Ideias para adiar o fim do mundo – Resenha

ideias para adiar o fim do mundo

O desastre ambiental no Brasil é visivelmente crescente. Vide os acontecimentos de Mariana e Brumadinho e o aumento do uso de agrotóxicos e do desmatamento. Somando-se a esses problemas, temos a desvalorização maior da vida humana, através da violência contra as minorias sociais e a intolerância a tudo que fuja dos padrões da sociedade de consumo. Muitos têm a impressão de que vamos direto para o abismo. Eu me incluo nessas pessoas.

Trazendo um pouco de alento a esse crítico momento em que vivemos, começa a se destacar, entre outros, a figura de um intelectual de origem indígena, seu nome é Ailton Krenak. Não estou certo se ele se identificaria normalmente com os termos “intelectual” e “indígena”, mas, por falta de outros melhores, usarei estes mesmos. Pertencente ao povo Krenak, do interior do Brasil, sua visão se tornou muito importante para nós. Afinal, quem melhor do que os povos originários para nos ensinar a resistir às dificuldades?

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E essa visão, podemos encontrar em um de seus livros, Ideias para adiar o fim do mundo, lançado, neste ano, pela Companhia das Letras. A obra, num formato pequeno, com cerca de 80 páginas, é a transcrição de três palestras dadas por Krenak em Portugal. De fácil leitura, o texto busca refletir sobre o modo como a sociedade dita moderna se relaciona com a Terra, enquanto nossa morada coletiva, e que planeta pretendemos deixar para quem virá depois de nós.

Para Krenak, vivemos o Antropoceno. Uma era em que, por meio da técnica, o ser humano domina o planeta, mas mais do que isso, se considera a única criatura merecedora de viver nele e usufruir seus frutos. Ao menos, uma parte da humanidade pensa assim, aquela parte que saiu da Europa para fazer as chamadas grandes navegações do século XV.

Talvez Krenak não seja o único pensador a levantar essa discussão, mas, partindo dele, um representante dos povos originários da América, vemos como essa ideia possui uma força. Segundo seu raciocínio, a sociedade branca europeia, que fundou o Brasil, por exemplo, vê a Terra como um simples recurso, que pode ser usada, exaurida, de onde podem tirar riquezas para o agora, sem pensar no amanhã. Tudo vira mercadoria, tudo vira lucro. Desde os animais, as plantas, a água, minérios, as próprias pessoas, etc. Só o homem, e o homem branco ocidental, tem valor.

Os povos indígenas, no Brasil, vem sofrendo esse processo de perda de território, perda de identidade, perda da própria vida, desde o ano 1500. E continuam existindo. Não nas mesmas condições de antes, claro, mas muitos ainda não foram exterminados. Portanto, quem melhor que eles para mostrar aos brasileiros como resistir?

Para eles, a terra é como a mãe provedora de vida. Cada ser vivo, cada rio, cada montanha têm sua importância. Então, imagine o que o povo Krenak, que vive às margens do rio Doce, sentiu quando viu seu precioso rio, considerado como um avô, tomado por uma avalancha de lama tóxica, quando da tragédia de Mariana. Imagine o que os Ianomami sentem ao ver a mineração invadir seu território, em meio à floresta amazônica. Ainda assim, esses povos não pensam em desistir de suas vidas, desistir de si mesmos. Poderíamos pensar um pouco como eles?

Ailton Krenak fala em adiar o fim do mundo. O fim do mundo para a humanidade, ao menos, porque a Terra seguirá em frente. Nem sempre habitamos esse planeta e podemos deixar de habitá-lo algum dia. De qualquer modo, para muitos povos originários, a chegada dos europeus a este continente, foi o fim do mundo. Foi a queda deles. O autor usa a metáfora do fim do mundo como uma queda. E podemos adiar a nossa queda, fazê-la mais suave, se tivermos paraquedas.

Que paraquedas são esses? Krenak coloca que eles podem ser encontrados nos sonhos. Não sonho como algo inalcançável ou pertencente ao mundo do delírio. Mas, sim, no sentido de uma outra visão de mundo, de vida. Buscar sonhar com uma outra forma de relação entre as pessoas e das pessoas com a Terra. Afinal, que mundo queremos deixar para nossos filhos e netos? Somos capazes de produzir outra imaginação de mundo, diferente desse, de consumismo, de violência, de ganância, de miséria? Muitos já disseram isso, mas não temos outra saída.

Recomendo a leitura e a reflexão. Por que não podemos buscar outras formas de pensar?

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Cachimbo guarani

petyngua

O petyngua, o cachimbo guarani, é um artefato de uso místico, ritualístico, mas também usado em momento de lazer. Alguns petynguas são produzidos para serem comercializados, mas outros não, os que são usados exclusivamente nos rituais. Aqui na série, Eva usa seu petyngua para verificar o significado do sonho que ela teve. Não necessariamente o uso do instrumento é esse, na realidade. Leia a página aqui.

O Despertar

Vinheta de quadrinhos

Página 2 de “Êxodo”! Aqui vemos nossa personagem despertando de um sonho. Ela passa o resto do tempo pensando no seu significado. Na cultura guarani, a leitura e interpretação dos sonhos é muito importante, influenciando na vida da comunidade e nas suas decisões, nos nomes das crianças, entre outras coisas. Acompanhe a página aqui.

Rio Ijuí

Por Rafael.

rio ijuí

E vamos para mais um rio guarani. Desta vez, o rio Ijuí, cuja antiga grafia se dava como Yjuhy. Algumas fontes na internet colocam seu significado como “rio das águas claras”, outros como “rio das águas sagradas”. É difícil dizer. No dicionário Guarani-Espanhol, de Natalia Krivoshein de Canese e Feliciano Acosta Alcaraz, encontramos a palavra ju, que pode significar “amarelo”. O que nos reportaria a “rio das águas amarelas”: Y=rio ou água, Ju=amarelo, Y=rio ou água. Mas isso é só especulação. O que importa é que esse majestoso rio, que nasce próximo ao município de Santo Augusto, em meio ao planalto sul-rio grandense, abastece uma população de cerca de 342 mil pessoas antes de atingir sua foz no rio Uruguai, oeste do Rio Grande do Sul.

Foi no vale do rio Ijuí que se levantaram dois dos chamados Sete Povos das Missões. As reduções jesuítico-guaranis do Rio Grande do Sul, São Nicolau e Santo Ângelo. A primeira, fundada pessoalmente pelo famoso padre paraguaio, Roque Gonzales. O “mártir das missões”, morto por guaranis não cristianizados, cujo líder era o cacique Nheçu. Essa história vai render uma postagem específica, estou só juntando material para isso.

Siga acompanhando as histórias dos rios gaúchos no nosso blog. Até a próxima!

Conheça outros rios: Rio Taquari, Rio Caí, Rio Gravataí, Rio Jacuí.

Servindo ao Rei

evaEnfim, hoje começamos o terceiro episódio de YVY. Com o título de Êxodo, esta história traz nossa protagonista, Eva, tentando ajudar o povo de uma redução jesuítico-guarani a escapar da fúria assassina de bandeirantes. A aventura começa com Eva vivendo um dos seus principais traumas.

Comece a ler!

Rio Taquari

Por Rafael.

rio taquari

Continuando nossa série sobre rios com nomes guarani, hoje falaremos um pouco sobre o rio Taquari, localizado no estado do Rio Grande do Sul.

Acredita-se, segundo algumas fontes, em duas origens para o nome do rio, as duas ligadas ao idioma guarani. Significaria, por um lado, “rio das taquaras” (Takuara + Y= rio ou água) e, por outro, pode querer dizer apenas “pequena taquara”, pois a párticula “i” no final das palavras serve como diminutivo na língua guarani. De qualquer modo, percebe-se que a palavra “taquara”, em português, é derivada diretamente de “takuara”, que significa bambu.

O rio Taquari tem sua nascente no município de Cambará do Sul, no extremo nordeste do Rio Grande do Sul. Aí, ainda tem o nome de Rio  das Antas. Vai se transformar em Taquari, de fato, 390 km depois, quando o seu curso chega próximo ao município de São Valentim do Sul, quando recebe as águas do arroio Carreiro. Então, o rio vai correr mais 140 km, desaguando em sua foz, no rio Jacuí. Ao todo, são 530 km.

Ao deixar as partes mais altas do estado (os campos de cima da serra) e começar a adentrar o que seria a Depressão Central do Rio Grande do Sul, o rio começa a correr em terreno mais suave, formando planícies aluviais muito férteis. Nessas áreas, foram encontrados resquícios de ocupação guarani.

Supõe-se, de acordo com estudos, que essa área do rio Taquari tenha começado a ser ocupado pelos guaranis no início da era cristã. Esse povo teria iniciado sua jornada desde a região amazônica ao sul, à mais de 2000 anos atrás. A porta de entrada desses grupos migrantes, para o que era o Rio Grande do Sul, teria sido o curso dos grandes rios encontrados por aqui. Teriam chegado através do rio Uruguai, daí então, se formaria um grande eixo de movimentação com o rio Ijuí e o Jacuí, por onde, então, teria atingido o rio Taquari e se instado nele.

Essa forma de expansão guarani se deu por suas características de povo agricultor, pois procurava as melhores terras para o cultivo de milho e mandioca, além de possuir grande aptidão para a navegação. Os guarani foram ocupando o Rio Grande do Sul, através desses grande e médios rios, até chegar às grandes lagoas e ao mar. As partes mais altas do planalto, eram dominadas por outro povo, os kaingang e xokleng. Os campos do sul eram território charrua e minuano.

Até a próxima.

Rio Caí.

Rio Gravataí.

Rio Jacuí.

Rio Caí

Por Rafael.

rio caí

Segundo algumas fontes, a palavra Caí, que denomina esse importante rio gaúcho, vem do guarani, Ka’a (Mata) e Y (rio). Ou seja, rio da mata, ou rio da floresta. Ainda que tenha essa suposta origem guarani no nome, esse rio, que está entre os mais poluídos do Brasil, tem uma forte ligação com outro povo indígena do sul do Brasil, o povo kaingang. Isso porque sua nascente se encontra no antigo território de domínio desse povo do tronco linguístico macro-jê, o planalto sul-rio grandense.

Rio Gravataí

Nascendo no município de São Francisco de Paula, ele percorre cerca de 250 km até desaguar no lago Guaíba, em Porto Alegre. Nesse caminho, ele recebe pesadas cargas de esgoto sem tratamento e de agrotóxico, das lavouras em locais de preservação ambiental. Mas, antes do rio receber esse tratamento agressivo, foi no seu vale que chegaram os primeiros colonos alemães, no início do século XIX. Inciando-se, assim, um duradouro conflito entre kaingangs e o projeto colonial, que durou até o final desse mesmo século.

Rio Jacuí

Esse conflito gerou muitas histórias, uma delas é a história do chamado Luis Bugre, um kaingang criado entre os colonos alemães, que será protagonista daquilo que ficou conhecido como a tragédia da família Versteg, uma família de imigrantes alemães que foi sequestrada por kaingangs, em meados do século XIX. Essa história é muito interessante e merece ser pesquisada.

Deixo, com vocês, algumas referências.

De Coroados a Kaingangs (dissertação de mestrado)

As Vítimas do Bugre.

http://www.betaredacao.com.br/rio-cai-pode-morrer-em-uma-decada/

http://historiasvalecai.blogspot.com/2011/11/1260-rio-cai-nascentes-e-curso-superior.html

Rio Gravataí

Por Rafael.

rio gravataí

O rio Gravataí é responsável pelo abastecimento de mais de um milhão de habitantes, na região metropolitana de Porto Alegre. Nascendo no chamado Banhado Grande, uma área úmida entre os municípios de Gravataí e Viamão, ele percorre cerca de 34 km até sua foz no lago Guaíba.

O nome do rio, segundo algumas fontes, significaria rio dos gravatás (do idioma guarani, karaguatá, um tipo de bromélia, e Y, rio ou água). O rio emprestou seu nome ao município de Gravataí, o qual, ainda que muitos não saibam, possui sua história ligada à história do povo guarani.

No final das guerras guaraníticas, quando as missões jesuíticas foram destruídas pelas forças conjuntas de Espanha e Portugal, a população guarani que lá vivia se dispersou forçosamente pelo território. O governo português não sabia o que fazer com esse contingente populacional que ele mesmo desabrigou, e trouxe para uma área, próxima à Porto Alegre, conhecida como “campos de Viamão”. Lá procurou desenvolver uma política de assistência aos indígenas e, ao mesmo tempo, assimilação deles na sociedade colonial. Na verdade, foi uma espécie de extermínio lento que tentaram fazer com os guaranis.

Rio Jacuí

Ao mesmo tempo que os proibia de falar seu idioma e praticar sua cultura, o governo dava uma espécie de subsídio aos homens portugueses que quisessem casar com uma guarani, e, assim, deixar de gerar filhos guaranis para o futuro. Aí foi aberta a primeira escola pública do Rio Grande do Sul. Dedicada a ensinar português, catolicismo, bordado e outras tarefas domésticas às meninas. Os meninos também frequentavam essa escola. Além disso, o governo “alugava” os indígenas para trabalhos nas estâncias da época, pois eram pessoas que possuíam muito conhecimento do trabalho no campo, adquirido no período em que viviam nas reduções.

Essa experiência, conhecida como “Aldeia dos Anjos”, não durou muito, pois os guaranis não suportaram viver sob esse regime e se dispersaram novamente. No início do século XIX, colonos açorianos ocupam a área desse município.

Você pode consultar a seguinte bibliografia:

  • Índios da Aldeia dos Anjos;
  • A Aldeia Nossa Senhora dos Anjos;
  • Os Índios da Aldeia dos Anjos – Gravataí, Século XVIII

Obrigado e até a próxima!

 

Êxodo! Terceiro episódio de YVY.

êxodo

Capa do terceiro episódio, arte de Ricardo Fonseca.

Dia 5 de julho, irá ao ar, aqui no site, o terceiro episódio de YVY. Nele, Eva tem que ajudar os guaranis de uma redução a escapar da fúria assassina dos bandeirantes. Já tá rolando o evento no facebook, se marca lá e é só aguardar.

Obrigado e até a próxima!

Rio Jacuí

Por Rafael.

rio jacuí

Vamos começar uma série nova no blog, sobre importantes rios do sul do Brasil que se ligam, como você perceberá, à história e cultura do povo guarani. O primeiro será o grande e castigado rio Jacuí.

Numa rápida busca pela internet, encontramos o que é considerado o significado de Jacuí, rio dos Jacus, pássaro nativo do continente americano. O nome do rio deriva do guarani, yacuy ( yacu,a ave a que nos referimos antes, e y, água ou rio).

Desde sua nascente na região do planalto sul-riograndense, perto dos municípios de Passo Fundo e Marau, o rio Jacuí corre por 730 km, até desaguar no seu delta, no lago Guaíba, na capital do estado do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Atualmente, toda a área de sua bacia é densamente utilizada pela agricultura e pecuária. Também, na sua parte mais alta, é aproveitado para a geração de energia elétrica, como no município de Salto do Jacuí. Outra forma de exploração do rio, essa ainda mais predatória, é a extração de areia do seu leito para a construção civil. Dessa forma, o rio Jacuí agoniza.

Mas nem sempre a relação humana com o rio foi essa. Nas suas margens, estudiosos já encontraram resquícios da ocupação guarani, povo que batizou o rio e tirou seu sustento de suas águas. Atualmente, existem alguns territórios guarani demarcados na bacia do rio Jacuí.

Rio Gravataí

Mas, para mim, a coisa mais curiosa sobre esse rio foi quando li o poema épico o Uraguai. Nele, Basílio da Gama, o autor, nos conta a guerra que envolveu os impérios espanhol e português, de um lado, e os guaranis missioneiros, de outro. Em um trecho do livro, o exército português acampa às margens do rio Jacuí, durante sua marcha até as missões. Profundos desconhecedores da geografia do nosso continente, os invasores não sabiam que era época de cheia e foram pegos desprevenidos pela inundação de seu acampamento. O autor relata que os europeus tiveram que passar dias em cima das árvores e, quando as águas desceram, foram obrigados a voltar para o lugar de onde vieram, adiando assim, o ataque aos guaranis.

Grande rio Jacuí, engolindo os canalhas!

Até a próxima.