Lendas Paraguaias – El Caráu

Conhecido no Brasil como carão, e na América hispânica como caráu (em guarani, karãu), essa ave aquática habita os brejos e banhados do conesul. No Paraguai, e em áreas das províncias argentinas de Missiones e Corrientes, se conta a lenda do Carão, ou a leyenda del Karãu ou Caráu.

Segundo essa lenda, o carão era um jovem guarani que saiu para buscar remédio para sua velha mãezinha que estava muito doente, prestes a morrer. Acontece que o jovem encontrou uma festa no caminho e parou para ver o que estava acontecendo. Durante a festa, conheceu uma garota e se encantou por ela.

O jovem índio só queria saber da garota e esqueceu o remédio de sua mãezinha, que acabou morrendo. O problema é que ele entrou em um banhado, atrás daquela linda garota que conheceu na festa, e se perdeu, no meio da neblina. Hoje, o carão vive pelos pântanos chorando a perda de sua mãezinha.

Existem várias versões dessa lenda, a que contei, de forma resumida, se baseia no livro de Jorge Montesino, Leyendas y creencias populares del Paraguay. Caráu o Carão Continuar lendo

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Lendas do Paraguai

Por Rafael.

Na minha rápida visita ao Paraguai no último verão, trouxe este livro muito interessante, Leyendas y Creencias Populares del Paraguay, organizado pelo autor Jorge Montesino.

Como o título sugere, traz diversas histórias da mitologia que envolve a cultura paraguaia, como a lenda do milho, da mandioca, erva-mate, entre outras. Veremos quanta similaridade existe entre os povos paraguaio e brasileiro.

Começarei esta semana a falar das histórias deste livro aqui no blog, aguardem!lendas do paraguai

Tatu-Guaçu

Por Rafael.

Um personagem que me chamou a atenção no poema épico O Uraguai, que tratei em outro post, foi Tatu-Guaçu. Era um cacique guarani que lutou ao lado de Sepé Tiarajú
contra as forças conjuntas de Portugal e Espanha. Basílio da Gama o retrata como um poderoso guerreiro, que usava uma couraça de pele de jacaré nas batalhas.

Não sei se Tatu-Guaçu é um personagem fictício, criado por Basílio da Gama, ou se existiu de fato, não achei menção a ele em nenhum outro livro, ainda que minha pesquisa não tenha sido tão aprofundada.

De qualquer maneira, gostei dele e desenhei minha versão do Tatu-Guaçu para vocês apreciarem. Uma hora, descobrirei mais sobre ele.

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A Cor.

Por Rafael.

A Cor capa

Na última postagem, tratei de um trabalho paralelo à YVY em que estou envolvido. Hoje, trago o trabalho paralelo de Ricardo Fonseca, responsável pelos desenhos dos episódios 2 e 3, este último ainda não foi ao ar. Trata-se do livro A Cor, com roteiro e desenhos do Ricardo e com o tratamento digital de Dreyfus Soler nos tons de cinza, luzes e demais efeitos.

A história se baseia em um conto do cultuado escritor H.P. Lovecraft, chamado A Cor que veio do Espaço. Na Versão de Ricardo e Dreyfus, um meteoro atinge a terra e libera uma criatura que emana uma cor não existente na Terra. As pessoas sob a influência dessa cor apresentam um comportamento estranho e o mistério vai sendo desvendado por um advogado que investiga os impactos gerados pela construção de uma barragem em uma pequena cidade do interior dos EUA.

Podemos ver que a história se relaciona bem com nosso contexto atual, em que barragens ameaçam a vida de milhares de pessoas, ainda que Ricardo tenha começado a escrevê-la em 2014.

tira de quadrinhos

O livro foi lançado no último sábado, 16 de outubro, e essa primeira tiragem traz uma novidade interessante e que deu muito trabalho aos autores. As cores da criatura espacial foram pintadas à mão por Ricardo e Dreyfus, em cada exemplar, o que dá um toque único à cada livro. Mais informações no site da dupla. Não deixe de conhecer esse projeto.

Obrigado!

Quadrinhos Argentino-Brasileiros.

Por Rafael.

infierno grande

Hoje, gostaria de divulgar um projeto em que estou envolvido. Diferentemente de YVY, onde também sou roteirista, neste outro, minha função é só de desenhista. Me refiro à webcomic Infierno Grande.  Trata-se de uma história em quadrinhos de suspense/terror, escrita pelo roteirista Guido Barsi.

A história é inspirada em uma lenda do folclore argentino conhecida como El Familiar. Poderíamos dizer que é um tipo de lobisomem. Estou muito honrado de fazer parte desse esforço transfronteiriço e latino-americano para trazer à tona uma história tão peculiar.

Guido é um roteirista e editor envolvido em muitos projetos, você pode conhecê-los no site da sua editora Pi Ediciones.

Para ler Infierno Grande você pode clicar aqui, já encontra-se lá três capítulos da história, prevista para cinco capítulos.

Apoie o quadrinho latino-americano!

 

Os Guarani Mbyá

Por Rafael.

capa do livro os guarani mbyá

Lançado em agosto de 2015, o livro Os Guarani Mbyá, de Vherá Poty e Danilo Christidis, apresenta um olhar diferenciado sobre os guarani e sua cultura, possibilitando a desconstrução de ideias existentes sobre esse povo e sobre os indígenas em geral.

Com 176 páginas, o livro traz fotografias que buscam representar o modo de vida mbyá. Desde os momentos de trabalho, de confraternização, de descanso, até os espirituais. Podemos vê-los em suas tekoá (o termo guarani para aldeia), dentro de suas casas de taquara e das opy (casa de reza), fumando o petynguá (cachimbo), esquentando a água para o ka’a (chimarrão), entre outros momentos da vida.

O livro é resultado de uma relação iniciada entre os dois fotógrafos, ainda em 2008. Vherá, um guarani mbyá, e Danilo, um juruá (termo guarani para pessoas não-indígenas), conviveram em cerca de quinze comunidades guarani do Rio Grande do Sul durante a realização desse trabalho. As fotografias do livro já foram expostas em universidades e em várias cidades gaúchas.

Os Guarani Mbyá é um livro importante na luta pela defesa e valorização dos povos originários brasileiros e latino-americanos. Importante nesse momento em que vivemos uma realidade de ataques aos direitos indígenas.

Leia também:

Índios são índios?

Visita a Retomada Guarani

 

 

Geografia Indígena.

Por Rafael

geografia indígena

Fonte: Os Guarani Mbyá, de Vherá Poty e Danilo Christidis.

Você já reparou no mapa político da América do Sul? É só um mapa, não é mesmo? Nele, temos as linhas de fronteira entre cada país. Por exemplo, no sul do Brasil, temos uma junção de fronteiras entre três países, Paraguai, Argentina e Brasil. Nada de mais, existem outras fronteiras tríplices pelo continente.

Alguns podem dizer que o mapa apenas representa o espaço onde vivemos, por onde nos deslocamos fisicamente, apresentando as distâncias entre um ponto e outro. Para muitos, o espaço é só isso, a superfície sobre a qual nos movemos. E, se queremos melhor nos mover, podemos ter o auxílio do mapa.

O que muitos não sabem é que as linhas de fronteira que vemos em nossos mapas, foram riscadas sobre outras fronteiras, como mundos sobrepostos. Existe um outro povo, um outro mundo, uma outra cultura que, através do nosso espaço representado nos nossos mapas, enxerga outro espaço, outras fronteiras, que pertencem ao seu espaço próprio, soterrado pelo nosso, espaço branco ocidental, capitalista.

O povo mbyáguarani, uma ramo da grande nação guarani, habita, há cerca de 2000 anos, uma área que abrange o centro-sul do atual Paraguai, mais o nordeste da Argentina e o sul do Brasil. Coincidindo, aproximadamente, com a área do chamado Aquífero Guarani. Motivo pelo qual esse grande reservatório de água subterrânea ganhou esse nome.

Apesar de seu território inteiro ter sido ocupado por outra civilização, num processo de 500 anos, e muito do seu modo de vida ter sofrido alterações, os mbyá mantêm viva sua cultura e seus mitos. Muitos desses mitos, tratam do espaço onde vivem. Espaço físico, mas também espaço de identificação cultural.

Podemos dizer que os mbyá dividem seu mundo em quatro grandes unidades, divididas de acordo com sua cosmovisão. Segundo o antropólogo José Otávio Catafesto de Souza, o centro do mundo mbyá se chama Yvy Mbité (terra central), e surgiu quando baixaram as águas do grande dilúvio do início do mundo. Correspondendo ao território da atual República do Paraguai.

Deslocando-se para o leste, acompanhando o recuo das águas diluvianas, temos o Pará Miri (água pequena). Uma grande unidade cosmo-geográfica alagada. Por onde correm os rios Paraná e Uruguai, conhecida pelos brancos como mesopotâmia argentina. Corresponde, mais ou menos, ao território da província argentina de Misiones.

Continuando o caminho para leste, adentrando o que hoje seria a área central do território do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, temos o Tape (caminho), uma grande área de circulação, de deslocamentos.

O Tape é o caminho que leva à última unidade mais a leste, o Pará Guaçu (água grande), assim a cosmovisão mbyá se refere ao Oceano Atlântico. Para o Pará Guaçu recuou toda a água do dilúvio primordial. Para o leste, está o Paraíso, a Terra Sem Males ou, como eles dizem, Yvy Marae’y.

Nem toda a opressão que sofreram, nem as centenas de linhas e fronteiras que nossos cartógrafos traçaram sobre o seu mundo, apagou essa geografia mbyá. Uma geografia cósmica,

que vive no imaginário desse povo, em sua cultura, em suas histórias e mitos.

Mesmo a geografia branca aproveitou as denominações topológicas dos mbyá. Nossos mapas estão cheios de nomes guarani. Itapuã, Tapes, Canguçu, Quaraí, Taquari, Caí, Jacuí, Arambaré, Paraguai, Uruguai, Itaqui, Itajaí, Camaquã, Paraná, Sarandi, Sapucaia, Gravataí, são só alguns exemplos.

E então, gostou de saber um pouco mais sobre cultura guarani? Deixe seu comentário e vamos aprimorando nosso conteúdo.

Obrigado!

Fontes:

Os Guarani Mbyá, de Vherá Poty e Danilo Christidis.

Breves Aspectos Socio-ambientais da territorialidade Mbyá-Guarani no Rio Grande do Sul, artigo de autoria de Flávio Schardong Gobbi, Marcela Meneghetti Baptista, Rafaela Biehl Printes e Rodrigo Rasia Cossio. Faz parte da coletânea Coletivos Guarani no Rio Grande do Sul: territorialidade, interetnicidade, sobreposições e direitos específicos.

 

Salto do Yucumã.

Por Rafael.

Neste terceiro episódio de YVY, homenagearemos uma importante paisagem natural do interior do Rio Grande do Sul, salvo engano, destino turístico não muito badalado. Me refiro ao Salto do Yucumã, uma queda d’água localizada no rio Uruguai, a noroeste do estado gaúcho, divisa entre Brasil e Argentina.

salto do yucumã

Salto do Yucumã nos traço de Ricardo Fonseca.

O Salto do Yucumã chama a atenção, não tanto pela sua altura – muito menor que as cataratas do Iguaçu, por exemplo -, mas, sim, pela sua extensão, de mais ou menos 1,8 km. A atração se encontra no Parque Estadual do Turvo, lugar de preservação da antiga paisagem florestal da área, cercado atualmente por campos e campos de soja à perder de vista.

interior do parque do turvoIMG_6783

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Imagens do interior do parque. 

Para visitar o parque e admirar a beleza da queda d’água é recomendável ir num dia de tempo seco, pois, num dia chuvoso, a cheia do rio pode cobrir a queda, que não é muito alta. “Estragando” assim, o passeio. Foi o que aconteceu comigo, mas nada para se lamentar, pois o parque é lindo e conhecer parte da história do Rio Grande do Sul é outro atrativo a mais. Conhece a canção Balseiro do Rio Uruguai? Cantada pelo músico missioneiro Cenair Maicá, o refrão falava de uma história que eu nunca tinha entendido plenamente:

Oba, Viva, veio a enchente

o Uruguai transbordou

vai dar serviço pra gente.

Vou soltar minha barca no rio

vou rever maravilhas que

ninguém descobriu.

Apenas visitando o parque e lendo os banners pude entendê-lo. Ele se refere, lógico, à cheia do rio Uruguai, bem naquele trecho do salto. Com a enchente, o salto é coberto, permitindo a navegação das barcas no rio. No início do século XX, a principal atividade econômica daquela região era a extração da madeira, contribuindo muito para a diminuição que vemos hoje das áreas florestais. A madeira retirada era enviada para os mercados consumidores pelo rio, as próprias toras eram usadas como embarcação. Também era uma época de intercâmbio mais intenso entre os moradores das fronteiras de Brasil e Argentina. Com o esgotamento da atividade, anos depois, veio a soja, mas isso é outra história.

Um pouco do nosso trabalho em YVY também é fazer referência à nossa história e cultura latino-americanas e sul-brasileiras. Esperemos que gostem. Até a próxima!

banner informativo do parque do turvo.

 

 

A ameaça jesuítica! – O Uraguai, de Basílio da Gama.

jesuítas

Por Rafael.

Antes do advento do romance, a principal forma de narrativa circulante no mundo ocidental era o poema épico. Como exemplo, temos a Ilíada e a Odisseia, Os Lusíadas,  o Caramuru, entre outros. Neste post, e nos próximos, comentarei, brevemente, alguns aspectos de O Uraguai, poema épico lançado no ano de 1769, que narra a chamada guerra guaranítica, conflito que colocou os exércitos de Espanha e Portugal contra as reduções jesuítico-guaranis dos Sete Povos das Missões, instaladas, então, na margem oriental do rio Uruguai. Hoje, território do estado Rio Grande do Sul.

Vivenciamos, na atualidade, uma chamada “guerra de narrativas”. Aquelas discussões sobre “nazismo de esquerda”, sobre nunca ter havido ditadura no Brasil, sobre os portugueses não terem praticado a escravidão, sobre os próprios índios serem os destruidores do meio ambiente, etc. Ou seja, uma maneira de distorcer a História para que ela se esteja de acordo com determinada ideologia, determinada visão de mundo.

O Uraguai, escrito por Basílio da Gama, arrisco dizer, faz um pouco disso. Retratando, em seus versos, os jesuítas como ardilosos manipuladores dos inocentes guaranis. Estes, apenas pobres selvagens. Quanto a Gomes Freire, comandante das forças portuguesas, cabe o papel de valente general. Homem rigoroso, mas também sensível, que não sente  euforia por sua tarefa de exterminar milhares de pessoas. Outro elevado a condição de herói divino é o primeiro-ministro português, o Marquês de Pombal.

No século XVIII, a coroa portuguesa e a Cia. de Jesus não atravessavam um bom momento no seu relacionamento. Portugal vivia certos ares iluministas e o fim da ingerência da Igreja nos assuntos do Estado era conveniente, na época, para o Marquês, que não mantinha hábitos moralmente aceitos. Depois da realização do Tratado de Madrios jesuítas passaram a ser vistos como verdadeiros inimigos da Coroa portuguesa, acusados de estarem tramando um plano secreto para dominar o mundo. Lembrando muito a atualidade, com Olavo de Carvalho denunciando o chamado “Foro de São Paulo”, uma “conspiração comunista-bolivariana-gay-globalista internacional”.

Em um trecho do poema épico, no seu Canto Quinto, depois de invadirem São Miguel das Missões, Gomes Freire e seus homens adentram a catedral e admiram um afresco pintado na abóbada, assim Basílio da Gama relata:

Na vasta curva abóbeda pintara

  A destra mão de artífice famoso    

 Em breve espaço, e Vilas, e Cidades,

 E Províncias e Reinos. No alto sólio

   Estava dando leis ao mundo inteiro                                                                                                  A Companhia. (…)

A “companhia”, no caso, se refere a Cia. de Jesus, claro.

Assim é a História, escrita pelos vencedores.

Até a próxima.

Flor de Tuna

Por Rafael

Comum na região das missões e campanha, no estado do Rio Grande do Sul, a Flor de Tuna faz parte, há muito tempo, do cancioneiro gauchesco, vide Canto Alegretense. Com o nome científico de Cereus Hildmannianus a Tuna é uma cactácea que dá um fruto muito doce, com o qual é possível até fazer geleia. Como muitos outros representantes da fauna e flora nativa, essa planta é mais uma que se encontra ameaçada de extinção pelo cultivo da soja e da pecuária, ambos em larga escala.

É claro que a Flor de Tuna não ficaria de fora do universo de YVY. Aqui está ela na arte de Ricardo Fonseca.flor de tuna

Para conhecer mais, visite o link http://darcibergmann.blogspot.com/2013/03/tuna-um-dos-simbolos-do-pampa.html