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Índios são índios?

Por Rafael

índios

Por que os povos nativos do continente americano, que aí viviam antes da chegada dos europeus, são chamados de índios? Seria esse um termo adequado para designar toda uma população que habitava (ainda habita) uma porção de terras que vai do norte do Canadá até o sul da Patagônia? Seria esse um termo adequado para designar sociedades com modos de vida tão diversos como dos caçadores-coletores das florestas do litoral atlântico ou dos comerciantes das grandes cidades astecas? Talvez devêssemos nos fazer essas perguntas.

O erro inicial

Muitos de nós conhecemos a história da chegada do navegador Cristóvão Colombo às terras que ele acreditava serem as Índias (assim se conhecia toda a região sul da Ásia). Colombo, em nome da coroa espanhola, saiu ao mar em busca de uma nova rota para este importante centro de comércio mundial da época. Baseado nos cálculos  do pensador grego Ptolomeu, ele acreditava que as costas da China estariam muito mais próximas da Europa do que realmente estão. Ptolomeu fizera seus cálculos nos primeiros séculos da era cristã, então, eles não eram muito precisos. De qualquer forma, essa falsa noção de proximidade encorajou a aventura do navegador genovês.

A Europa toda acreditava, assim como Colombo, que as terras nas quais ele havia aportado, no ano de 1492, eram, de fato, as Índias. Seriam, no seu julgamento, um cantão oriental perdido do continente asiático. Habitado por um povo primitivo, chamados, a partir de então, pelos europeus, de índios. Essa versão perdurou até que o florentino Américo Vespúcio, através de suas viagens, descobrisse se tratar, aquela porção de terras, de um novo continente. O qual ganhou um nome inspirado neste explorador europeu.

Nós quem, cara-pálida?

Segundo a obra do professor Mario Maestri, Os Senhores do Litoral, onde é narrada e analisada a aventura europeia na América e o flagelo dos povos americanos, as designações que as populações do litoral brasileiro de então usavam para referirem-se a si mesmas eram extremamente diversas: tupinambás, tupiniquins, caetés, etc. Porém, ainda que os europeus considerassem o ato de nomear e individualizar próprio das sociedades civilizadas, eles não tiveram problemas em reduzir todo um universo complexo de culturas e línguas em uma única palavra, “índios”.

Mais tarde, essa designação foi ganhando contornos de outra ordem. Mais do que definir os habitantes nativos do novo continente descoberto, passou a representar um estereótipo. Era usada ao se referir a pessoas atrasadas, preguiçosas, selvagens, etc. Para os portugueses, se tornaria sinônimo de escravo, assim como a palavra “negro”. Desse modo, haviam os “negros da terra” (americanos) e os “negros da guiné” (africanos), mas alguém também poderia usar os termos “índios da terra” ou “índios da guiné”. Ou seja, pessoas destinadas pela natureza ao trabalho escravo.

capa de Os senhores do litoral

Um erro com mais de 500 anos

Errado ou não, até os dia de hoje, a palavra “índio” é usada. Com significados distintos, é verdade, conforme o grau de simpatia das pessoas para com os sobreviventes dos nativos americanos e sua luta para continuarem existindo. Mesmo estas populações, muitas vezes, acabam usando esse velho termo para falarem de si próprias. Talvez, para se fazerem entender melhor perante a civilização branca.

De qualquer maneira, o leitor de YVY não vai se deparar com Eva ou os seus conterrâneos, usando o termo “índio”. Eles são guarani, ainda que dentro desse termo também haja suas nuances. Assunto para outro post.

 

 

 

 

 

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Juan Diego, o padre desaparecido

Outro personagem de YVY, o padre Juan Diego, teve breve aparição no episódio 1. O inusitajuan diegodo padre chegou à redução para investigar o caso do gado que aparecia morto. Descendente do povo nahuat, do México, ele possui ideias sobre o universo que se chocam um pouco com o que a igreja católica pensa, assim, ele está disposto a averiguar um problema por mais de um ponto de vista.

Esse personagem foi inspirado em um Juan Diego verdadeiro. Se trata do mestiço mexicano que testemunhou a dita aparição de Nossa Senhora de Guadalupe, no século XVI. Configurando um interessante caso de sincretismo católico e “pagão”.

O padre Juan Diego desapareceu no episódio 1, Ele voltará?

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Padre Antônio, outro protagonista

Padre AntônioOutro personagem importante de YVY é o Padre Antônio, o administrador da redução fictícia da nossa série. Como todos os jesuítas da Cia de Jesus, nosso pacato sacerdote é versado em diversos idiomas e conhecedor das mais diversas artes e áreas de conhecimento, desde música, passando por metalurgia, arquitetura, astronomia, escultura e medicina.

 

Em um trecho do primeiro episódio, Padre Antônio revela que sua terra de origem seria o Tirol, uma região entre o norte da Itália e o sul da Áustria. Esse personagem é diretamente inspirado em outro Padre Antônio, o verdadeiro, já citado aqui no blog. Por que alguém deixaria o interior da Europa para atravessar o Atlântico e se embrenhar no coração da América colonial? Quem sabe? Continue acompanhando a série!

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Eva, a protagonista

EvaQuem acompanha a série YVY já conheceu Eva, a nossa protagonista. Eva é uma moça guarani que cresceu na redução, tendo uma educação cristã, sendo tutelada de perto pelo jesuíta responsável pela missão, o Padre Antônio. Decepcionada pelo envio obrigatório de seu amado para servir à coroa espanhola na guerra, ela deixa a vida na redução e se embrenha na mata para encontrar seu avô, o velho Moreyra, um velho feiticeiro que vive só na floresta.

O visual da personagem tenta representar essa ruptura com o mundo europeu, por isso, ela não usa o tradicional vestido de algodão cru, vestimenta comum nas reduções jesuítico-guaranis. Em lugar disso, ela usa uma saia de couro, também comum, mas que empresta uma aparência menos cristã à personagem. Os demais acessórios, braceletes e joelheiras vêm nesse mesmo intuito, dando um ar mais “capa e espada” à nossa protagonista. Por fim, a vincha usada pelos habitantes dos pampas para amarrar os cabelos ao cavalgar e as botas de garrão de potro nos pés, que, para a nossa Eva, ganharam um desenho diferente.

Vestimenta indígena missioneira.

Vestimenta missioneira                    Fonte: http://www.sohistoria.com.br/ilustrada/ateguaraniticas/p5.ph

Para fazer a conexão com a sua herança guarani, acrescentamos uma pintura no rosto, que, segunda uma amiga antropóloga, é a mesma usada pelas mulheres desse povo. Apesar de sua ruptura com o modo de vida europeu, ela ainda mantém uma ligação com o seu passado na redução. é o semi-crucifixo que ela carrega no pescoço. Acompanhe a série e você descobrirá porque falta um braço à cruz, também descobrirá a origem da espada que ela carrega, a Espada de Iansã.

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Silêncio: Martin Scorcese e os jesuítas

Por Rafael.

carta do filme Silêncio

Fonte: http://t2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQK7gV4wOuqoc1gey_zDlDdWCIQYFbFtdtt16DAi10PlQv6nfu6

A série YVY tem como cenário as missões jesuíticas no conesul da América. Por isso, o trabalho de pesquisa para a sua produção se debruçou um pouco sobre a história desses que eram considerados os soldados de Cristo, os jesuítas da Cia de Jesus. Nesse sentido, é preciso citar o filme Silêncio, do diretor Martin Scorcese, como um dos materiais pesquisados.

Já havia tomado conhecimento da aventura e o martírio dos padres jesuítas no longínquo Japão, ao ler o livro Viagem às Missões Jesuíticas e Trabalhos Apostólicos, outra referência usada na série YVY. Por isso, o filme me chamou a atenção quando foi lançado no Brasil, em 2017. Não se trata do filme mais aclamado do famoso diretor, mas tem o mérito de levantar fortes questões sobre fé e religião e, principalmente, sobre a importância, ou não, de se levar esse trabalho de conversão de outros à sua religião.

Nele, somos levados a nos horrorizar quanto à brutalidade com que o xogunato japonês do século XVII tratou aqueles que tentavam levar a influência estrangeira às suas terras. O protagonista do filme, o padre português Sebastião Rodrigues, interpretado por Andrew Garfield, se vê passando pelas mesmas dificuldades que os clandestinos cristãos primitivos passaram durante boa parte do império romano, tendo que viver fugindo e se escondendo, enfrentando torturas e martírios diversos. O silêncio, nesse caso, título do filme, pode dizer respeito ao modo como os cristãos japoneses deveriam viver para escapar da perseguição. Em silêncio. Mas o silêncio vai se manifestar no filme de muitos modos, o espectador que faça sua avaliação.

É bom lembar que violência em nome da religião também foi praticada largamente pelos cristãos, não só na idade média ou nas cruzadas. A Santa Inquisição que o diga.

De qualquer modo, a história dos jesuítas no Japão acabou inspirando um personagem da série YVY, você vai conhecê-lo no terceiro episódio, em fase de produção. Aguarde!

Até a próxima.

 

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Investigação Colonial

Dando continuidade às postagens sobre quadrinhos ambientados no Brasil colonial, desta vez, apresentamos a série Causos, de autoria de Eberton Ferreira, autor Gonçalense.

o demonio das matas

A série se passa no primeiro século da colonização portuguesa. Tendo como protagonista o bandeirante chamado Gonçalo, sempre seguido por seu inseparável companheiro, o tupiniquim Iberê. Os dois formam uma dupla de investigadores coloniais, detetives que atuam para solucionar estranhos crimes que começam a assolar a população da colônia portuguesa.

O ponto forte da série, na minha singela opinião, é a forma como o autor mescla, no seu universo, mitos e fatos históricos, criando interpretações muito interessantes para as origens de algumas lendas folclóricas que temos no Brasil. O roteiro é muito bem trabalho, mostrando a preocupação de costurar solidamente todos os pontos da trama. Não à toa, Eberton Ferreira ganhou o prêmio de melhor roteirista da ABRAHQ, em 2017.

Por enquanto, foram lançados 3 episódios da série. As revistas são produzidas em papel de boa qualidade e com capa colorida, ainda assim, o espírito fanzineiro da publicação é sentido em cada página. Tendo, seu autor, começado suas atividades nos quadrinhos no mundo do fanzine, como ele coloca na sua apresentação em Causos #1.

Conhece mais alguma publicação que siga essa mesma linha de ambientação? Escreva para nós.

Até a próxima!

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Fantástico colonial

Por Rafael

Em postagem anterior comentei sobre como alguns períodos históricos foram ou são aproveitados na constituição de produtos de entretenimento. Quero dizer, aqueles relacionados a mídia, cinema, quadrinhos ou literatura. Nesse sentido, temos séries e obras recheadas de samurais, vikings, cavaleiros, cowboys, etc.

YVY é uma série que quer explorar a época colonial do continente americano para esse fim. Sua ação decorre durante um período incerto, entre o final do século XVII e início do XVIII. Enquanto pensávamos e desenvolvíamos a nossa ideia, fomos tomando contato com trabalhos que já tinham buscado essa mesma linha. Um deles é A Bandeira do Elefante e da Arara.

De autoria do estadunidense radicado em Porto Alegre, Christopher Kastensmidt, o universo de A Bandeira do Elefante e da Arara tem como protagonistas uma insólita dupla, Gerard Van Oost e Oludara, um holandês e um africano de origem yorubá, que formam uma bandeira de dois indivíduos, eles mesmos, e vivem fantásticas aventuras nas selvas e cidades do Brasil colonial, conhecendo e/ou enfrentando criaturas místicas do folclore brasileiro.

A série é encontrada em forma de literatura, quadrinhos e RPG e é uma excelente maneira de conhecer elementos da história e cultura brasileira, pois se nota o primoroso trabalho de pesquisa realizado na sua elaboração. Tendo, inclusive, já sido utilizada em projetos de leitura em algumas escolas de Porto Alegre.

A nacionalidade do seu criador não parece interferir de forma alguma na construção da representação da vida dos habitantes do Brasil colonial, assim como os criadores de Tex também não eram dos EUA. Cenários e figuras interessantes existem no mundo inteiro e fora dele, basta um olhar distinto e criatividade.

Até uma próxima!

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APP YVY

capa do app yvy

Já havíamos anunciado, no mês passado, o lançamento do app de YVY, facilitando o acompanhamento da série para quem gosta de praticar a leitura em telas de celulares. Hábito cada vez mais comum nessa era tecnológica em que vivemos. A novidade é que, agora,  o app está disponível em mais de uma plataforma. Além do google play, também é possível fazer o download gratuito na loja da Amazon, basta clicar aqui 

O app é gratuito e em língua portuguesa. Não perde.

 

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Quadrinhos no Celular! Outra forma de ler YVY

Por Rafael

Investindo ainda no formato digital, esta semana inauguramos uma nova opção para os leitores e leitoras acompanharem a série YVY. Para quem está acostumado a ler no celular ou tablet, agora é possível baixar o aplicativo de YVY e instalar no seu aparelho. O primeiro episódio, A Redução, está disponível completo e quem ainda não o leu no site, pode experimentar essa nova experiência de leitura. O segundo episódio, O Dia da Caça, está em andamento, acompanhando o mesmo ritmo do site, toda semana uma página nova. O aplicativo é gratuito e pode ser encontrado no Google play. Aqui você tem uma prévia do visual do aplicativo no seu celular.

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