YVY – Mistérios da Terra/Capítulo 11

Mulher negra

A longa coluna formada por carroças, carros de boi, mulas de carga e homens à pé e à cavalo partiu da fazenda de Raposo Velho há um mês. O homem conhecido como Diabo Velho encabeçava a marcha, montado no seu cavalo branco. Haviam chegado ao topo do imenso planalto no interior do continente. A viagem seguia, em meio a uma vasta floresta de pinheiros, em direção ao sul.

Odara estava fascinada com aquelas árvores. Eram muito altas, com os galhos encurvados para cima, bonitas de se ver. O problema era suas folhas secas pelo chão, eram duras e pontiagudas. Para quem, como Odara, andava descalço, era como pisar em pontas de facas.

No começo, quando soube que teria que acompanhar o patrão até o sul da colônia, ficou apreensiva, temendo o que pudesse acontecer no caminho. Mas, ao fim, se sentiu um pouco mais livre do que fechada na casa grande. Ao menos, poderia conhecer paisagens novas.

Ao seu lado, ia sempre Jerônima, sua companheira desde o embarque no navio negreiro. Lhe ajudava com a preparação da comida. Faziam ensopados, feijão com carne seca, pirão de milho, de mandioca. Para preparar as refeições, usavam os animais que o patrão mandou levar na viagem. Mas, às vezes, acontecia de um homem trazer alguma caça, abatida no meio do caminho. Cozinharam bugios, quatis, gambás, jacus, perdizes e muitos outros animais que Odara não conhecia.

Depois de muito tempo viajando, tanto que Odara não podia contar, ou não estava interessada nisso, pararam nas margens de um grande rio. Lhe disseram que o rio se chamava Uruguai. Ali, o Diabo Velho mandou montar acampamento.

̶  Negra, água!  ̶  Odara ouviu, agarrou as bolsas de couro de cabra e foi para o rio, Jerônima a acompanhou.

Chegando lá, as duas se agacharam para encher as bolsas. Quando a sua já estava bem cheia, Odara se levantou, pronta para ir embora. Jerônima permaneceu um pouco mais de tempo agachada.

̶  E então, vamos embora?  ̶  Disse Odara.

Jerônima olhou para a companheira, mas continuou na mesma posição. Então, voltou seu olhar para a outra margem do rio e suspirou.

̶  Você não gostaria de lembrar?

Odara estalou a língua, demonstrando impaciência.

̶   Já lhe disse que não quero lembrar nada! Essa é minha vida agora, eu sou uma escrava!

̶  Mas, e se você nem sempre tivesse sido uma escrava?

Odara não respondeu, abaixou a cabeça pensativa. Depois de um instante, fez um gesto, pedindo que a companheira se apressasse. Jerônima levantou-se com sua bolsa cheia d’água e voltaram para o local onde a coluna montava acampamento.

À noite, Odara se deitou embaixo de uma carroça, sobre uma esteira de palha trançada. Passara o dia fazendo comida e servindo aos homens. As pálpebras, pesadas, fecharam-se com facilidade. Mas não permaneceram assim por muito tempo.

No começo, ela pensou que aqueles sussurros eram parte de um sonho. Porém, as mãos que sacudiram seus ombros a convenceram do contrário. No escuro, ela reconheceu o rosto redondo de Jerônima.

̶  Odara, acorde. Precisamos fugir.

Fugir para onde? Ela quis perguntar. Não conheciam nada, nem ninguém naquele lugar. Quando escutou o som de vozes alteradas pelo álcool, mudou de ideia. Um frio percorreu seu corpo e seu instinto falou mais alto. Decidiu seguir a amiga.

̶  Negrinhaaaa! Cadê você? Tenho algo aqui que você vai gostar!

Era um grupo de homens que fazia parte da coluna liderada pelo Diabo Velho. Conhecidos como bandeirantes. Quando chegaram ao local onde Odara dormia, não a encontraram.

̶  Seus porcos! Eu disse para fazerem silêncio.  ̶  Repreendeu um deles.

Os homens a procuraram em volta, nas outras carroças e barracas. Sem sucesso. Enfim, deduziram que ela pudesse ter aproveitado a escuridão para escapar. Determinados a encontrá-la, buscaram os cães. Os animais esfregaram os focinhos na esteira que servia de cama para Odara. Então, um deles, farejando ao redor, encontrou o rastro da fugitiva. Todos se precipitaram mata adentro, em direção ao rio.

Odara e Jerônima tinham uma boa vantagem em relação aos bandeirantes, mas corriam de forma desajeitada pela floresta. Tropeçavam em raízes, empurravam galhos, pulavam sobre troncos caídos. Só as estrelas e a lua quebravam a escuridão. Odara lembrava da vez em que vira os homens do patrão violentarem uma outra negra da fazenda. Foi quando ela ia lavar roupa no riacho. De repente, enquanto caminhava, ouviu gemidos abafados de desespero e movimento nas folhagens. Ela se esgueirou para descobrir do que se tratava. As lembranças do que ela vira naquele dia, lhe davam mais ânimo para a fuga.

As duas já estavam se aproximando do meio do rio, quando os homens chegaram à margem. Odara acompanhava a amiga com um nado desajeitado, que ela nem ao menos sabia que era capaz de realizar. Ouviu os gritos, os xingamentos e os latidos e, logo depois, as balas que começaram a zunir nos seus ouvidos. Ela engoliu água e cuspia, enchia os pulmões com todo o ar que podia e continuava movimentando pernas e braços, atrapalhada pelos panos que vestia. Aquilo parecia interminável. Enfim, começou a sentir o chão firme sob os pés e se apressou mais ainda.

Quando saíram da água, as duas arfavam. Odara olhava para Jerônima como quem diz, “e agora?”. A amiga não teve tempo de responder coisa alguma. Escutaram mais uma bala assobiar na escuridão e Jerônima caiu. Desesperada, Odara a abraçou e tentou erguê-la, uma das suas mãos sentiu que não era só a umidade da água que molhava as costas da amiga. Arrastaram-se para dentro da mata.

Do outro lado, os bandeirantes tentavam avaliar a situação através da escuridão.

̶  Deixem isso! Não vou entrar nesse rio por causa de uma negra. Vai virar comida de onça, agora.

Após tropeçarem por mais alguns metros, as duas se sentiram seguras o bastante para descansar. Odara escorou a amiga embaixo de uma árvore de raízes grossas e sentou-se ao seu lado. Jerônima tinha o pingente de espada no pescoço. Arrancou ele e o ofereceu para Odara.

̶  Tome, minha querida. Lembre-se, você não é uma escrava.

Odara agarrou o pingente e encostou a cabeça no ombro da amiga. Quando o dia amanheceu, apenas Odara se acordou. Sacudiu Jerônima e percebeu, depois de um tempo, que estaria sozinha dali para frente. Observou em volta, como se guardasse os detalhes daquele lugar. Então, olhou uma última vez para a companheira de tantas jornadas, amarrou o pingente no pescoço e começou a caminhar em direção ao sul.

Os bandeirantes

Bandeirantes

Considerados como heróis, principalmente no estado de São Paulo, os bandeirantes representaram o principal flagelo para os povos indígenas. Desbravando o interior do Brasil atrás de escravos, eles mataram, estupraram, roubaram, incendiaram aldeias e voltavam para São Paulo com seus espólios. Foram eles que destruíram a redução de Guaíra e outras. Foram escolhidos como os inimigos de Eva na nossa série. Leia a página 4 aqui.