Flavio Colin: O Brasil em quadrinhos

Por Rafael.

Quantas histórias, lendas, “causos”, dramas e comédias vividos e narrados pelo nosso povo! Quantas histórias em quadrinhos podem ser desenhadas e escritas revelando nossas características, nossa maneira de ser e viver! A nossa história está repleta de figuras e episódios fabulosos(…) Até hoje se fazem filmes e histórias em quadrinhos sobre o faroeste, a corte do Rei Arthur, os Cavaleiros da Távola Redonda… Eu poderia citar dezenas de episódios, destacar dezenas de figuras que seriam perfeitamente quadrinizáveis.

O trecho acima foi tirado das memórias do quadrinista brasileiro Flavio Colin, no álbum Caraíba, lançado pela editora Desiderata, em 2007. Nele, notamos a sua preocupação em apresentar aspectos da história e cultura nacional em seus trabalhos. Essa foi uma constante na carreira desse autor, nascido no Rio de Janeiro, mas que se criou e trabalhou em cidades da região sul do Brasil.

Flavio Colin veio ao mundo no ano de 1930, concluiu seus estudos primários na cidade de Porto União, em Santa Catarina. Já nessa época se destacava como artista na sala de aula. Conseguiu seus primeiros trabalhos nos quadrinhos na antiga Rio Gráfica e Editora, no ano de 1956. Se destacou desenhando As Aventuras do Anjo (quadrinização de uma novela radiofônica de sucesso nos anos 60) e O Vigilante Rodoviário, baseado na primeira série de TV brasileira, também nos anos 60. Para conhecer mais sobre esse autor, você pode ler uma entrevista que ele concedeu ao site Universo HQ.

A primeira lembrança que tenho do trabalho de Colin foi muito marcante para mim. Muitos que, como eu, foram criança nos anos 80, devem lembrar de uma História em Quadrinhos (HQ) que era distribuída pelos postos Ipiranga do Rio Grande do sul. A HQ se chamava A Guerra dos Farrapos e trazia a dita “epopeia farroupilha”, com seus heróis, grandes batalhas, reviravoltas e tudo mais. Os desenhos tinham um traço marcante, como poucos artistas conseguem. Naquela época, vivia no interior do Rio Grande do Sul e essa cultura “gaúcha”, de cavalos, peleias, chimarrão, etc, povoavam o imaginário de todos. Me imaginava cavalgando, de lança em punho contra o exército imperial. Mais tarde, já adolescente, encontrei novamente com aquele mesmo traço vigoroso, preciso, em uma HQ de terror. Sabia que já tinha visto o trabalho daquele desenhista antes.

O desenho de Flavio Colin é assim, marcante. Procurando na internet, você vai achar muitas pessoas falando sobre o trabalho desse premiado quadrinista. Infelizmente, ainda que tenha muito reconhecimento por parte de seu público e colegas de profissão, o mesmo não se deu em relação ao mercado editorial brasileiro, até o dia do seu falecimento, no ano de 2001. E essa era uma reclamação dele. O pouco valor que se dá às “coisas do Brasil”, nossa cultura, história, nossos personagens, nossas paisagens, mitos, entre outras coisas. Colin sonhava com um público brasileiro que pudesse se ver em uma HQ e se identificar. Podemos pensar que, assim, construiríamos um povo, uma identidade nacional, que talvez ainda não esteja tão consolidada. Mas, isso é uma outra discussão.

Tenho alguns trabalhos de Colin na minha coleção:

  • O Caraíba, 2007. Com história e desenhos do próprio,
  • Estórias Gerais, 2012. Com histórias de Wellington Srbek e desenhos de Flavio Colin,
  • Fawcet, 2000. História de André Diniz e desenhos de Flavio Colin,
  • Histórias avulsas publicadas no fanzine AHQB, publicação dedicada aos quadrinhos da antiga editora Grafipar, dos anos 70 e 80.

Em YVY, concordamos com Flavio Colin, e queremos trazer aspectos pouco explorados da nossa história e cultura, nacional e latino-americana, para nossa série. Conheça o trabalho desse mestre dos quadrinhos nacionais. Você não vai se arrepender.

Flavio Colin

 

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O Gualambau

Por Rafael.

Já comentei, aqui no blog, sobre uma visita que fiz ao Paraguai no último verão. Foi quando comentei de um livro sobre lendas paraguaias que trouxe de lá. Agora, gostaria de comentar sobre outra aquisição feita nessa mesma ocasião.

Se trata do livro de contos do escritor Augusto Roa Bastos, do qual nunca tinha ouvido falar. Um escritor paraguaio, premiado e condecorado em países como Espanha, França, Cuba, Chile, Argentina e no seu próprio país. Para comentar rapidamente sobre ele, pois sua obra não é exatamente o objeto deste artigo, destaco que em seus contos, aparece muito da realidade do seu país, sobretudo das pessoas do campo.

Em um desses contos, Los Carpincheros, o autor nos apresenta o exemplo de uma das tradições folclóricas do Paraguai, que não vem ao caso agora. O fato é que um dos personagens, em determinado momento, usa um instrumento, que é descrito como um arco, cuja uma das pontas, atravessa um cabaça. O autor revela que esse instrumento se chama Gualambau. Essa não é a descrição de um berimbau? Mas ele não é de origem africana? Foi o que pensei. Então, lá fui eu para o google, desvendar esse mistério.

O pouco, quase nada, que encontrei, fala que o Gualambau é um instrumento da tradição mbya guaranipossivelmente tendo sindo assimilado de outra cultura. Quem sabe, quando houve algum encontro com povos de origem africana, em algum momento do passado. Nunca vi ninguém do povo mbya do Rio Grande do Sul tocando esse instrumento, de modo que, se isso for verdade, talvez diga respeito ao povo mbya do Paraguai, ou sabe-se lá.

Aqui estão dois links:

– Diccionario de musica del Paraguay;

-Una Antropóloga en la Luna;

Pesquisando no youtube, queria ver se encontrava alguém tocando esse berimbau paraguaio, encontrei um grupo de música folclórica do Paraguai. O grupo se chama Peteke Peteke e um dos seus integrantes toca o curioso gualambau. Você pode conferir no vídeo a seguir:

augusto roa bastos

Capa do livro de Augusto Roa Bastos, que trouxe do Paraguai.

Guarani

Por Rafael.

guarani

Recentemente, meu parceiro de projeto YVY, o Ricardo Fonseca, me mandou um link para uma História em Quadrinhos sensacional que vou resenhar minimamente aqui pra vocês.

A chamada Guerra do Paraguai, salvo exceções, é pouco tratada nos quadrinhos nacionais, porém, temos aqui essa bela obra dos argentinos Diego Agrimbau (roteiro) e Gabriel Ippóliti (arte) que trata desse tema de grande importância para a história do Conesul.

A obra se chama Guarani e traz as aventuras do fictício fotógrafo francês Pierre Duprat que acompanha o exército argentino até o coração da República Paraguaia. Duprat é especialista em registrar povos nativos e o seu modo de vida, carrega consigo várias fotos tiradas na África. Ele quer encontrar representantes do povo guarani para aumentar seu acervo fotográfico. Ao chegar ao seu destino, acaba conhecendo profundamente a cultura e o modo de vida guarani.

Porém, durante esse caminho, se depara com o horror que foi a Guerra do Paraguai, conhecida pelos paraguaios como Guerra Grande. Em especial, testemunha a horrenda batalha que ficou conhecida como Batalha de Acosta Ñu, Acontecida no final do conflito, quando o exército paraguaio já não contava com mais soldados para continuar lutando, apelando, dessa forma, para o recrutamento de crianças. Nesse dia, milhares de soldados da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) enfrentaram um contingente paraguaio composto por menores de 15 anos na sua maioria. A pouca idade dos soldados paraguaios não diminuiu a vontade de lutar de seus inimigos, terminando, então, numa carnificina atroz. O exército brasileiro era comandado pelo Conde D’Eu, de nacionalidade francesa, casado com a princesa Isabel.

Duprat bem que tenta registrar aquela vergonhosa “batalha”, porém lhe foi ordenado pelo Conde D’Eu que destruísse esses registros, ficando, assim, esquecido na história brasileira esse absurdo protagonizado pelo nosso exército. A Batalha de Acosta Ñu se deu no dia 16 de agosto de 1869, nessa data é celebrado o Dia da Criança no Paraguai.

Na verdade, não existe uma edição brasileira dessa HQ, tive acesso a uma versão “pirata”, cujo link, para fins não-lucrativos, deixo aqui.

Até a próxima!

 

Sepé Tiaraju

Por Rafael.

sepé tiaraju

Uma das páginas da HQ.

Muitos conhecem a história do cacique guarani Sepé Tiaraju. Aqui no blog ele foi citado em uma postagem. Recentemente, descobri uma publicação da Câmara dos Deputados de Brasília, do ano de 2010, homenageando essa figura que agora se encontra no “Panteão dos Heróis da Pátria”, por iniciativa do então deputado federal, Marco Maia, do PT.

Não sei, exatamente, que “pátria” Sepé teria defendido. Acredito que não uma que escraviza negros e índios. Porém, a publicação comemorativa da ocasião, lançada pela Câmara, é uma História em Quadrinhos de autoria de Luiz Gatto (roteiro) e Plínio Quartim (arte), muito instrutiva e pronta para ser usada em escolas como base para um debate. A história exagera um pouco na questão da harmonia entre jesuítas e guaranis, como se os últimos tivessem aderido “naturalmente” ao cristianismo, mas a obra não perde importância. Pode ser baixada no seguinte link.

Capitão Mouro

Por Rafael

capitão mouro

Capa do livro.

Falando sobre influências para a série YVY, hoje trago um livro, chamado Capitão Mouro, de autoria de Georges Bourdoukan, publicado em 2001 pela editora Casa Amarela. Meu primeiro contato com essa obra foi no ano de 2012, achei na biblioteca da escola onde trabalhava e me interessei pela história. Depois de lê-la, minha cabeça fervia.

O livro conta a história do Capitão Karim Ibn Ali Saifudin, muçulmano da cidade de Granada, Espanha, que, no final do século XVII, por um desses acasos do destino, vai parar em terras brasileiras. Uma vez lá, se depara com a sociedade escravista colonial e se espanta com tudo que vê. Depois de idas e vindas, vai parar no Quilombo dos Palmares e ajuda os quilombolas com seus conhecimentos de arquitetura, medicina e táticas militares.

Bourdoukan escreveu um romance inspirado em um documento que ele encontrou, por acaso, durante uma pesquisa que realizava. Era uma carta que um governador da capitania de Pernambuco escreveu para a coroa de Portugal. Nela, ele comentava sobre um mouro que estaria ajudando os negros de Palmares a levantar fortificações. Um tempo depois, ele foi pesquisar sobre o tal mouro. Atravessou o Atlântico atrás dessa história, encontrou bastante coisa e preencheu os vazios com uma narrativa ficcional.

O impressionante da história que Bourdoukan escreve é a brutalidade dos bandeirantes, sobretudo de Domingos Jorge Velho, o famoso Anhaguera, o Diabo Velho. Essa figura muito festejada em certa historiografia brasileira, ganhando nome de rodovia em São Paulo, fez fama caçando indígenas e negros fugidos. Fazia isso com uma violência sem precedentes, Hitler ficaria chocado com esse nosso “herói nacional”. O Diabo Velho de Bourdoukan me pareceu que seria um excelente antagonista para Eva. Sendo assim, trouxemos ele para nossa série. Acompanhe que você saberá mais.

bandeirantes

O Diabo Velho, vilão de YVY, no traço de Ricardo Fonseca.

Nheçu: no corredor central (resenha)

Por Rafael.

nheçu

É bem conhecida, entre os habitantes do Rio Grande do Sul, a história do cacique Sepé Tiarajú, que liderou os guaranis na luta contra os impérios espanhol e português para defender os Sete Povos das Missões.

Uma figura menos popular é a do cacique Nheçu. Esse personagem perdido da história do Rio Grande do Sul foi poucas vezes retrato na bibliografia historiográfica ou literária, e quase sempre figurando como vilão. Uma destas raras obras é o livro Nheçu – no corredor central, do escritor Barbosa Lessa, publicado pela Editora do Brasil, em 1999.

Numa linguagem literária, um pouco voltada para o público juvenil, o livro traz o dia-a-dia dos habitantes de uma aldeia guarani próxima ao rio Uruguai, numa área conhecida como colina do Maçambará. Lá pelas tantas, chega na aldeia a notícia de que os “roupas-preta”, como são chamados os jesuítas, estão nas proximidades da aldeia. A notícia foi recebida com apreensão pelo povo. Temerosos, pois já tinham ouvido falar das histórias de escravidão que vinham logo depois da cristianização.

Nheçu foi um cacique que se opôs à influência cristã sobre os seu povo. Talvez por isso seja menos lembrado que Sepé Tiaraju, que era um guarani cristianizado. Em alguns livros, ele é colocado como responsável pela morte dos famosos “três mártires riograndenses”: os padres Roque Gonzales, Afonso Rodríguez e Juan de Castillo. Fundadores da redução de São Nicolau e outras. Mas, a história de Barbosa Lessa, o coloca como alguém que, ao mesmo tempo em que se opunha aos cristãos, respeitava muito a figura dos jesuítas, principalmente a do padre Roque Gonzales. Não tendo sido ele o fomentador da guerra que se travou entre os guaranis não-cristianizados e os outros, ainda que não tenha feito nada para evitá-la.

Com ilustrações de Fernando Merlo, a obra é uma boa referência inicial a esse personagem, contando também como uma forte pesquisa sobre o modo de vida original dos guaranis. Fica a dica.

Os bandeirantes

Bandeirantes

Considerados como heróis, principalmente no estado de São Paulo, os bandeirantes representaram o principal flagelo para os povos indígenas. Desbravando o interior do Brasil atrás de escravos, eles mataram, estupraram, roubaram, incendiaram aldeias e voltavam para São Paulo com seus espólios. Foram eles que destruíram a redução de Guaíra e outras. Foram escolhidos como os inimigos de Eva na nossa série. Leia a página 4 aqui.

Ideias para adiar o fim do mundo – Resenha

ideias para adiar o fim do mundo

O desastre ambiental no Brasil é visivelmente crescente. Vide os acontecimentos de Mariana e Brumadinho e o aumento do uso de agrotóxicos e do desmatamento. Somando-se a esses problemas, temos a desvalorização maior da vida humana, através da violência contra as minorias sociais e a intolerância a tudo que fuja dos padrões da sociedade de consumo. Muitos têm a impressão de que vamos direto para o abismo. Eu me incluo nessas pessoas.

Trazendo um pouco de alento a esse crítico momento em que vivemos, começa a se destacar, entre outros, a figura de um intelectual de origem indígena, seu nome é Ailton Krenak. Não estou certo se ele se identificaria normalmente com os termos “intelectual” e “indígena”, mas, por falta de outros melhores, usarei estes mesmos. Pertencente ao povo Krenak, do interior do Brasil, sua visão se tornou muito importante para nós. Afinal, quem melhor do que os povos originários para nos ensinar a resistir às dificuldades?

E essa visão, podemos encontrar em um de seus livros, Ideias para adiar o fim do mundo, lançado, neste ano, pela Companhia das Letras. A obra, num formato pequeno, com cerca de 80 páginas, é a transcrição de três palestras dadas por Krenak em Portugal. De fácil leitura, o texto busca refletir sobre o modo como a sociedade dita moderna se relaciona com a Terra, enquanto nossa morada coletiva, e que planeta pretendemos deixar para quem virá depois de nós.

Para Krenak, vivemos o Antropoceno. Uma era em que, por meio da técnica, o ser humano domina o planeta, mas mais do que isso, se considera a única criatura merecedora de viver nele e usufruir seus frutos. Ao menos, uma parte da humanidade pensa assim, aquela parte que saiu da Europa para fazer as chamadas grandes navegações do século XV.

Talvez Krenak não seja o único pensador a levantar essa discussão, mas, partindo dele, um representante dos povos originários da América, vemos como essa ideia possui uma força. Segundo seu raciocínio, a sociedade branca europeia, que fundou o Brasil, por exemplo, vê a Terra como um simples recurso, que pode ser usada, exaurida, de onde podem tirar riquezas para o agora, sem pensar no amanhã. Tudo vira mercadoria, tudo vira lucro. Desde os animais, as plantas, a água, minérios, as próprias pessoas, etc. Só o homem, e o homem branco ocidental, tem valor.

Os povos indígenas, no Brasil, vem sofrendo esse processo de perda de território, perda de identidade, perda da própria vida, desde o ano 1500. E continuam existindo. Não nas mesmas condições de antes, claro, mas muitos ainda não foram exterminados. Portanto, quem melhor que eles para mostrar aos brasileiros como resistir?

Para eles, a terra é como a mãe provedora de vida. Cada ser vivo, cada rio, cada montanha têm sua importância. Então, imagine o que o povo Krenak, que vive às margens do rio Doce, sentiu quando viu seu precioso rio, considerado como um avô, tomado por uma avalancha de lama tóxica, quando da tragédia de Mariana. Imagine o que os Ianomami sentem ao ver a mineração invadir seu território, em meio à floresta amazônica. Ainda assim, esses povos não pensam em desistir de suas vidas, desistir de si mesmos. Poderíamos pensar um pouco como eles?

Ailton Krenak fala em adiar o fim do mundo. O fim do mundo para a humanidade, ao menos, porque a Terra seguirá em frente. Nem sempre habitamos esse planeta e podemos deixar de habitá-lo algum dia. De qualquer modo, para muitos povos originários, a chegada dos europeus a este continente, foi o fim do mundo. Foi a queda deles. O autor usa a metáfora do fim do mundo como uma queda. E podemos adiar a nossa queda, fazê-la mais suave, se tivermos paraquedas.

Que paraquedas são esses? Krenak coloca que eles podem ser encontrados nos sonhos. Não sonho como algo inalcançável ou pertencente ao mundo do delírio. Mas, sim, no sentido de uma outra visão de mundo, de vida. Buscar sonhar com uma outra forma de relação entre as pessoas e das pessoas com a Terra. Afinal, que mundo queremos deixar para nossos filhos e netos? Somos capazes de produzir outra imaginação de mundo, diferente desse, de consumismo, de violência, de ganância, de miséria? Muitos já disseram isso, mas não temos outra saída.

Recomendo a leitura e a reflexão. Por que não podemos buscar outras formas de pensar?