Geografia Indígena.

Por Rafael

geografia indígena

Fonte: Os Guarani Mbyá, de Vherá Poty e Danilo Christidis.

Você já reparou no mapa político da América do Sul? É só um mapa, não é mesmo? Nele, temos as linhas de fronteira entre cada país. Por exemplo, no sul do Brasil, temos uma junção de fronteiras entre três países, Paraguai, Argentina e Brasil. Nada de mais, existem outras fronteiras tríplices pelo continente.

Alguns podem dizer que o mapa apenas representa o espaço onde vivemos, por onde nos deslocamos fisicamente, apresentando as distâncias entre um ponto e outro. Para muitos, o espaço é só isso, a superfície sobre a qual nos movemos. E, se queremos melhor nos mover, podemos ter o auxílio do mapa.

O que muitos não sabem é que as linhas de fronteira que vemos em nossos mapas, foram riscadas sobre outras fronteiras, como mundos sobrepostos. Existe um outro povo, um outro mundo, uma outra cultura que, através do nosso espaço representado nos nossos mapas, enxerga outro espaço, outras fronteiras, que pertencem ao seu espaço próprio, soterrado pelo nosso, espaço branco ocidental, capitalista.

O povo mbyáguarani, uma ramo da grande nação guarani, habita, há cerca de 2000 anos, uma área que abrange o centro-sul do atual Paraguai, mais o nordeste da Argentina e o sul do Brasil. Coincidindo, aproximadamente, com a área do chamado Aquífero Guarani. Motivo pelo qual esse grande reservatório de água subterrânea ganhou esse nome.

Apesar de seu território inteiro ter sido ocupado por outra civilização, num processo de 500 anos, e muito do seu modo de vida ter sofrido alterações, os mbyá mantêm viva sua cultura e seus mitos. Muitos desses mitos, tratam do espaço onde vivem. Espaço físico, mas também espaço de identificação cultural.

Podemos dizer que os mbyá dividem seu mundo em quatro grandes unidades, divididas de acordo com sua cosmovisão. Segundo o antropólogo José Otávio Catafesto de Souza, o centro do mundo mbyá se chama Yvy Mbité (terra central), e surgiu quando baixaram as águas do grande dilúvio do início do mundo. Correspondendo ao território da atual República do Paraguai.

Deslocando-se para o leste, acompanhando o recuo das águas diluvianas, temos o Pará Miri (água pequena). Uma grande unidade cosmo-geográfica alagada. Por onde correm os rios Paraná e Uruguai, conhecida pelos brancos como mesopotâmia argentina. Corresponde, mais ou menos, ao território da província argentina de Misiones.

Continuando o caminho para leste, adentrando o que hoje seria a área central do território do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, temos o Tape (caminho), uma grande área de circulação, de deslocamentos.

O Tape é o caminho que leva à última unidade mais a leste, o Pará Guaçu (água grande), assim a cosmovisão mbyá se refere ao Oceano Atlântico. Para o Pará Guaçu recuou toda a água do dilúvio primordial. Para o leste, está o Paraíso, a Terra Sem Males ou, como eles dizem, Yvy Marae’y.

Nem toda a opressão que sofreram, nem as centenas de linhas e fronteiras que nossos cartógrafos traçaram sobre o seu mundo, apagou essa geografia mbyá. Uma geografia cósmica,

que vive no imaginário desse povo, em sua cultura, em suas histórias e mitos.

Mesmo a geografia branca aproveitou as denominações topológicas dos mbyá. Nossos mapas estão cheios de nomes guarani. Itapuã, Tapes, Canguçu, Quaraí, Taquari, Caí, Jacuí, Arambaré, Paraguai, Uruguai, Itaqui, Itajaí, Camaquã, Paraná, Sarandi, Sapucaia, Gravataí, são só alguns exemplos.

E então, gostou de saber um pouco mais sobre cultura guarani? Deixe seu comentário e vamos aprimorando nosso conteúdo.

Obrigado!

Fontes:

Os Guarani Mbyá, de Vherá Poty e Danilo Christidis.

Breves Aspectos Socio-ambientais da territorialidade Mbyá-Guarani no Rio Grande do Sul, artigo de autoria de Flávio Schardong Gobbi, Marcela Meneghetti Baptista, Rafaela Biehl Printes e Rodrigo Rasia Cossio. Faz parte da coletânea Coletivos Guarani no Rio Grande do Sul: territorialidade, interetnicidade, sobreposições e direitos específicos.

 

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