Descomplincando com Kaê Guajajara: o que você precisa saber sobre os povos originários e como ajudar na luta anti-racista.

Kaê Guajajara

Por Rafael.

Recentemente adquiri a versão pdf do livro organizado pela artista e ativista indígena Kaê Guajajara. Trata-se de uma importante obra para o momento em que vivemos, onde, cada vez mais, os direitos dos povos indígenas por suas terras e seus modos de vida são atacados.

O livro é totalmente produzido por representantes dos diferentes povos indígenas brasileiros e se dirige, principalmente, à população não-indígena, branca e/ou habitantes dos centros urbanos.  O objetivo da obra é desmistificar alguns conceitos deturpados que circulam pela sociedade brasileira, em relação aos nativos americanos, ajudando os interessados em apoiar a causa a entendê-la e agir para tal.

Uma das primeiras ideias a ser descontruída na obra é a de “descobrimento” do Brasil, afirmando a importância de se usar o conceito de “invasão”, bem mais adequado para a situação. Depois, temos o debate sobre o uso do termo “índio”, sobre a escravização indígena – pouco comentada – e a catequese. Busca-se entender o processo colonial como um processo de genocídio e etnocídio, conceitos que também são trabalhados no livro.

Entre muitos temas apresentados, nos deparamos com algumas “curiosidades”, se podemos dizer assim. Como o caso da origem da palavra “grilagem”, se referindo ao roubo das terras indígenas, e o uso das palavras “tibira”, que se refere aos indígenas LGBT, e “parente”, que é como os povos originários se dirigem uns aos outros, independentemente de suas etnias.

Mas, um dos capítulos mais importantes, ao meu ver, é o que se destina a explicar as maneiras como nós, não-indígenas, podemos apoiar a causa desse povo, ou melhor, desses povos. E acredite, não é muito difícil fazer isso. Você pode começar indo no perfil da loja Azuruhu no instagram e entrar em contato com eles para descobrir como receber o pdf do livro, que teve sua versão impressa suspensa por causa da pandemia.

YVY – Mistérios da Terra / Capítulo 12

A Redução parecia tão pequena lá do alto da colina. Eva e o avô levaram quatro dias para chegar até ali. Ela vestia as mesmas roupas de quando deixara o convívio no mundo cristão, o chiripa e as botas de garrão de potro com esporas. Próprias para montaria. Mas ela não pôde montar o tempo todo durante a viagem. Os dois tinham apenas um cavalo. Em boa parte do trajeto, ela puxou o animal pelas rédeas. Montado nele, ia o velho Moreyra. Ao avistar a redução, a ansiedade tomou de conta de Eva e o cavalo teve que carregar um peso extra na parte final da jornada.

O padre Antônio havia acabado há pouco suas orações da manhã, se preparava para aquecer água no fogão de barro quando um menino veio chamá-lo. Ainda segurando a chaleira, ele deixou a cozinha coletiva da redução e foi em direção ao pátio. Ao ver os recém-chegados, foi assaltado com um misto de sentimentos, desde surpresa, ressentimento, até alegria.

Passada a torrente de lembranças de todo tipo, inspirou fundo e sorriu, soltando o ar pelo nariz.

̶ Mais duas ovelhas para meu rebanho?

Avô e neta, em pé, lado a lado, se entreolharam.

̶  Acho que não. Vamos entrando, então  ̶  convidou o sacerdote.

O trio conversava, sentado em roda, enquanto a água da chaleira esquentava. Falaram sobre o inverno, que havia sido muito chuvoso. O padre comentou sobre a chegada de novos moradores à redução, oriundos de uma aldeia próxima dali. Avô e neta contaram sobre as dificuldades da viagem.

Quando a chaleira começou a expelir vapor e a chiar, o padre se levantou e a tirou de cima da chapa de ferro. Encheu uma cuia de erva-mate com a água e tomou um gole, cuspindo, logo em seguida, o líquido que acabara de sorver. Encheu mais uma vez a cuia e voltou a sentar-se próximo aos recém-chegados.

Enquanto o velho sacerdote tomava o Ka’a, reparava na velhice de Moreyra. Tão velho quanto ele mesmo. Como pôde ter vivido tantos anos sozinho na mata? Nunca entenderia essas pessoas sem Deus, pensou. Mas, suas reflexões foram interrompidas.

̶ Padre, temos uma coisa muito importante para dizer. ̶  Eva anunciou  ̶  A Redução corre perigo!

O jesuíta olha para a garota que já foi como sua filha. Volta seu olhar para Moreyra e, então, pergunta.

̶  E que perigo seria esse?

Eva estava pronta para responder, mas o velho guarani tocou em seu ombro, pedindo a palavra.

̶  Padre Antônio. O senhor deve se lembrar do dia em que deixei minha neta com você. Não?

Aquilo já fazia vinte anos, mas o padre Antônio lembrava como se fosse ontem. Fez um gesto afirmativo com a cabeça.

̶  Então, já deve saber de que perigo estamos falando.  ̶  Concluiu.

Antônio agarrou a chaleira mais uma vez, encheu a cuia e a passou para Eva. Então, respirou fundo e coçou o queixo.

̶  Moreyra, você está falando daquela profecia sua sobre Eva ter que ficar comigo para que eu a protegesse do seu… como é mesmo…Anhá?

̶  Meu avô se chama Nhee Porã, padre. E eu, agora, sou Yvytu Ete!  ­̶  Afirmou a garota guarani, com convicção.  ̶  Tive uma visão. E, nessa visão, um exército de paulistas invadia e destruía a Redução.

Tomando a cuia de volta, Antôno repetiu o processo de colocação da água quente e a retornou, agora, para Moreyra.

̶  Deixe-me ver. Então, eu deveria organizar toda a gente que vive aqui para uma retirada e abandonar nossas casas, nosso trabalho, nossa igreja!  ̶  Nessa última palavra o padre levantou o tom de voz, para, então, diminuí-lo logo em seguida.  ̶  Tudo, por causa de uma superstição de selvagens!  ̶  Nesse final, ele levantou a voz uma vez mais.

O ambiente silencia por alguns instantes. Então, Moreyra se vira para sua neta.

̶  Entendeu, Yvytu? A palavra não significa nada para os juruás.

Eva se voltou para o sacerdote.

̶  Padre Antônio, o senhor sempre disse que eu era especial. Eu não entendia o porquê. Mas agora eu sei, agora eu me sinto especial!

O padre cerrou o cenho e seus olhos miraram o vazio durante um tempo. Quando pegou fôlego para falar uma voz se ouviu do lado de fora.

̶  Padre Antônio! Padre Antônio!  ̶ O homem foi até a porta para ver o que acontecia. Eram alguns moradores. Eles seguravam uma mulher negra prestes a desfalecer. Suas vestes estavam esfarrapadas e sujas. Quem seria ela? O padre pensou.

Capítulo 13

 

1499 – O Brasil Antes de Cabral

Por Rafael

1499 o brasil antes de cabral

Há tempos queria ler esse livro e, finalmente, consegui. “1499, o Brasil antes de Cabral”, foi escrito pelo jornalista Reinaldo José Lopes, profissional dedicado a área da divulgação científica, que fez um compilado de todas as principais pesquisas e teorias acerca da saga histórica do Homo Sapiens no continente americano e do seu desenvolvimento até a chegada dos europeus por essas terras. O jornalista concentra sua discussão sobre a história dos povos que habitavam o que viria a se tornar o Brasil de hoje. Porém, para isso, relações com o resto do continente, e do mundo, são estabelecidas. Com a leitura, aprendemos que a história no nosso país não começou com a chegada dos portugueses. Antes disso, verdadeiras cidades e civilizações floresceram e ruíram, batalhas aconteceram, trocas comerciais e intercâmbios de ponta a ponta do continente se deram. Estejam prontos para se surpreenderem com esse livro.

A obra é dividida em ordem cronológica da chegada dos primeiros seres humanos às Américas até o desembarque dos europeus.  Sendo assim, começa com o debate a respeito de como teria ocorrido essa ocupação, há mais de dez mil anos. Se pelo estreito de Bering ou pelo oceano Pacífico, como sugerem algumas opiniões. É muito interessante a maneira como o autor aborda essa discussão, apresentando as teorias e, mais do que isso, o raciocínio que os pesquisadores elaboraram para chegar a elas. Nos brindando com pitadas de conhecimento sobre evolução das espécies e tipos de datação. Não que eu tivesse entendido tudo, mas já me despertou a curiosidade para saber mais.

É igualmente interessante a abordagem sobre as sociedades construtoras dos famosos sambaquis. Essas estruturas feitas de conchas marinhas, encontradas no litoral brasileiro, foram erguidas pelos antepassados dos indígenas que fizeram contato com os portugueses. Esses povos antigos também são chamados de paleoíndios ou paleoamericanos pelos pesquisadores.

O desenvolvimento de antigas cidades na Amazônia abre um leque ainda maior para conhecermos nosso passado. O autor cita os trabalhos de alguns pesquisadores que se dedicam a história desses vestígios, que incluem até uma “Stonehenge amazônica”, além de linhas pelo solo, assim como as famosas “linhas de Nazca”. A abordagem da história dos antigos marajoaras e sua sociedade complexa, com cerâmicas e urnas funerárias nos leva a pensar o quão humana e histórica é essa importante região do nosso continente. Por muito tempo tida como “selvagem” ou “vazia” de população e história.

A abordagem sobre o desenvolvimento da agricultura no nosso continente me deixou muito curioso. Reinaldo comenta sobre a cultura do milho, oriunda do território do atual México, que teria se espalhado de norte a sul das Américas. Como teria acontecido isso? Que histórias nossos rios, nossas montanhas, florestas, trilhas e praias nos contariam se pudessem falar?

O último capítulo do livro tratará da chegada dos europeus por aqui. Quais foram os fatores que fizeram com que esses diversos e numerosos povos que habitavam essas terras sucumbissem à invasão estrangeira? O autor levanta algumas possiblidades estudadas pelos cientistas.

1499 é leitura recomendada para quem quer conhecer mais sobre o passado do nosso continente. Nos ajudando a, quem sabe, encontrarmos nossa história própria nesse mundo. Uma história americana, ainda que europeia e africana também, mas com suas características particulares.