Descomplincando com Kaê Guajajara: o que você precisa saber sobre os povos originários e como ajudar na luta anti-racista.

Kaê Guajajara

Por Rafael.

Recentemente adquiri a versão pdf do livro organizado pela artista e ativista indígena Kaê Guajajara. Trata-se de uma importante obra para o momento em que vivemos, onde, cada vez mais, os direitos dos povos indígenas por suas terras e seus modos de vida são atacados.

O livro é totalmente produzido por representantes dos diferentes povos indígenas brasileiros e se dirige, principalmente, à população não-indígena, branca e/ou habitantes dos centros urbanos.  O objetivo da obra é desmistificar alguns conceitos deturpados que circulam pela sociedade brasileira, em relação aos nativos americanos, ajudando os interessados em apoiar a causa a entendê-la e agir para tal.

Uma das primeiras ideias a ser descontruída na obra é a de “descobrimento” do Brasil, afirmando a importância de se usar o conceito de “invasão”, bem mais adequado para a situação. Depois, temos o debate sobre o uso do termo “índio”, sobre a escravização indígena – pouco comentada – e a catequese. Busca-se entender o processo colonial como um processo de genocídio e etnocídio, conceitos que também são trabalhados no livro.

Entre muitos temas apresentados, nos deparamos com algumas “curiosidades”, se podemos dizer assim. Como o caso da origem da palavra “grilagem”, se referindo ao roubo das terras indígenas, e o uso das palavras “tibira”, que se refere aos indígenas LGBT, e “parente”, que é como os povos originários se dirigem uns aos outros, independentemente de suas etnias.

Mas, um dos capítulos mais importantes, ao meu ver, é o que se destina a explicar as maneiras como nós, não-indígenas, podemos apoiar a causa desse povo, ou melhor, desses povos. E acredite, não é muito difícil fazer isso. Você pode começar indo no perfil da loja Azuruhu no instagram e entrar em contato com eles para descobrir como receber o pdf do livro, que teve sua versão impressa suspensa por causa da pandemia.

Os indígenas e a tecnologia

Por Rafael

“Índio com telefone”? Quantas vezes já não ouvimos alguém fazer uma pergunta semelhante a essa ao ver algum representante dos povos indígenas utilizando uma tecnologia moderna qualquer? Como se alguém, não importa quem seja, tivesse sua identidade apagada ao usar algum artefato que não pertença, originalmente, a sua cultura. Ninguém sofre essa acusação mais do que os povos indígenas. Isso é uma coisa engraçada, pois nunca vi alguém lançar o mesmo questionamento a um brasileiro de origem alemã que estivesse tomando chimarrão, por exemplo. Bom, vamos conversar um pouco sobre isso neste texto.

Durante minhas pesquisas para elaborar o universo narrativo de YVY, descobri que o mundo da tecnologia e das redes sociais está, felizmente, sendo cada vez mais ocupado pelos povos indígenas, do Brasil e do mundo.  Que encontraram, nesse ambiente, um meio para divulgar e valorizar suas identidades enquanto povos originários. Temos canais do youtube, páginas de facebook, blogs, perfis de instagram, entre outros, alimentados por representantes dos mais diferentes grupos, com as mais diversas finalidades. São muitos os jovens que, individualmente, usam essas mídias para exporem sua cultura, seu modo de vida, seus gostos e suas lutas. Mas, também, temos organizações indígenas, grupos musicais e artísticos de todos os gêneros.

A geógrafa Doreen Massey, em seu livro ”Pelo Espaço”, analisa a forma capitalista de ver o mundo, desde os seus inícios nas chamadas grandes navegações. Para os europeus, o espaço terrestre, vamos dizer assim, é apenas uma superfície a ser conquistada. O encontro com os povos americanos, ao se depararem com este continente, foi apenas um acidente de percurso. Ou seja, os povos indígenas seriam apenas um acontecimento fortuito na trajetória triunfante da colonização. Não se tratariam de povos com sua própria história e cultura a ser considerada e respeitada. Daí vem uma distinção muito comum que é feita por muitas pessoas: os “povos adiantados” e os “povos atrasados”. Ou seja, é realizada uma distinção temporal entre povos diferentes que compartilham o mesmo espaço, o planeta Terra, no caso.  É uma distinção que não respeita a diversidade.

Porém, ao se apropriarem da tecnologia elaborada pela sociedade capitalista, os povos indígenas dão sinal de que não estão confortáveis dentro desse papel imposto a eles pelo projeto colonizador. Não querem ser o “acidente” da história de outros, da narrativa de outros. Mostram que almejam o papel de protagonistas de suas próprias histórias. Nesse contexto, trago alguns exemplos, entre muitos, dessa apropriação subversiva da tecnologia pelos povos originários.

Talvez, um dos pioneiros, salvo engano, seja o grupo de rap Bro MCs. Na ativa desde 2009, o grupo foi formado por jovens da etnia Guarani Kaiowá, do interior do Mato Grosso do Sul. Cantando em português e guarani, denunciam as mazelas que se abatem sobre seu povo, desde a violência do agronegócio e a discriminação, até o alcoolismo e drogadição em suas aldeias. Já lançaram diversos clipes no youtube. Como Eju Orendive, Koangagua e Nhe’ê Mbaratê.

bro mcs

Essa apropriação do rap, não parece ser por acaso. Como todos sabem, esse estilo musical oriundo dos guetos estadunidenses ganhou projeção mundial e é usado como instrumento de expressão para os mais diversos povos oprimidos do mundo, como a população de origem árabe da França e os palestinos que vivem em territórios ocupados pelo estado de Israel. Nada mais normal que os povos indígenas também se identificassem com esse estilo. É o caso dos outros dois exemplos que trago aqui.

Tendo lançado, recentemente, o clipe Xondaro Ka’aguy Reguá, o jovem Kunumi MC não começou agora sua trajetória de luta em favor de seu povo. Pertencente à etnia Guarani (não descobri de qual ramo, na minha pesquisa), Werá Jeguaka Mirim, como se chama o rapper, é aquele garoto indígena que, na abertura da copa do mundo do Brasil, quebrou o roteiro e estendeu um cartaz onde se lia “demarcação já”. Além do lançamento recente, Kunumi postou outros clipes na plataforma youtube: O Kunumi chegou e Somos Guerreiros Daqui, entre outros.

kunumi mc

Outro representante indígena nessa luta é a rapper e atriz Katu, de origem Boe Bororo, um povo do Brasil central. Tendo angariado milhares de seguidores na plataforma instagram, Katu, criada na periferia da cidade de São Paulo, usa esse espaço para falar de como ela busca se aproximar de suas origens indígenas, denunciando a violência histórica e sistêmica que a levou a se separar delas.  Identificada, também, com a comunidade lgbt, Katu, além de cantar, atua como modelo fotográfica e atriz, tendo participado do último de clipe da cantora Iza, chamado Let Me Be The One.

katu

Mas a apropriação indígena das tecnologias atuais vai além do rap. Trago, também, o exemplo do perfil de instagram, Literatura Indígena Brasileira. Administrado pela jovem de origem Pataxó, Carina Oliveira. Nele, temos dicas de leitura e entrevistas com escritores oriundos dos mais diversos povos indígenas do Brasil. São contadores e contadoras de histórias, pensadores e pensadoras, poetas e poetisas que, entre outras coisas, expressam a cultura de seus povos, sua visão de mundo e seus desafios para sobreviver na excludente sociedade brasileira. Carina já entrevistou, em lives, nomes consagrados da área como Daniel Munduruku e Ailton Krenak.

literatura indígena brasileira

Para encerrar a lista de exemplos, trago o perfil Índio Meme, também da plataforma instagram. Aqui, vemos a apropriação da novíssima linguagem dos memes pelos povos indígenas. Nesse perfil, podemos acompanhar postagens em tom mais cômico, procurando expressar costumes das aldeias, comparações engraçadas entre a cultura indígena e a dos brancos e, em alguns momentos, postagens em tom de denúncia, ainda que de forma cômica, dos problemas que afetam suas comunidades.

indio meme

Concluo, repetindo que apresentei apenas alguns exemplos. Nas redes sociais, encontramos muitos outros, não só do Brasil, mas também do mundo. Acompanhar, curtir, compartilhar, valorizar essas formas de expressão, é o mínimo que todos os brasileiros podem fazer para compensar os séculos de agressões que esses povos sofreram e continuam sofrendo. Eles parecem estar se saindo bem com a tecnologia da sociedade capitalista. Poderíamos, os não-indígenas, nos sair tão bem na sociedade indígena?

YVY-Mistérios da Terra/Capítulo 15 – final

                                                 

̶  Yvytu! Achamos o velho Nhee Porã!  ̶ As luzes do dia já se faziam presente sobre o rio Uruguai, e Eva e Odara caminhavam juntas entre os destroços da batalha, quando ouviram o aviso. Era um grupo de guaranis que estavam no interior da mata procurando sobreviventes. Ela correu depressa para o local. Encontrou o avô caído, de barriga para cima. Um ferimento de bala no lado direito do tórax vertia sangue.

Eva se abaixou e, com cuidado, ergueu o velho Moreyra pelos ombros. O pescoço dele não acompanhou o movimento do corpo, pendendo para trás. Ela aconchegou a cabeça do avô em seu peito. Tudo era silêncio na mata. O Palavra Bonita havia se calado para sempre.

Então, alguém se aproximou de Eva, por trás, tocando-lhe o ombro. Era o padre Antônio.

̶  O senhor aqui, padre?  ̶  Eva tinha a voz um pouco embargada.

̶  Claro, minha filha. Fiquei de longe, rezando por você. Como eu já disse, uma vez, você é especial.

Outros guaranis se aproximaram deles e carregaram o corpo do velho Moreyra, o Nhee Porã, para uma canoa. Todos voltariam para a Redução, onde, ao que tudo indica, teria paz por mais algum tempo.

Em meio aos preparativos, Eva notou Odara, à beira do rio, de braços cruzados. A jovem de pele negra tinha um olhar vago, fixo na água corrente, e sorriu, um sorriso afetuoso, quando se voltou para a jovem de pele vermelha que se aproximava dela.

̶  Então, você já sabe o que vai fazer?  ̶  Eva devolvia o sorriso.

̶  Não sei, mas gostaria de voltar para o lugar de onde vim, de onde me arrancaram.

A guarani se aproximou da ex-escreva, tocando-lhe um dos ombros.

­ ̶  Gostaria de ajudar, se eu pudesse  ̶  Odara, apenas sorriu, mais uma vez.

̶  Sabe  ̶   Eva continuou  ̶  preciso acompanhar meu povo ao Yvy Maraêy. A terra sem males.

Odara ficou pensativa por uns instantes, com os olhos imersos na correnteza do rio. Então, perguntou.

̶  E onde fica isso, essa terra sem males?

̶  Não sei, mas meu avô me ensinou que fica em algum lugar à leste. Do outro lado, de lá, da grande água.

Enquanto as duas conversavam, canoas iam cruzando o rio Uruguai, algumas pessoas abanavam para Eva. A jovem guarani havia conquistado uma posição importante entre seu povo.  Odara notava isso, e se voltou para sua nova amiga.

̶  Você disse do outro lado da grande água? Engraçado, é de lá que eu vim.

Capítulo 1

 

 

YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 14

Eva não conseguiu decifrar o sentimento no semblante de padre Antônio, quando ela disse que não acompanharia a retirada da Redução e tentaria atrasar o passo dos brasileiros. Ele estaria desapontado com ela por não os acompanhar? Ou a sua expressão representaria incredulidade quanto ao sucesso da empreitada de Eva? De qualquer forma, antes de escurecer, a guarani, o velho Moreyra e Odara partiram, todos a cavalo, para o acampamento dos bandeirantes.

Quando os três se aproximaram do acampamento, apenas a lua e as tochas que carregavam iluminavam a floresta. Odara pôde reconhecer a árvore de largas raízes em que deixara Jerônima. Porém, o corpo da amiga não estava mais lá.

 

̶  Você tem certeza de que a colocou aqui?  ̶  Perguntou a guarani.

̶  Sim, ela já estava sem vida… como isso é possível?

Avô e neta se entreolharam, tinham dúvidas quanto às palavras de Odara. Então, decidiram que aquela não era hora para se preocuparem com aquilo. Agradeceram a ajuda da jovem negra e pediram que ela ficasse onde estava. Agora os dois se aproximariam do acampamento e o plano de Eva e Moreyra seria posto em ação.

Odara concordou e sentou-se para descansar, depois ela iria até os cavalos, que ficaram atados na entrada da floresta. Ela começou a observar com curiosidade o que faziam os outros dois. No escuro, dava para notar que Moreyra usava alguma coisa para traçar riscos no rosto da neta. Quando terminou, Eva tinha, em cada bochecha, um desenho composto por três linhas retas. Uma linha ficava no meio, enquanto as outras duas partiam de uma das extremidades desta, formando alguma coisa parecida com a pata de uma ave.

̶  Com esta pintura, Yvytu, nenhuma arma dos brancos poderá ferir você, ela lhe trará proteção.

Então, o velho guarani deu uma baforada no seu petyngua, o cachimbo mágico, e soprou um pouco de fumaça na neta. Eva, muito séria, encaixou a aljava de flechas e o arco nos ombros e agarrou, com expressão confiante, a sua lança de taquara. Moreyra vasculhou a bolsa que trazia consigo, tirou de lá um pedaço de madeira entalhado em forma de jaguaretê[1]. Segurou o artefato com firmeza e olhou para Eva.

̶  Chegou a nossa hora, minha neta.

Os dois se abraçaram e mergulharam na escuridão da floresta. Odara ela ficou ali.

Eva e Moreyra atravessaram o rio Uruguai sem problemas, o barulho da correnteza soava mais alto naquela hora da noite. O som ajudou a abafar a aproximação dos dois ao acampamento dos brasileiros.

No acampamento, um grupo de bandeirantes se reunia em volta da fogueira, conversavam e passam, de mão em mão, uma garrafa de aguardente. O Diabo Velho estava entre eles.

̶  Então, senhor, quando partiremos?

O Diabo agarrou a garrafa, tomou um gole, passou a manga da camisa na boca e respondeu.

̶  Assim que amanhecer. Já descansamos bastante.

Não muito longe dali, dois bandeirantes montavam guarda.

̶  E então, Henrique, será que enriquecemos dessa vez?  ̶  Perguntou um deles.

 

̶   Depois de um trago da inseparável garrafa de aguardente, ele respondeu:

̶  Assim espero, meu amigo. Parece que esses selvagens que vivem em reduções valem mais. Ouvi que têm uns três mil nessa para onde vamos  ̶  Tomou mais um trago e entregou a garrafa para o colega.

̶  Toma aí, vou mijar  ̶  o outro recebeu a garrafa e deu um sorriso.

̶  Cuidado, nesse mato aí tem onça  ̶  E emborcou a garrafa garganta a baixo.

O homem escutava os passos do colega dentro da mata. De repente, o som da calça sendo desabotoada e do esguicho de urina. Até ali, tudo normal.

Então, de repente, lhe chamou a atenção um som que ele não esperava. Como de uma voz sendo abafada.

̶  Henrique?  ̶  Ele sussurrou, sem obter resposta. Então, faltando-lhe coragem para adentar a mata, ele correu até a fogueira onde estavam os demais bandeirantes. Estes, em princípio, não deram muito crédito à história do colega, e o Diabo Velho permitiu que apenas um deles o acompanhasse.

̶  É aqui, atrás dessa árvore. Vamos!  ̶  Os dois ingressaram na mata e encontraram o corpo do desaparecido. Antes que um deles tivesse tempo para correr e avisar os outros, uma flecha lhe alcançou, como um raio. Aquele ali, nunca mais falaria nada. O sobrevivente, com os olhos arregalados, voltou à toda velocidade para a fogueira.

Desta vez, levaram a história à sério.

̶  Acordem tudo mundo, podemos estar sob ataque  ̶  O Diabo Velho desembainhou sua espada e adentrou a mata com os homens que estavam com ele na fogueira, eram em número de seis.

Do outro lado do rio, uma Odara assustada, sabe-se lá por que ainda estava ali, escutava a movimentação no acampamento. Ela pôde escutar a voz do seu antigo patrão ecoando na noite, ainda que não pudesse discernir que palavras ele gritava.

̶  Eu sei que vocês estão aí! Mostrem-se seus animais! – O líder dos bandeirantes encabeçava a coluna no interior da floresta.

A resposta veio em forma de flecha, farfalhando as folhas das árvores e indo terminar no pescoço do Diabo Velho.

̶  Acertaram o patrão! Acertaram nosso senhor! Acudam!

Um tumulto começou entre os bandeirantes, alguns, paralisados, olhavam para todos os lados, outros tentavam acudir seu patrão, que tinha dificuldades para respirar e agonizava com a seta atravessada na garganta. Dois deles, assustados, tentavam voltar para o acampamento. Estes não conseguiram sair da mata fechada. Uma sombra viva salta de entre as folhagens e cai por cima deles. Era uma enorme onça-pintada. Antes que o animal tocasse no chão, já tinha atingido a cabeça do primeiro bandeirante com uma patada, aquele não voltaria para junto dos seus. Quanto ao segundo, não teve tempo de usar seu mosquete. A mandíbula da onça se fechou sobre a sua garganta e, em instantes, ele não se movia mais. A criatura, então, retornou para a escuridão de onde havia saído.

Tomados pelo pavor, os homens iniciaram um tiroteio, às cegas. Como resposta, mais uma flecha iniciou seu caminho pela noite e encontrou o final do seu trajeto na cabeça de outro bandeirante.

Odara escutou os disparos, agora o acampamento estava muito mais agitado, tomado por um vozerio nervoso. O coração da ex-escrava parecia saltar de seu peito. Ela, então, agarrou firme o pingente de espada, presente de Jerônima, em volta do seu pescoço.

Os três homens restantes do primeiro grupo, descarregaram suas armas atirando à esmo e são atingidos por mais flechas. Só sobrou o Diabo Velho, sozinho na mata, agonizante. Mas, logo, teria companhia. A onça saiu da mata, mais uma vez, e se preparava para dar o bote final sobre o velho bandeirante, quando o estampido de um mosquete interrompeu seu avanço.  O animal voltou para o interior da floresta e uma pequena mancha de sangue, imperceptível no escuro, passou a ocupar o lugar onde ele estava. A chegada dos reforços animou o Diabo Velho que, apesar da flecha no pescoço, levantou-se e grunhiu ordens para caçar os índios escondidos no mato.

Do outro lado do rio, Odara continuava agarrada no seu pingente. Por que ela não ia embora? Essa pergunta ecoava dentro da sua cabeça. Mas não era só isso. Ela também escutava a voz de Jerônima. “Você não é uma escrava”. “Você não é uma escrava”. A mulher negra, vinda do outro lado do oceano, sentia, aos poucos, uma chama acender dentro de si.

Eva não sabia onde estava seu avô. Agora, era só ela. Bem posicionada atrás de uma árvore, ainda pode flechar mais dois homens, as tochas os tornavam alvos mais fáceis. Mas ela teve que deixar sua posição e correr em direção ao rio, as balas zuniam em seus ouvidos. Um dos seus perseguidores se aproximou o bastante da sua lança, a ponto de ser atingido. Já com os pés na água, Eva, então, se preparou para desferir mais uma flechada, talvez a última, antes de ser morta. Quando a primeira tocha saiu de trás das folhagens, ela liberou a sua flecha.

Em princípio, não entendeu do que se tratava, se era alguma magia surpresa do seu avô, mas não foi apenas a sua flecha que atingiu os bandeirantes, foram várias. Então, ela descobriu o que havia acontecido. Os gritos chamaram a sua atenção e ela olhou para trás. Do outro lado do rio estava o povo da Redução. Aqueles poucos velhos e mulheres que não eram considerados aptos para guerreiros e estavam prontos para fugir. Não fugiram, estavam ali. Empunhavam seus arcos e bradavam seus gritos de guerra. Eva ganhara um novo ânimo.

Alguns deles, começavam a atravessar o rio com suas canoas, quando os mosquetes dos bandeirantes voltaram a ressoar, fazendo-os cair de suas embarcações.

“Você não é uma escrava”. “Você não é uma escrava”. A chegada do povo da Redução foi como um combustível para a chama que ardia dentro de Odara.

̶  Eu sei quem eu sou! Eu sei quem eu sou!

Os gritos da mulher chamaram a atenção dos guaranis mais próximos. Ao mesmo tempo, uma lufada de vento os empurrou, derrubando-os.

Eva preparava a última flecha da sua aljava quando um raio desceu do céu e explodiu parte da vegetação à sua frente, onde estavam os bandeirantes. Ela caiu sentada, o barulho a havia atordoado. Enquanto se recobrava, viu o Diabo Velho, que segurava seu pescoço banhado em sangue. E viu que ele apontava e gritava de forma ameaçadora para o alto. Foi quando uma tempestade teve início.

̶  Eu sou Iansã! A rainha do vento e da tempestade!  ̶  Os gritos de Odara se misturavam aos trovões e aos raios.

O céu noturno começava a receber colorações alaranjadas quando a tempestade parecia se acalmar. Os guaranis já haviam, quase todos, atravessado o rio. Os bandeirantes, com a pólvora molhada, preferiam, em sua maioria fugir. Alguns ficaram para proteger seu chefe, que gritava e balançava sua espada, ameaçando seus inimigos.

Bandeirantes e guaranis entraram em luta corporal. Os habitantes da Redução compensaram sua pretensa fraqueza com uma vontade muito maior que a dos seus oponentes. Em pouco tempo, só o Diabo Velho estava em pé.

̶  Índia maldita! Você vai morrer!  ̶  Só o ódio o animava. Tossindo e engasgando, suas ofensas se dirigiam a Eva, que o observava, acompanhada do seu povo. Ela, então, empunhou sua lança e se preparou para atravessá-lo, quando, de repente, mais uma flecha foi se alojar próximo à outra que o senhor de escravos trazia na garganta.

Todos se voltaram para trás e viram a jovem negra segurando um arco, ofegante. Ela também atravessara o rio.

[1] Onça-pintada, em guarani.

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YVY – Mistérios da Terra/ Capítulo 7

A procissão de acorrentados seguia silenciosa pela trilha. Vez ou outra, quando o cansaço fazia o ritmo da fila diminuir, se ouvia o som de um chicote ou de um grito, para forçar os infelizes a apertar o passo. Não fosse essa sinistra comitiva, se poderia acreditar que aquele lugar era o paraíso.

A trilha quase se escondia na densa vegetação. Ás vezes,  passava pela beira de um precipício e a paisagem de morros se descortinava, como se fossem dentes verdes da boca de um gigante. Para a garota que ganhou o nome de Odara, a floresta por onde andavam, lembrava um pouco a sua casa  ̶  lá no outro lado do oceano  ̶  exceto pelo sobe e desce das encostas.

As duas mulheres que se conheceram no navio negreiro, iam juntas, uma atrás da outra.

̶  Odara!

̶  Não me chame assim, já disse.

Jerônima, parecendo não se aborrecer com a resposta da companheira de jornada, continuou:

̶  Odara, você gostaria de lembrar como era sua vida antes?

A jovem ficou pensando na pergunta. Talvez, quisesse se lembrar, mas numa situação com aquela, era melhor não lembrar nada, mesmo. Imagine, ficar pensando nas pessoas que você perdeu, nas coisas que fazia… Seria muito mais dolorido.

̶  Olha, Jerônima…

Porém, ela não pôde concluir a frase, um homem à cavalo logo se aproximou.

̶  Cala a boca, negra!

E o chicote fez-se ouvir mais uma vez, próximo aos ouvidos, fazendo as mulheres se encolherem e apertarem o passo.

Um mês de caminhada. Esse foi o tempo que levou para chegarem ao seu destino. Uma grande fazenda, localizada em uma planície, cercada por morros verdejantes. Ao chegar, a coluna começou a se dispersar. Ordens eram dadas, cada qual buscava realizar seus afazeres, descarregar os animais, levá-los para beber água, guardar mantimentos, entre outras coisas. Quanto aos aprisionados, o lugar deles era o porão da grande casa, que era a sede da fazenda.

Um mês de caminhada. Esse foi o tempo que levou para chegarem ao seu destino. Uma extensa fazenda, localizada em uma planície, cercada por morros verdejantes. Ao chegar, a coluna começou a se dispersar. Ordens eram dadas, cada qual buscava realizar suas tarefas. Havia quem descarregava os animais, quem guardava as bagagens, ninguém ficava parado. Quanto aos aprisionados, o lugar deles era o porão da grande casa, que era a sede da fazenda.

Lá dentro, Odara recebeu, de uma senhora negra, um prato de madeira com uma farinha branca, que ela não conhecia. Também recebeu uma laranja. A senhora a ensinou a pôr a farinha na boca com a mão e a espremer a laranja para ajudar a engolir. Essa foi sua primeira refeição naquele lugar.

Não muito longe dali, dois homens levavam seus cavalos ao estábulo. Um deles avistou uma figura na varanda da casa grande, procurando não chamar muito a atenção, ele olhou para o parceiro e fez um movimento de cabeça.

̶  Olha lá. É Dom Raposo Velho, o dono da fazenda.

̶  Por que chamam ele de Diabo Velho?  ̶  O homem olhou para os lados antes de fazer a pergunta.

̶  Não sei, mas dizem que tem parte com o Diabo. É por isso que tem tudo o que tem.

Enquanto esses dois concluíam seus afazeres, Dom Raposo Velho, recebia os recém-chegados na varanda, para saber como foi a viagem e os negócios. Era um homem de barba cinzenta e bifurcada, como língua de lagarto. Alto e corpulento. Seu chapéu de abas largas escondia a cabeça calva.

O sol nem havia aparecido por detrás dos morros verdes e Odara e Jerônima já estavam trabalhando. As duas foram designadas para as tarefas domésticas e tudo deveria estar pronto antes do amo se levantar.

Odara viu os raios solares entraram pelas frestas da cozinha. Escutou canto de pássaros e pensou que aquela deveria ser uma linda amanhã. Puxou o trinco e empurrou uma das folhas da janela. Ao olhar para fora, um homem recém começava a ser chicoteado no pelourinho. As costas negras mal tinham sido marcadas. Ela voltou para dentro e fechou tudo, como estava antes.

Depois de servirem a mesa e do amo se alimentar, as duas começaram a organizar tudo. Esse era o dia-a-dia das mulheres que vieram do outro lado do oceano. Odara estava se conformando com aquilo, não que estivesse feliz. Mas, como não conhecera outra vida, ou, ao menos, não lembrava, seguia adiante.

Apenas não entendia a situação de sua colega, Jerônima, que não demonstrava a mesma tristeza que os demais escravos da fazenda. Isso a intrigava. Uma tarde, quando Jerônima, de joelhos, esfregava o chão da sala, percebeu que ela sorria.

̶  Como você pode sorrir? Eu não entendo.

A mulher, largou o pano ensaboado, colocou as mãos na cintura e olhou para Odara, sem desfazer o sorriso.

̶ Minha Querida, eu não me preocupo com esses homens. Eles não podem fazer nada contra mim, contra o que eu sou.

Odara parecia que estava mais confusa ainda. Bateu com as mãos nas coxas e abriu os braços. jerônima riu e tirou alguma coisa debaixo do pano que trazia enrolado na cabeça.

̶ Eles nunca poderão quebrar meu espírito, porque eu sei de onde vim.

Então, ela abriu a mão e mostrou para Odara o que havia escondido. Era um pingente. Tinha o formato de uma espada curva, com protetor no cabo.

As duas escravas faziam o seu trabalho e não chamavam a atenção do seu amo, Dom Raposo. Conhecido como Diabo Velho. Numa manhã, ele se aproximou delas.

̶  Estou indo para a Vila.  ̶  O tom de voz seco e o olhar frio paralisou as duas.

̶  Sim, meu senhor.  ̶  Elas responderam, de cabeça baixa.

Até a Vila, se levava uma manhã de cavalgada. O homem foi acompanhado de dois empregados, dois mamelucos descalços. Aquele era um lugar pouco povoado, se via casas de taipa espalhadas e roças de mandioca aqui e ali, a chegada do trio chamou a atenção de todos, mas ninguém ousava levantar a cabeça para encará-los. Apearam defronte a Igreja, construída no ponto mais alto da localidade. Era uma construção simples, apesar do seu tamanho avantajado. Possuía uma torre, que ficava ao lado esquerdo de quem entra na Igreja.

O Diabo Velho se encaminhou para o interior do prédio, enquanto os outros dois ficaram esperando. Lá dentro, sem tirar o chapéu, foi direto para o confessionário. Uma espécie de câmara de madeira, adornada com motivos cristãos, com uma única abertura feita de frestas verticais, de modo dificultar a visão para o seu interior. Também havia um suporte  para os prováveis pecadores se ajoelharem e falarem com o padre, lá dentro.

O recém chegado colocou seus joelhos no local determinado, tirou o chapéu, olhou para os lados e aproximou o rosto da abertura de frestas.

̶  Senhor, mandou me chamar?  ̶  A resposta demora uns instantes, então, se ouve uma voz rouca do interior do confessionário.

̶   O pacto foi quebrado.

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