uma planície, cercada por morros verdejantes. Ao chegar, a coluna começou a se dispersar. Ordens eram dadas, cada qual buscava realizar suas tarefas. Havia quem descarregava os animais, quem guardava as bagagens, ninguém ficava parado. Quanto aos aprisionados, o lugar deles era o porão da grande casa, que era a sede da fazenda.

Lá dentro, Odara recebeu, de uma senhora negra, um prato de madeira com uma farinha branca, que ela não conhecia. Também recebeu uma laranja. A senhora a ensinou a pôr a farinha na boca com a mão e a espremer a laranja para ajudar a engolir. Essa foi sua primeira refeição naquele lugar.

Não muito longe dali, dois homens levavam seus cavalos ao estábulo. Um deles avistou uma figura na varanda da casa grande, procurando não chamar muito a atenção, ele olhou para o parceiro e fez um movimento de cabeça.

̶  Olha lá. É Dom Raposo Velho, o dono da fazenda.

̶  Por que chamam ele de Diabo Velho?  ̶  O homem olhou para os lados antes de fazer a pergunta.

̶  Não sei, mas dizem que tem parte com o Diabo. É por isso que tem tudo o que tem.

Enquanto esses dois concluíam seus afazeres, Dom Raposo Velho, recebia os recém-chegados na varanda, para saber como foi a viagem e os negócios. Era um homem de barba cinzenta e bifurcada, como língua de lagarto. Alto e corpulento. Seu chapéu de abas largas escondia a cabeça calva.

O sol nem havia aparecido por detrás dos morros verdes e Odara e Jerônima já estavam trabalhando. As duas foram designadas para as tarefas domésticas e tudo deveria estar pronto antes do amo se levantar.

Odara viu os raios solares entraram pelas frestas da cozinha. Escutou canto de pássaros e pensou que aquela deveria ser uma linda amanhã. Puxou o trinco e empurrou uma das folhas da janela. Ao olhar para fora, um homem recém começava a ser chicoteado no pelourinho. As costas negras mal tinham sido marcadas. Ela voltou para dentro e fechou tudo, como estava antes.

Depois de servirem a mesa e do amo se alimentar, as duas começaram a organizar tudo. Esse era o dia-a-dia das mulheres que vieram do outro lado do oceano. Odara estava se conformando com aquilo, não que estivesse feliz. Mas, como não conhecera outra vida, ou, ao menos, não lembrava, seguia adiante.

Apenas não entendia a situação de sua colega, Jerônima, que não demonstrava a mesma tristeza que os demais escravos da fazenda. Isso a intrigava. Uma tarde, quando Jerônima, de joelhos, esfregava o chão da sala, percebeu que ela sorria.

̶  Como você pode sorrir? Eu não entendo.

A mulher, largou o pano ensaboado, colocou as mãos na cintura e olhou para Odara, sem desfazer o sorriso.

̶ Minha Querida, eu não me preocupo com esses homens. Eles não podem fazer nada contra mim, contra o que eu sou.

Odara parecia que estava mais confusa ainda. Bateu com as mãos nas coxas e abriu os braços. jerônima riu e tirou alguma coisa debaixo do pano que trazia enrolado na cabeça.

̶ Eles nunca poderão quebrar meu espírito, porque eu sei de onde vim.

Então, ela abriu a mão e mostrou para Odara o que havia escondido. Era um pingente. Tinha o formato de uma espada curva, com protetor no cabo.

As duas escravas faziam o seu trabalho e não chamavam a atenção do seu amo, Dom Raposo. Conhecido como Diabo Velho. Numa manhã, ele se aproximou delas.

̶  Estou indo para a Vila.  ̶  O tom de voz seco e o olhar frio paralisou as duas.

̶  Sim, meu senhor.  ̶  Elas responderam, de cabeça baixa.

Até a Vila, se levava uma manhã de cavalgada. O homem foi acompanhado de dois empregados, dois mamelucos descalços. Aquele era um lugar pouco povoado, se via casas de taipa espalhadas e roças de mandioca aqui e ali, a chegada do trio chamou a atenção de todos, mas ninguém ousava levantar a cabeça para encará-los. Apearam defronte a Igreja, construída no ponto mais alto da localidade. Era uma construção simples, apesar do seu tamanho avantajado. Possuía uma torre, que ficava ao lado esquerdo de quem entra na Igreja.

O Diabo Velho se encaminhou para o interior do prédio, enquanto os outros dois ficaram esperando. Lá dentro, sem tirar o chapéu, foi direto para o confessionário. Uma espécie de câmara de madeira, adornada com motivos cristãos, com uma única abertura feita de frestas verticais, de modo dificultar a visão para o seu interior. Também havia um suporte  para os prováveis pecadores se ajoelharem e falarem com o padre, lá dentro.

O recém chegado colocou seus joelhos no local determinado, tirou o chapéu, olhou para os lados e aproximou o rosto da abertura de frestas.

̶  Senhor, mandou me chamar?  ̶  A resposta demora uns instantes, então, se ouve uma voz rouca do interior do confessionário.

̶   O pacto foi quebrado.

YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 4

Já fazia três dias que os homens caminhavam naquela floresta. Sabiam de uma aldeia próxima a uma das margens do rio Níger, mas acabaram chegando tarde demais. De algum jeito, os moradores de lá ficaram sabendo da chegada deles. O grupo voltava de mãos abanando para a costa.

O sentimento de fracasso, o calor, os mosquitos, tudo colaborava para tornar aquele regresso mais difícil. Não fosse uma surpresa no meio do caminho. Próximo a uma árvore de largas raízes, jazia uma garota, inconsciente. Com o que ela sonhava? Quem poderia saber? O certo é que o pior dos pesadelos seria preferível ao que a aguardava quando  fosse desperta pelos escravagistas. Para eles, aquela jovem negra era um verdadeiro presente.

Ela ainda não sabia nem onde estava quando seus pulsos foram amarrados.

̶   Caminha, negra!

Ela não entendia as palavras do homem branco de cara barbuda, mas não precisava entender nada. Um puxão na corda e ela já se pôs a caminhar. Atravessaram florestas e rios, subiram e desceram colinas, até que, ao anoitecer, montaram acampamento. A garota sempre com as mãos atadas. Talvez fosse inútil falar com aqueles homens, mas ela nem tentou.

Ao amanhecer recomeçaram a marcha. Quando o sol atingiu seu ponto mais alto no céu, era possível sentir a maresia no ar, se aproximavam da praia. De longe, ela viu muita gente, uma construção de madeira que se projetava mar adentro e embarcações de muitos tipos flutuando.

Quando lá chegaram, havia muitas pessoas negras como ela. Alguns acorrentados, outros amarrados, crianças chorando, lamentos, gritos de ordem, sons de chicote. Nem em pesadelos ela tinha visto algo como aquilo.

Então, a puxaram pela corda, a subiram na plataforma de madeira e a levaram para um daqueles navios. Antes de embarcarem, um homem de vestido preto, com uma cruz pendurada no pescoço, lhe respingou um pouco de água de uma garrafa e lhe disse palavras que ela, mais uma vez, não entendeu.

Ao entrar no porão do navio, quase desmaiou. O calor, o cheiro de suor, vômito, urina e fezes fizeram seu estômago embrulhar, ela levou a mão à boca. Enxotou uns ratos e se sentou em um dos poucos cantos vazios.

̶   Você é muito bonita.

A garota se virou rapidamente para o seu lado direito, de onde partira aquela voz desconhecida. Quem proferiu a frase fora uma outra garota negra, que tinha os cabelos enrolados em pequenas tranças e um inacreditável sorriso nos lábios.

A recém chegada não disse nada, nem agradeceu o elogio, nem sorriu. Balançou a cabeça, fez uma careta e virou o rosto para frente. A outra insistiu com o contato.

̶   Eu me chamo Jerônima.

Mais uma vez, a tentativa de aproximação acabou fracassando.

̶   E você? Tem um nome?

Dessa vez, a garota se virou para sua interlocutora, demonstrando pouca paciência.

̶   Nome? Isso importa nesse lugar?

A garota de tranças sorriu, conseguira, enfim, uma resposta.

̶   Minha irmã, nada mais importa.

Depois de alguns instantes observando o vazio, a recém chegada ao porão, respondeu.

̶   Não sei, não lembro de nada. Não sei nem quem eu sou, nem de onde vim.

Então, a porta do porão se fechou, um movimento de pessoas começou no convés do navio. A hora da partida estava chegando.

As duas jovens que acabaram de se conhecer continuavam lado a lado. A de tranças sorriu e apontou o dedo indicador para a outra.

̶   Vou chamá-la de Odara.